Há muito tempo que não jogava um Battlefield. Dei uns tiros no Battlefield 1 quando saiu, mas pouco, e o último em que dispensei mesmo tempo foi o 3 (2011). Quero fazer aqui uma menção honrosa ao Battlefield 2142, porque parece que toda a gente se esqueceu dele. Aquele setting futurista, com mechs e armas tecnologicamente avançadas, foi uma das experiências mais divertidas que tive num shooter competitivo. Lembro-me também de experimentar a beta do 2042, mas não senti absolutamente nada. Parecia-me vazio, impessoal, uma simulação de guerra sem alma. Este, por outro lado — Battlefield 6 — foi completamente diferente.
Desde que toquei na beta, percebi logo que havia aqui algo especial. Os cenários altamente destrutíveis, uma caracteristica recuperada de Bad Company, dão uma dinâmica enorme aos confrontos. Cada parede que cai, cada edifício que se desmorona, cada tanque que abre um buraco numa estrutura altera a forma como o mapa é jogado. E isso é algo que faltava na série há algum tempo para termos uma imersão sem paralelo. A experiência deixa de ser estática e previsível e torna-se viva, caótica, orgânica. A jogabilidade está super afinada e a customização é enorme. Cada classe tem várias armas e gadgets à disposição, e é possível jogar com a mesma classe de formas completamente diferentes. Os mapas estão excelentes, tanto em escala como em detalhe, como na diversidade da abordagem. Há variedade visual e estratégica. Uns são abertos e vastos, ideais para combates de longo alcance e veículos pesados, outros são urbanos e densos, com túneis, becos e arranha-céus que transformam cada esquina numa potencial armadilha. O level design aposta fortemente na verticalidade — há sempre alguém acima ou abaixo de ti — principalmente nos mapas urbanos e, isso cria uma sensação de constante vulnerabilidade e faz com que exista da nossa parte uma necessidade de atenção imensa ao nosso redor. Podes estar tranquilo a controlar uma zona e, de repente, és varrido por um ataque aéreo ou por um tanque que rebentou uma parede e entrou pela casa dentro. É caótico, sim, mas é um caos bom.
E esse é talvez o grande mérito de Battlefield 6: ser caótico, mas divertido. Mesmo quando fazes spawn e morres dois segundos depois, mesmo quando estás quietinho de sniper a alinhar aquele disparo perfeito e um avião decide largar-te uma bomba em cima, continuas a rir e a voltar para a ação com entusiasmo. Há um ritmo frenético aqui que me surpreendeu, especialmente vindo de Battlefield. É mais rápido, mais intenso, mais próximo do que esperaríamos de um Call of Duty — mas sem perder a identidade Battlefield. O som dos disparos, dos veículos, das explosões, e a destruição massiva e constante, tudo contribui para um espetáculo audiovisual de guerra que consegue ser tão imersivo quanto absurdo.

É curioso ver o quanto o público se cruzou também. Há imensos jogadores vindos de Call of Duty a jogar Battlefield 6 — e nota-se. Nos chats, um dos “insultos” mais comuns é “f*** you COD player”. E o mais engraçado é que alguns desses “jogadores de COD” (até conheço uns) acabaram por se adaptar lindamente e ajudar a tornar as partidas ainda mais intensas. Eu, pessoalmente, costumo evitar jogos online precisamente por causa da comunidade — gente que leva isto demasiado a sério, como se a vida da família dependesse do seu KD ratio. Mas aqui, curiosamente, não senti esse peso. Só uma vez tive de meter mute num miúdo a falar engrish sem parar, mas fora isso, foi pacífico.
O maior problema continua a ser o mesmo que a série carrega há anos: jogar sozinho é uma experiência desequilibrada. Quando não estás com amigos, ou quando a tua equipa é composta por desconhecidos sem qualquer noção de cooperação, o Battlefield perde metade da graça. O modo mais jogado, Conquest, mete 64 jogadores no mesmo mapa — 32 de cada lado — e nas primeiras partidas é o caos total. É o fim do mundo em cuecas: explosões por todo o lado, tiros vindos de direções que nem sabias que existiam, e um mapa que parece não ter fim. Mas com o tempo começas a perceber o ritmo, as rotas, as zonas de interesse. Mesmo assim, a falta de cooperação é frustrante. O Battlefield é um jogo que recompensa quem joga em equipa — quem conquista objetivos, quem ajuda, quem defende posições. Mas a maioria continua obcecada com as kills. Há mapas abertos que incentivam o uso de snipers, e o que acontece? De repente, metade da equipa está deitada na areia a olhar para o horizonte, enquanto a outra equipa conquista ponto após ponto. E perdem. Porque não há ninguém a empurrar a frente de batalha.
É um problema que existe também noutros shooters táticos, como Counter-Strike, mas aqui sente-se ainda mais, porque a escala do jogo amplifica as falhas. Dentro disso, o sistema de esquadrões continua a ser uma das melhores ideias da série — quatro jogadores dentro de uma equipa maior. É prático, é dinâmico, e permite fazer spawn diretamente num colega, algo crucial dado o tamanho dos mapas, colocando-nos rapidamente na frente de batalha. Mas mesmo dentro destes esquadrões, a cooperação nem sempre existe. Às vezes calhas com gente que não quer saber. Outras vezes tens sorte e o jogo transforma-se completamente. Quando joguei com dois amigos, o Battlefield 6 deixou de ser um shooter e passou a ser uma experiência tática. Comunicávamos, sabíamos o que se passava à nossa volta, ajudávamo-nos mutuamente, e cada morte parecia ter um propósito. Até reparámos que os jogadores que calhavam connosco no esquadrão acabavam por cooperar também — mesmo sem falar connosco. É o poder do exemplo. Para tirar o máximo partido deste jogo, é essencial jogar com amigos. A diferença é abismal. E quando o jogo flui como deve, é puro prazer. Os tiroteios têm peso, os veículos são brutais de controlar (aquele som dos motores é música para os ouvidos) e a destruição em larga escala faz-te sentir que estás mesmo no meio de uma guerra viva e imprevisível.

