Simon the Sorcerer: Origins — Truques antigos com uma alma nova | Análise

Lançado a 28 de outubro de 2025, Simon the Sorcerer: Origins surge como um prelúdio que nos transporta de volta ao universo que, desde 1993, ano em que é publicado o primeiro jogo do MS-DOS e Amiga, que conquistou os fãs de aventuras gráficas com humor sarcástico, diálogos inteligentes e puzzles bem construídos. Desenvolvido pela Smallthing Studios e publicado pela ININ Games, este título mantém o núcleo clássico do gênero point-and-click, mas acrescenta uma camada de modernidade que o torna atraente para jogadores contemporâneos, sem perder o charme que definiu a franquia no início dos anos 90. Apesar de não ser o maior conhecedor do género, sempre me fascinou os mundos e as histórias que estas aventuras conseguiram criar no passado. Joguei imensas e sou grande fã de várias delas, mas as minhas expectativas estão sempre bem presentes neste tipo de propostas, até porque as suas limitações mecânicas são, à partida, óbvias, ainda que não se possa dizer que não houve inovação no gênero, basta olhar para o sucesso que o implemento de maior interatividade teve nas aventuras da Telltale. Simon the Sorcerer: Origins é, no entanto, uma aventura com um estilo muito clássico, algo que o torna nostálgico mas também comum, no meio de tantas outras propostas.

A premissa coloca Simon, ainda um adolescente, a mudar de casa com os seus pais e, enquanto explorava a casa e tentava abrir uma porta Simon é transportado para um mundo mágico repleto de feitiços, criaturas caricatas e mentores excêntricos. Este é o início daquilo que viria a ser uma saga icónica explorada nos títulos antigos. Desde o primeiro momento, percebe-se que a narrativa valoriza o humor e a irreverência, o próprio Simon dirige-se ao jogador, comenta situações absurdas e mantém aquela ironia que sempre foi marca registada da série. É um prelúdio que não só explica a história como também reforça a identidade da personagem. Mesmos os personagens secundários, participam neste humor e têm falas muito interessantes e bem escritas. No geral é um jogo muito forte neste aspecto, mas diga-se que se não o fosse, seria preocupante e mesmo assim, por outro lado, a constante tentativa de humor e piadas meta-referenciais podem afastar jogadores menos familiarizados tornando certas situações um bocado repetitivas ou menos impactantes pela falta de contexto.

A jogabilidade mantém-se fiel ao estilo point-and-click clássico: explorar cenários , recolher objetos, combiná-los de formas criativas e interagir com personagens continua a ser o motor da experiência. Contudo, Origins introduz novidades, como feitiços, dispositivos mágicos e “chapéus” que alteram a forma como interagimos com o mundo e com os objectos, conferindo mais profundidade e variedade aos puzzles. Estes são um misto de emoções. Embora haja vários bem construídos: desafiantes o suficiente para exigir pensamento criativo, mas integrados de forma lógica na narrativa, há outros que são tão obtusos, ou que têm de ser abordados de uma maneira tão específica, que nos lembra várias aventuras infames dos anos 80 e 90 neste aspecto, ainda que populares.  Alguns podem mesmo revelar-se demasiado ilógicos ou tão dependentes de sucessivas tentativas frustrantes que tornam certos momentos muito mais demorados do que seria necessário ou recomendado para a sanidade do jogador.

Visualmente, o jogo impressiona com o seu estilo desenhado à mão que evoca de forma positiva os clássicos dos anos 90, mantendo o sentimento e objectividade cartoonish da pixel art, mas com a nitidez e fluidez que o hardware moderno permite. Os fundos detalhados, as cores vibrantes e as animações expressivas conferem personalidade a cada cenário, enquanto a banda sonora e os efeitos sonoros, complementados por um muito competente voice acting reforçam a imersão e a atmosfera. A execução estética é sólida e no geral um sucesso, mas não totalmente homogénea, com alguns desenhos a destacarem-se por destoarem negativamente de outros mais trabalhados, contribuindo assim para uma ligeira quebra da coesão visual. Destaque também para o simples menu, bem apresentado, que serve perfeitamente o seu propósito de interacção e visualização dos nossos items sem nunca ser evasivo.

No conjunto, jogar Simon the Sorcerer: Origins é uma experiência gratificante, tanto para fãs de longa data como para novos jogadores curiosos. É um título que respeita o legado da saga, trazendo inovação suficiente nos puzzles e ideias base para justificar a sua existência como prelúdio sem se desviar da essência que tornou Simon memorável. Ao mesmo tempo, nota-se que poderia ter explorado ainda mais a profundidade do mundo, oferecendo cenários mais variados, puzzles ligeiramente mais polidos e uma curva de dificuldade melhor equilibrada para iniciantes. Para entusiastas de aventuras gráficas e jogadores com apetite por humor e puzzles, Origins é uma proposta sólida e divertida, mas longe de perfeita.

 

Veredito: 7

Simon the Sorcerer: Origins é um feitiço de nostalgia eficaz, mas com falhas de concentração. Um regresso encantador com problemas graves basilares dífíceis de desculpar nos dias que correm.