A mítica “SEGA Portugal” (Ecofilmes): Parte I

A Ecofilmes, fundada em 1985, destacou-se como representante oficial da SEGA em Portugal entre 1991 e o início dos anos 2000. Sob a marca “SEGA Portugal”, distribuiu consolas e jogos por 10 anos, lançou o Clube SEGA, publicou a revista Mega Force e desempenhou um papel central na popularização das consolas e dos jogos da SEGA no mercado português.

A Ecofilmes foi fundada em 1985, em Portugal, como distribuidora de cinema e, em 1991, entrou no mercado de videojogos como representante exclusiva da SEGA, sob a designação “SEGA Portugal”. Por meio desta subdivisão, a empresa passou a distribuir hardware da SEGA nesse mesmo ano, incluindo as consolas domésticas Mega Drive e Master System II e a consola portátil Game Gear. Todos os produtos oficialmente distribuídos apresentavam o selo “Garantia SEGA Portugal”, que distinguia as edições licenciadas de clones e de importações paralelas.

Em 1995, a empresa expandiu o seu catálogo para incluir a SEGA Saturn e o respetivo software, bem como títulos de PC associados à SEGA. Em 1999, passou também a distribuir a SEGA Dreamcast e os seus jogos, mantendo atividade neste mercado até ao início dos anos 2000. Após a retirada da SEGA do mercado de hardware, a designação “SEGA Portugal” deixou de ser utilizada. A distribuição de videojogos continuou sob a marca Ecoplay, refletindo uma estratégia mais ampla e multiplataforma que incluía, mas já não se limitava a produtos da SEGA.

Durante as próximas semanas, serão publicados vários artigos sobre este período em Portugal, traçando um panorama da influência da SEGA e da forma como foi criada uma Segalândia no nosso país.

Um país à espera das consolas japonesas

A década de 1980 foi marcada por vários acontecimentos e transformações sociais, políticas, económicas e, naturalmente, tecnológicas. Foi neste período que, à semelhança do que ocorria no resto da Europa, muitos jovens portugueses descobriram os videojogos por meio dos microcomputadores.

Esta época, recordada hoje em muitas frentes nostálgicas, é também a época em que fábricas internacionais, como a Timex of Portugal, se revelaram importantes para o desenvolvimento tecnológico do País, disponibilizando, a baixo custo, sistemas compatíveis com a família ZX da Sinclair Research.

Com a chegada dos microcomputadores, acessíveis à classe média, e com programas de literacia informática como o MINERVA, dezenas de milhares de jovens tiveram acesso em massa aos primeiros jogos digitais e ao conhecimento desse novo meio de entretenimento. Contudo, este não foi o único em expansão no país.

Antes da chegada das consolas, os microcomputadores eram a referência para jogos em Portugal

 

É também neste período que surgem também em massa as pequenas lojas de electrónica, vendendo televisores, computadores, rádios e, claro, leitores de vídeo. Daqui nasceram outros ramos, como os primeiros clubes de vídeo, espaços onde era possível alugar ou comprar cassetes VHS ou Betamax de diversos géneros cinematográficos. A procura por estes novos conteúdos cresceu rapidamente, acompanhando o interesse por formas emergentes de entretenimento audiovisual e, claro, por quem chegasse a estes clubes com as novidades deste meio.

É neste clima que a Ecovideo foi fundada em 1984 em S. João da Madeira, no norte de Portugal, por Gil Oliveira Santos e Manuel Rodrigues de Almeida Fonseca, tendo mais tarde integrado Francisco Mário Dorminski de Carvalho como CEO e director de Marketing. No ano seguinte, a empresa dedicava-se inicialmente à distribuição cinematográfica e audiovisual através do nome Ecofilmes[1]. No início da década de 1990, diversificou as suas atividades e entrou no mercado de videojogos.

Em 1991, foi criada a marca “SEGA Portugal” para distribuir consolas de terceira e quarta geração da japonesa SEGA, incluindo os seus jogos em todo o país. Eram estas as consolas domésticas: a Master System II, a Mega Drive e a portátil Game Gear. Para as campanhas de marketing dos produtos SEGA, a Ecofilmes estabeleceu uma parceria com a agência de comunicação Bozell Portugal (adp Bozell), que atuava como representante da Bozell norte-americana (empresa que havia trabalhado na famosa campanha “Nintendon’t” nos EUA). Paralelamente, a distribuição da SEGA nos Açores foi sublicenciada à DisRego.

Mais forte que tu? Mais oui!

Em 1986, Portugal integrou oficialmente a CEE (Comunidade Económica Europeia), beneficiando, posteriormente, de fundos e investimentos destinados à modernização do país, então profundamente debilitado por uma revolução e por duas intervenções do FMI (1977 e 1983). A modernização fazia-se sentir gradualmente: Portugal afastava-se do discurso isolacionista de décadas anteriores e aproximava-se da Europa e, sobretudo, das oportunidades que dela advinham.