Há muitos modos de jogo, cada um com o seu ritmo e propósito:
– Conquest, o clássico de 64 jogadores, onde duas equipas lutam por vários pontos no mapa.
– Breakthrough, em que um lado ataca e o outro defende setores específicos, criando um ritmo quase cinematográfico.
– Escalation, o novo modo que muda dinamicamente o território em disputa.
– Rush, com 16 jogadores por lado e um foco mais objetivo e direto.
– Domination e King of the Hill, que são pura adrenalina, combates curtos e intensos.
– Team Deathmatch e Squad Deathmatch, mais tradicionais, ideais para quem quer treinar pontaria.
E claro, o anúnciado e badalado Portal, que permite recriar regras e mapas de jogos Battlefield antigos, uma autêntica viagem no tempo.
Está também a caminho um modo Battle Royale, e isso promete mudar o panorama. Normalmente, esse tipo de notícia seria o pretexto perfeito para eu dizer “ok, volto quando lançarem isso”, mas neste caso algo me diz que vou continuar por aqui. Porque Battlefield 6 é viciante. É aquele típico “vá, só mais uma partida”, e quando dás por ti já são duas da manhã.

Visualmente, o jogo é lindíssimo. A iluminação é soberba, os efeitos de destruição são realistas e os detalhes ambientais — fumo, poeira, reflexos, partículas — tornam cada batalha num espetáculo visual. A DICE sempre teve um talento especial para o realismo técnico e aqui voltou a brilhar. Mesmo com tudo a explodir à tua volta, o jogo corre fluído, estável e sem slowdowns notáveis, é incrível o trabalho de optimização. Muitas pessoas reportaram uma performance notável mesmo com hardware ultrapassado graças à optimização mas também à variedade e versatilidade das opções gráficas. E o som… o som é um absurdo. Os disparos ecoam com força, as explosões fazem tremer o ecrã e parece que estamos mesmo lá, e o barulho distante de um jato a passar lá em cima faz-te olhar para o céu mesmo sabendo que é inútil.
Battlefield 6 é, no fundo, o regresso a uma fórmula que nunca deixou de ser boa, mas que precisava de um abanão. Há sempre algo que te vai irritar aqui e ali: um spawn mal colocado, uma morte vinda do nada, um colega que ignora completamente o objetivo. Mas no final, o balanço é tão positivo que acabas por perdoar tudo. Depois de tanto tempo sem tocar em Battlefield, esta foi uma das surpresas mais agradáveis que podia ter. Não é perfeito, mas é genuinamente divertido. Tem aquele espírito de caos controlado, aquele humor involuntário que surge quando tudo corre mal, e uma escala de combate que poucos jogos conseguem igualar. Há falhas, há frustrações, há COD players a serem insultados — mas há também momentos de adrenalina e satisfação. Battlefield 6 lembra-nos porque é que estas guerras digitais continuam a ser tão irresistíveis.

Um shooter que recupera a essência da série e ainda consegue surpreender. Caótico, divertido e impossível de largar — é aquele ‘só mais uma partida’ que se transforma em horas sem dar por isso.
Ainda nem sabia falar como deve ser e já passava horas em frente ao meu velhinho 386. Hoje, continuo o mesmo: um fervoroso apaixonado por videojogos e por tudo o que lhes diz respeito.

