Bad Cheese – Um pesadelo em cartoon | Análise

Gosto muito desta nova moda de trabalhar um jogo à volta de um visual que lembra os cartoons dos anos 20. Falo dos anos 20 do século XX, para que não restem dúvidas. Portanto, 100 anos depois, há aqui um renascer de um estilo que tinha ficado arrumado a um canto e que agora ganha nova vida, com todo o seu charme meio desconfortável. Claro que o rato mais famoso do mundo ter passado recentemente a domínio público, e a onda de notícias em torno disso, ajudou a reacender o interesse neste tipo de estética. O Bad Cheese surge exatamente nesse espírito: pega nesse visual vintage, com olhos que derretem, sorrisos assustadoramente largos e animações que parecem saídas de uma bobina encontrada no sótão, e constrói um jogo em torno dele. Um jogo de terror.

Bad Cheese conta a história de um pequeno rato que está a passar o fim de semana em casa sozinho com o pai, enquanto a mãe está ausente. O pai é uma figura estranha, ausente de emoções. Aos poucos, vamos percebendo que ele não é apenas esquisito — há qualquer coisa de profundamente errado. Os diálogos são curtos mas capazes de criar inquietação, principalmente porque jogamos com aquilo que percebemos muito cedo ser uma criança, e o “inimigo” que não nos respeita é o próprio pai. A mãe deixou vários bilhetes espalhados pela casa, e estes têm um tom calmo, com ternura e preocupação, mas que lembram sempre que “o nosso pai tem de estar contente” ou “o nosso pai não pode não ter isto”. Ou seja, mesmo da parte maternal, que se apresenta como alguém que nutre carinho pelo nosso personagem, não deixa de ter um lado protector para com o pai, que nos mete a nós como jogador um bocado entre a espada e a parede. Este é o aspecto mais positivo de Bad Cheese porque há realmente um contar de uma história que diz o que quer de maneira eficiente, e que consegue criar emoções de medo e de uma certa revolta no jogador.

bad cheese

Toda a acção em Bad Cheese passa-se dentro da casa de família do nosso rato e na primeira pessoa. Enquanto exploramos a habitação, percebemos que cada divisão vai ficando mais distorcida, mais surreal, como se o rato estivesse preso num pesadelo. Nós passamos a maior parte do jogo a fazer coisas para agradar ao pai, como por exemplo limpar a cozinha, lavar as meias dele sujas, ou simplesmente a não fazer barulho para não o incomodar. É estranho e um bocado macabro porque na inocência do nosso personagem ele parece estar a fazer algo a que já está habituado, como se aquilo que estamos a vivenciar fosse normal, mas nos nossos standards de sociedade está tudo mais do que errado. A maior parte destas tarefas acabam por ser pequenos puzzles simples e desinteressantes mas com uma pitada de humor, ainda que distorcido. Estes são intercalados com algumas secções de acção básicas em que, na primeira pessoa, temos de utilizar por exemplo lágrimas vindas de um lenço que foi usado para chorar, ou um aspirador para nos livrarmos de aranhas e das suas teias. 

Como é óbvio o que mais salta à vista aqui, e que possivelmente mais interessou a malta é mesmo esse aspecto gráfico. Aquilo que é desenhado e apresentado num plano bidimensional é realmente muito fixe, mas o resto é de um 3D muito básico e honestamente desinteressante, desinspirado e muito vazio de ideias e de criatividade. Sendo este um jogo que tem como objectivo ser algo desconfortável para o jogador, é muito interessante como este estilo consegue, apesar da sua aparência inocente, transmitir uma sensação de insegurança. Alguns dos desenhos são também horríveis, no bom sentido neste caso, capazes de um desalento visual que fica na memória. Isto acompanhado por sons também eles incômodos, novamente, num bom sentido, quer sejam vozes, efeitos, música, ou só som ambiente. Isto tudo passa muito rápido, penso que tenha conseguido chegar até ao fim em menos de duas horas sem dificuldades. Portanto, não há aqui muito para oferecer e não vejo razão para voltar a repetir, mas é um jogo com um preço de 12.79€.

 

Veredito: 6.5

No fim acabou por ser uma experiência positiva, apresenta um desenrolar da narrativa interessante, que consegue criar sério desconforto ao jogador graças a estar aliada a uma componente audio visual diferente, competente e estranhamente sinistra. É um jogo que tem um preço baixo, e que consegue a meu ver justificar o investimento. Por enquanto Bad Cheese está disponível para PC, Playstation 4, Playstation 5, Xbox One, Xbox Series e Nintendo Switch.