Foi também neste período que a classe média portuguesa se expandiu significativamente. Reinavam um certo otimismo e uma forte curiosidade por novidades tecnológicas que chegavam com crescente intensidade do estrangeiro, especialmente da eletrónica japonesa.

 

A Ecofilmes, já ativa desde os anos 80, dispunha de uma vasta rede de lojas e de representantes em Portugal. Muitos desses parceiros viriam a tornar-se distribuidores oficiais dos produtos da SEGA (Agentes Autorizados SEGA), embora a maioria estivesse inicialmente ligada ao comércio eletrónico ou de vídeo. Reconhecendo a necessidade de ampliar a cobertura nacional, a empresa estabeleceu ainda uma parceria estratégica com a Portidata, conhecida pela representação de editoras internacionais de jogos para PC em Portugal, aumentando assim o número de pontos de venda de consolas e dos respetivos jogos.

Num curto espaço de tempo, os agentes autorizados passaram a receber material oficial da SEGA. Todos os produtos exibiam o selo “SEGA Portugal”, e incluíam manuais em português e autocolantes com descrições traduzidas nas caixas, em cumprimento da legislação portuguesa (Decreto-Lei n.º 238/86). Isto significava que muitos jogos não eram vendidos selados, pois era necessário abri-los para inserir o manual. Em alguns casos, tratava-se apenas de uma folha A4 com instruções traduzidas; noutros, de um pequeno livreto impresso em azul, com um único agrafo central, concebido para reduzir os custos de produção e de impressão. O lema publicitário “É mais forte que tu!” foi inspirado diretamente na campanha francesa da SEGA, “C’est plus fort que toi”, e refletia exatamente o espírito de inovação que se acelerava no país.

O famoso selo da Garantia Sega Portugal
O famoso selo da Garantia Sega Portugal

 

Não havia consolas e, de repente, só havia consolas!

No último trimestre de 1991, com o selo da “SEGA Portugal”, apareceram a Mega Drive (pacotes desde 33.500$00, 39.900$00 e 47.900$00), a Master System II (pacotes desde 18.900$00, 24.700$00 e 29.900$00) e a Game Gear (pacotes desde 39.900$00, e 41.900$00)[2]. Uma centena de jogos compatíveis com estes sistemas também foram lançados, com preços que variavam entre 4.990$00 e 12.990$00. Num país em que as consolas e respectivos jogos escasseavam, surgiram, assim, de uma só vez, três, todas com distribuição oficial (a par da Chaves Feist & C.ª Lda, que também lançou duas consolas no mercado, oriundas da Nintendo ao mesmo tempo—a NES e o Game Boy). De salientar que o ordenado mínimo em Portugal em 1991 rondava os 33.500$00.

Esta foi também uma época irreverente no país, em que os jovens procuravam novas formas de expressão e consumiam mais média internacionais do que as gerações anteriores, aproximando-se de discursos mais radicalizados que se refletiam em vários contextos culturais. A chegada de revistas importadas, como a Ragazza, a Bravo e as portuguesas Super Jovem e Surf Portugal, são ilustrativas desse fenómeno, mas não surgiram isoladamente.

A implementação dos canais privados de televisão, SIC e TVI, reforçou esse espírito. Embora a TVI mantivesse uma linha mais conservadora nos primeiros anos, a SIC procurou comunicar-se diretamente com o público jovem, criando uma programação marcadamente juvenil. Programas como “Portugal Radical” (1992), “Sexo Forte” (1993), “O Pecado Mora Aqui” (1993) e “Muita Lôco” (1994) abordavam temas ligados à juventude local ou ofereciam espaços onde os jovens podiam expressar-se com mais liberdade. A RTP também respondeu com séries como Riscos (1997) e programas como o Alta Voltagem (1996), embora numa época mais tardia.

 

A Sega e o Sonic tentava passar uma imagem de radical
A Sega e o Sonic tentava passar uma imagem juvenil de radical

 

Na rádio, emissoras como a Rádio Cidade também se alinhavam a este novo discurso, adotando um estilo mais dinâmico e informal, pouco comum na época. Paralelamente, o movimento musical grunge chegava às rádios portuguesas, trazendo ao grande público letras introspectivas, vozes grunhais e guitarras estridentes vindas de Seattle, de bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains (que rapidamente conquistaram uma geração). Enquanto, na produção musical local, apareciam bandas como os Despe e Siga, com letras que se referiam às consolas da SEGA, como na quadra “Bué da mega, driver sega, Entrei noutra dimensão” da música, Buéda Baldas (1994).

