Hell Let Loose – Uma lição em como escavar trincheiras

Hell Let Loose é um online-multiplayer-first-person-shooter fascinante em vários aspectos. Para já porque é fruto de um projeto Kickstarter, depois porque é bastante bom e não quando comparado a outros projetos que tiveram origem no Kickstarter, mas mesmo quando comparado aos seus pares mais diretos como Battlefield 1 ou Call of Duty: WWII.

Ora vejamos: em Hell Let Loose temos mapas absolutamente gigantescos, onde 100 jogadores se defrontam (50 de cada lado da barricada), o jogo é graficamente espetacular, com uma atenção ao detalhe que não é de todo comum e mesmo a jogá-lo num portátil com uma (agora idosa) GTX1070, a fidelidade visual é soberba, quer nos personagens, quer nos cenários e o jogo corre de forma espetacularmente fluída, algo que sinceramente não estava à espera.

Mas o que coloca Hell Let Loose num patamar superior e claramente destacado dos milhentos clones do multiplayer do Call of Duty, além do acima descrito, é o modo formidável como Hell Let Loose caminha numa fina linha entre a simulação e a experiência mais arcade, “escavando” desta forma a sua própria trincheira no meio deste tipo de jogos. A forma como o faz também é muitíssimo inteligente já que à primeira vista, tudo neste jogo grita arcade, mas assim que assumimos o controlo do nosso soldado e somos lançados num dos vastos mapas de jogo percebemos claramente que aqui é suposto prestarmos atenção, mantermo-nos unidos ao nosso pelotão e, se possível, devemos conseguir comunicar com os nossos companheiros de forma a conseguirmos controlar o rumo da batalha. Neste último ponto, Hell Let Loose assemelha-se mais a algo como uma ronda de Counter Strike em que a comunicação entre a equipa é fundamental, do que uma ronda qualquer de Call of Duty, na qual sentimos que podemos dar uma de Rambo e desatar a correr “desmioladamente” aos tiros.

Infelizmente nem tudo é maravilhoso em Hell Let Loose e as suas origens de projeto Kickstarter fazem-se notar principalmente nas “pequenas” coisas que acabam por fazer a diferença na hora de escolher que jogo queremos jogar. Refiro-me, por exemplo, ao facto de não haver servidores dedicados por região, ao próprio interface ser muitas vezes confuso, à falta de tutoriais ou ao facto de que, havendo várias opções possíveis dentro de cada tipo de soldado, bem como vários papeis que cada um deles pode desempenhar, não haja uma explicação simples que nos indique qual devemos escolher ou porquê. Ainda para mais, sendo este um jogo que tem muito de tactical-shooter, onde é efectivamente preciso comunicar devidamente, seria importante existir alguma forma de “guiar” os menos experientes pelo campo de batalha e pelas escolhas. Da forma como está, somos muitas vezes assoberbados com a quantidade de escolhas que temos de fazer antes de conseguirmos entrar no jogo propriamente dito e quando o fazemos, o nosso papel a desempenhar nem sempre é claro, o que leva muitas vezes a que o nosso pelotão se perca e o resultado seja inevitavelmente a derrota. Entrar no jogo também nem sempre é fácil, não só por não existirem servidores dedicados, como pelo interface que parece saído dos finais dos anos 90 também não ajudar nada. Quem jogou Quake II Arena ou Unreal Tournament vai sentir um blast  from the past assim que olhar para a lista de servidores. Dito isto, Hell Let Loose ainda se encontra em early access e estes “problemas” podem ser resolvidos com alguma facilidade… se houver paciência e, em última instância, jogadores suficientes que o justifiquem. 

Conclusão:

Hell Let Loose tem em si os ingredientes para vir a ser um jogo de topo, capaz de competir com as versões multiplayer de um Call of Duty: WWII ou um Battlefield 1 e o facto de ainda estar em early access dá-me alguma esperança que isso seja possível. Recomendo-o sem pestanejar aos amantes de jogos multiplayer (tendencialmente de simulação) sobre a Segunda Grande Guerra,  principalmente aos que tenham um grupo algo vasto de amigos com quem jogar, pois essa é a melhor maneira de aproveitar o que este jogo tem de mais brilhante. No entanto, para a generalidade das pessoas, pelo menos para já, este é um jogo que dá demasiado trabalho para o que oferece em troca.