Há jogos que não precisam de te convencer de nada. Abres, jogas cinco minutos, e já estás a sorrir sem perceber muito bem porquê. Yoshi and the Mysterious Book é exatamente isso — uma experiência que não te pede grande coisa em troca, mas que te devolve um encanto genuíno que poucos jogos conseguem replicar. Não é perfeito, não é revolucionário, mas é difícil ficar-lhe indiferente.
Estamos perante um platformer 2D de cariz familiar, no seguimento direto da trilogia artesanal da Nintendo — Yoshi’s Woolly World e Yoshi’s Crafted World. A premissa é simples: saltar, engolir, atirar ovos e explorar níveis com um ritmo tranquilo. Não há estados de falha, não há vidas, não há pressão.
O jogo convida à descoberta mais do que ao desafio, e isso é uma escolha consciente da Good-Feel, o estúdio japonês por detrás da série. Com Woolly World (2015) e Crafted World (2019) já no currículo, a Good-Feel construiu uma identidade muito própria dentro da Nintendo: jogos visualmente inventivos, acessíveis, e com uma coerência estética rara. Mysterious Book segue essa linha, mas com uma ambição técnica claramente maior, aproveitando o hardware da Switch 2 para elevar o visual a um novo patamar.
Cresci com o Yoshi na era dos 16 bits, quando ele era ainda o fiel companheiro do Mario em Super Mario World. A série Yoshi’s Island marcou-me profundamente — aquela mistura de caos colorido com uma banda sonora inesquecível. Os jogos mais recentes da Good-Feel nunca tiveram esse mesmo impacto emocional, mas joguei-os sempre com prazer. Mysterious Book chegou numa altura em que a Switch 2 precisava de um jogo de família de qualidade, e eu precisava de algo leve entre jogos mais pesados. Encaixou na perfeição.
A narrativa é, honestamente, um pretexto. O Bowser Jr. encontra um livro gigante na biblioteca do castelo do Bowser, olha para ele através de uma lupa mágica e é transportado para dentro das suas páginas. O livro — um ser vivo chamado Mr. E (abreviatura de Encyclopedia) — acorda e pede ao grupo de Yoshis coloridos que explorem as suas páginas para descobrir as criaturas que as habitam.
É uma premissa encantadora, mas o lore não vai muito além disto. Mr. E é simpático, não é profundo. A estrutura divide-se em capítulos temáticos — cada um correspondendo a uma secção da enciclopédia — com níveis variados que apresentam criaturas e habilidades únicas. A variedade de ambientes mantém o ritmo, e o jogo nunca se torna monótono, ainda que a progressão narrativa seja praticamente inexistente.

As mecânicas base são as que já conheces: saltar, engolir inimigos, transformá-los em ovos e usá-los como projéteis. Simples, fluido, responsivo. A novidade central está na lupa mágica, que o Yoshi usa para revelar criaturas escondidas nos níveis e interagir com elas de formas específicas — cada criatura tem uma habilidade particular que podes absorver temporariamente para resolver puzzles ou aceder a zonas secretas.
É uma mecânica fresca dentro da série, que justifica a exploração e dá variedade ao gameplay sem o complicar desnecessariamente. Fiquei com um feel muito semelhante ao de Super Mario Wonder, onde cada nível também era uma surpresa porque trazia sempre uma mecânica diferente — aqui a lógica é parecida, e funciona pela mesma razão. Para jogadores experientes, a ausência de estados de falha e a facilidade geral podem tornar o ritmo demasiado tranquilo — mas esse nunca foi o objetivo do jogo.

