Há jogos que dispensam apresentação. Código Secreto é um deles. Desde que Vlaada Chvátil o lançou em 2015, tornou-se uma presença constante em noites de jogos com grupos maiores. É simples de explicar, simples de jogar e tem aquela qualidade rara de funcionar igualmente bem com jogadores experientes e com quem nunca tocou num jogo de tabuleiro na vida. A Devir traz agora Código Secreto: Regresso a Hogwarts, uma edição que não se limita a trocar a roupa ao jogo original: traz-nos também mecanismos novos.
O que é Código Secreto, para quem ainda não sabe
A premissa é simples: duas equipas rivais competem para identificar as suas palavras num conjunto de cartas dispostas em grelha. Cada equipa tem um mestre, o jogador que conhece a identidade de todas as cartas, e é sua missão guiar os colegas até às cartas certas usando uma única palavra de pista e um número que indica quantas cartas essa pista cobre. A arte está em ser preciso o suficiente para os colegas entenderem, mas vago o suficiente para não denunciar as cartas do adversário. E há sempre uma carta armadilha à espreita: tocares nela pode dar a vitória à equipa rival numa única jogada mal calculada.
É um jogo que se explica em dois minutos o que faz com que este jogo chegue à mesa muito facilmente. A razão é simples: o desafio não está nas regras, está nas pessoas. Tentar adivinhar o raciocínio do mestre, perceber ligações inesperadas entre palavras, discutir em voz alta enquanto o adversário ouve tudo — é esse o foco do jogo, e não envelhece.

O que muda nesta edição
A adaptação ao universo de Harry Potter não é apenas cosmética. Claro que, o que salta de imediato à vista é o universo de palavras do jogo pertencer ao lore de Harry Potter e o jogo dividir os jogadores em duas casas rivais. Mas Código Secreto: Regresso a Hogwarts não fica por aí. Cada casa rival tem acesso a capacidades únicas que alteram genuinamente a forma como se joga. Como cada partida pode colocar frente a frente duas casas diferentes e cada casa usa apenas uma das suas duas capacidades disponíveis, o número de combinações possíveis é considerável. Na prática, isto significa que raramente duas partidas se sentem iguais.
O jogo inclui ainda a Taça das Casas, que permite registar e acumular vitórias ao longo de múltiplas sessões. Para grupos que se encontram regularmente, é um excelente pretexto para manter uma rivalidade saudável de semana para semana.
Outra novidade é a possibilidade de jogar com palavras ou imagens. Em 2016, Vlaada Chvátil lançou Código Secreto: Imagens, que funciona com o mesmo conceito mas usando ilustrações no lugar das palavras. Em Código Secreto: Regresso a Hogwarts, podemos escolher qual o lado das cartas que usamos para construir o mosaico: palavras ou imagens.

Como se joga na prática
Em cada turno, o prefeito dá uma pista que consiste numa palavra e um número, como na versão original, tentando guiar a sua equipa a adivinhar as palavras que pertencem aos segredos da casa com que estão a jogar. Por exemplo, se as palavras “Wingardium Leviosa” e “Stag Patronus” pertencem à sua casa, uma pista possível seria “Feitiço, 2”. Os colegas debatem, apontam, concordam, discordam — e dão um palpite apontando uma carta que pensam corresponder à pista.
Se acertarem, podem dar um novo palpite para tentar adivinhar outra palavra, continuando até ao limite do número da pista mais um. Se tropeçarem numa carta da casa adversária ou numa porta fechada, o turno termina e a outra equipa tem a sua oportunidade. A ameaça de Filch paira sempre no ar: tocar na carta onde está o zelador da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts termina a partida e entrega a vitória ao adversário. A tensão de cada decisão é real. A nossa pista “Feitiço, 2” seria extremamente perigosa se Filch se encontrasse, por exemplo, na palavra “Lumos”.
O jogo termina quando uma equipa descobrir todas as palavras que correspondem aos segredos da sua casa.
O conselho da própria editora é começar sem as habilidades especiais das casas nas primeiras partidas — e faz sentido. O jogo base já funciona muito bem por si só, e introduzir as capacidades gradualmente permite que toda a mesa absorva o novo nível de complexidade sem sobrecarga. Uma vez inserindo as habilidades, o jogo torna-se mais variado e profundo.

Para quem é?
Código Secreto: Regresso a Hogwarts é pensado para grupos de 4 a 8 jogadores, a partir dos 10 anos, com partidas entre 15 a 30 minutos. O teto mínimo de 4 jogadores não é por acaso: o jogo precisa de equipas para funcionar, e com quantos mais jogadores, mais divertido se torna, ao aumentar a dinâmica de grupo. Não sendo necessariamente um party game, navega bem nessa categoria, mas também vai facilmente à mesa se 4 pessoas apenas quiserem descomprimir um pouco com um jogo de preparação rápida, pouco exigente de regras e não tem de prender os jogadores à mesa muito tempo.
É uma escolha óbvia para fãs de Harry Potter, claro — a adaptação é rica e reconhecível, com referências a locais e personagens do universo que vão provocar reações imediatas à mesa. Também funciona para quem não conhece os livros ou filmes, mas torna-se mais exigente por falta de contexto. Dar uma pista e adivinhar a palavra “Horcrux” para quem não sabe o que é não é pêra doce, exigindo uma grande dose de associação de palavras.

Código Secreto: Regresso a Hogwarts não reinventa o jogo original e não precisa de o fazer. Pega numa fórmula que funciona há anos e acrescenta-lhe camadas que justificam genuinamente a existência desta edição: as capacidades das casas trazem assimetria e camadas estratégicas a um jogo que, na sua forma original, podia começar a parecer demasiado familiar a quem já tem muitos jogos em cima, aumentando também o fator de rejogabilidade. Não é um jogo para toda a gente. Quem não tem qualquer ligação ao universo de Harry Potter vai perder parte da magia — e “parte da magia” aqui é literal. Mas, para quem é aficionado deste mundo de feiticeiros, é uma versão superior ao jogo original.

Começou a jogar ainda os jogos se carregavam a partir de uma cassete de fita magnética. Completamente viciado em FIFA, é também fã incondicional de RPGs e Jogos de Estratégia. Junta, aos videojogos, a paixão pelos jogos de tabuleiro.