Sem surpresa nenhuma, um dos objetivos da Ecofilmes era criar uma comunidade juvenil dedicada às consolas, numa altura em que a maioria dos jogadores portugueses utilizava microcomputadores e PCs como suporte para jogos. Com o apoio da agência de comunicação Bozell Portugal, muitas peças publicitárias internacionais foram adaptadas para Portugal, tanto na imprensa quanto na televisão. Estas seguiam uma linha mais jovem e irreverente, muito próxima dos contextos desta época, mas sem ir de encontro às campanhas norte-americanas de “guerras de consolas”, conhecidas pela sua animosidade em relação à concorrência da Nintendo.

Os anúncios televisivos começaram a ser transmitidos primeiro na RTP e, mais tarde, também na SIC e na TVI. Na RTP, às quartas-feiras à tarde, no programa Ponto Por Ponto, no segmento de tecnologia e jogos, apresentado por Paulo Dimas, foram também demonstrados e analisados vários jogos da SEGA. NA TVI, o programa de 1993, Janelas Virtuais também ofereceu coberta aos videojogos da época, incluindos os da marca japonesa. Numa entrevista em 2017 para a revista Pushstart, Dimas também confirma que a SEGA era “sensacional” e “muito bem distribuída”, sendo que hávia uma grande procura com as consolas desta marca japonesa. Noutros meios, como na rádio, começaram a passar anúncios e passatempos com oferta de materiais da SEGA aos ouvintes.

 

 

Os Agentes Autorizados SEGA

É durante este período que os retalhistas oficiais da “SEGA Portugal” (ou agentes autorizados da SEGA) começaram a receberer materiais promocionais e de merchandising, incluindo placas, folhetos, cartazes, autocolantes transparentes para montras e cassetes VHS com demonstrações de consolas e jogos.

Neste processo expositores de consolas e televisores, bem como armários para armazenar jogos começam também a figurar nas lojas deste agentes. Estes materiais eram distribuídos gratuitamente tanto em grandes superfícies comerciais quanto em estabelecimentos menores, como videoclubes, quiosques, lojas de informática e livrarias. Segundo Fernando Dias, proprietário de um videoclube em Odivelas nos anos 90 e antigo Agente Autorizado SEGA, a Ecofilmes enviava listas de próximos lançamentos por fax, a partir das quais os retalhistas faziam as encomendas, e a sua procura era elevada: “Aquilo da SEGA era incrível. Todos os meses vendíamos dezenas de jogos”. Outra retalhista, Ana Maria Ferreira, proprietária de uma loja de eletrodomésticos em Lisboa, confirmou este método e destacou que o período natalício era especialmente intenso, chegando a vender centenas de jogos: “Chegava ali o Natal, era tiro e queda. Lá vinha o fax, nós encomendávamos e os jogos saíam daqui quase a correr”. Filipe Martins, cuja mãe detinha uma rede de clubes de vídeo em Almada, Costa da Caparica, Pinhal Novo e Moita em 1991, recorda os processos desse período. Segundo ele, “Tudo era feito por Fax. Nós escolhíamos os títulos e a quantidade que queríamos, e a distribuidora, pouco depois, trazia os jogos em caixas de cartão com o selo da SEGA Portugal.” Como não existiam lançamentos globais e os jogos chegavam ao país mais tarde, Martins acrescenta que “graças às revistas e às arcades, sabia mais ou menos o que estava para chegar e depois sugeria à minha mãe quais seriam os melhores jogos para encomendar.” Ele também confirma que o Natal era a melhor época de vendas e que o lucro por venda ao retalhista “rondava cerca de 30%”. Tanto Dias, como Martins, também relatam tentativas de incutir um modelo de aluguer de jogos (tal como já faziam com os filmes), mas em que ambas as situações a Ecofilmes, dissuadi-los deste modelo em acordo com o Decreto-Lei n.º 252/94: sobre a regulação do Aluguer e Empréstimo.

Era comum videoclubes serem também Agentes Autorizados Sega

Próxima parte:

As campanhas de marketing da SEGA Portugal, a chegada de mais material da SEGA, os campeões portugueses nos concursos de jogadores da SEGA e a pirataria!

 

A equipa da Sidequest agradece a todos os entrevistados pelo seu tempo e disponibilidade, bem como ao blogue Retro Arquivo pelas digitalizações do material SEGA deste período.

[1] Victor, P. (2009, 15 de Setembro). Gil Santos • Distribuidor European Distributors: Up Next! 2009 – Portugal. Cineuropa. https://cineuropa.org/en/interview/112747/

[2]  Redação. (1993).SEGA baixa todos os preços. Revista Bestial, 3 (1), 8. Cérebro da Besta, Soc. de Publicações, Lda.