Do ponto de vista técnico e visual, este é provavelmente o ponto mais impressionante. A Good-Feel usou o Unreal Engine e a potência da Switch 2 para criar um visual que simula ilustração à mão com técnicas 2.5D, dando às personagens e cenários a aparência de stop-motion animado a lápis de cor. O resultado corre a 4K em modo docked e a 60fps sólidos, com exceções intencionais de framerate mais baixo nos movimentos de certas personagens — para reforçar a ilusão de animação artesanal. É uma solução técnica brilhante que transforma uma limitação aparente numa virtude estética.
A identidade visual vai ainda mais longe do que a técnica. A transição de lã e cartão para lápis de cor e papel enciclopédico é uma evolução lógica e corajosa da trilogia. Cada nível parece uma página ilustrada de um livro antigo — com bordas texturadas, fundos que parecem pintados à mão, e personagens que parecem recortadas e animadas. A coerência é total: cada elemento visual reforça a premissa do livro, e o charme não é acidental — é resultado de escolhas artísticas muito deliberadas. A interface segue a mesma lógica, com menus que têm o aspeto de páginas de enciclopédia, limpos e intuitivos, sem atritos.

Na frente sonora, a banda sonora é encantadora e coerente com o tom do jogo — alegre, melodiosa, com arranjos que variam conforme o capítulo temático. Não é tão memorável como a do Yoshi’s Island original, mas é um acompanhamento genuinamente agradável. Os efeitos sonoros são satisfatórios e os sons do Yoshi — os habituais “yoshi!” e variações — continuam a ser um comfort food auditivo para quem cresceu com a série.
A Good-Feel não reinventou a roda, mas trouxe algo novo suficiente para justificar a existência do jogo. O conceito da enciclopédia viva, com criaturas únicas por capítulo e a mecânica da lupa como ferramenta de descoberta, é uma adição genuína à fórmula. Não é uma revolução — é uma evolução cuidada. Para a série Yoshi, é o passo mais ousado desde Yoshi’s Island.
O maior senão é a longevidade. Para jogadores adultos com experiência em platformers, a campanha principal é relativamente curta e o nível de desafio raramente exige esforço. A coleção de itens escondidos e os objetivos secundários prolongam a experiência, mas não de forma suficiente para quem espera mais de 15 horas de jogo. É um jogo que se esgota depressa, ainda que o tempo que dura seja consistentemente bom.

Quanto à diversão, não há dúvidas. Yoshi and the Mysterious Book é divertido, do início ao fim. O cool factor Yoshi está intacto — há algo de irresistível em engolir um inimigo e transformá-lo num ovo colorido a meio de um salto. A leveza da experiência, que podia ser uma limitação, acaba por ser também o seu maior trunfo: é impossível jogar este jogo de mau humor. Uma das memórias mais divertidas desta análise foi alternar sessões com o meu filho de 12 anos — cada um com os seus próprios objetivos. Eu a tentar desbloquear o próximo capítulo, ele a recusar-se a avançar enquanto não descobrisse todos os segredos de cada nível.
O engraçado é que, no segundo capítulo, ele já tinha estrelas suficientes para saltar diretamente para o sexto — e ainda assim ficou onde estava, metodicamente, a não deixar nada para trás. São este tipo de momentos que um bom jogo de família consegue criar. Não vai ser lembrado como um dos grandes da Nintendo — não tem a profundidade de um Metroid, nem o impacto cultural de um Mario principal. Mas solidifica a identidade da série e prova que há espaço, na biblioteca da Switch 2, para jogos que não precisam de ser grandes para serem bons.

Yoshi and the Mysterious Book é exatamente o que promete: um jogo bonito, acessível e encantador, que não te vai exigir muito mas que te vai dar um sorriso garantido. A evolução visual da Good-Feel é impressionante, a mecânica da lupa adiciona frescura suficiente, e a coerência estética é de manual. Peca pela curta duração e pela ausência de desafio para jogadores mais experientes, mas esses não são o público-alvo — e isso não é uma crítica, é apenas uma descrição. Se tens filhos, ou se precisas de um jogo para desligar do mundo, dificilmente encontras algo melhor neste momento na Switch 2.

Nascido em 1980, cresci a soprar cartuchos e a acreditar que gráficos de 16 bits eram o auge da tecnologia. Coleciono memórias e achievements em todas as consolas, e jogo de tudo… ou quase tudo (não quero jogar online). Para mim, cada jogo é uma viagem no tempo — às vezes para o futuro, às vezes de volta à infância.
