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Death Stranding 2 – Sam volta a conectar a humanidade | Análise

Cinco anos depois de nos termos despedido de Sam Porter Bridges, Hideo Kojima (e o seu estúdio Kojima Productions) regressa com Death Stranding 2: On the Beach — uma sequela tão estranha quanto ambiciosa. Mantendo a sua marca de autor inconfundível, Kojima mistura novamente filosofia existencial, geopolítica pós apocalíptica e mecânicas de entrega de encomendas, mas agora com uma maturidade emocional e técnica surpreendente. E sim, ainda temos muito (mas muito) que andar. 

Se o primeiro Death Stranding nos convidava a reconstruir um mundo desfeito pelas mãos (e pés) de um único homem, a sequela leva essa ideia a um novo patamar: como lidamos com aquilo que reconectámos? Esta é a pergunta filosófica que está presente em Death Stranding 2: On the Beach. E Kojima, sendo Kojima, não oferece respostas fáceis. 

A narrativa continua a explorar temas como a morte, o isolamento, o trauma intergeracional e o peso das memórias. Mas agora, fá-lo com mais maturidade e subtilidade. O jogo não quer apenas que cries ligações — quer que questiones se todas as ligações são desejáveis. 

Sem revelar spoilers importantes, o jogo segue os eventos do seu antecessor (avança um pouco no tempo). A Chiral Network está ativa, mas algo está errado: a Beach não desapareceu e está a invadir lentamente o mundo físico. 

Sam, agora mais velho e com marcas visíveis do seu passado, é arrastado de volta para a ação por Fragile, que lidera a Drawbridge — uma organização dedicada a investigar e conter a influência crescente da Beach. O enredo rapidamente ganha contornos de thriller metafísico, com direito a conspirações científicas, dilemas morais, e claro, cenas completamente fora da caixa típicas de Kojima. Desta vez, iremos até à Austrália, um território instável e muito duro, onde a natureza se mostra numa forma bastante hostil. Temos tremores de terra, tempestades de areia, incêndios florestais e outras ameaças ambientais obrigam-nos a uma adaptação a cada viagem que fazemos, tornando o terreno mais imprevisível e exigente. A presença das EP´s continua obviamente a ser uma ameaça constante, agora com novos inimigos pelo meio. 

death stranding 2 -Lou & Sam
Os inseparáveis Sam e Lou.

A reintrodução de Higgs, interpretado com uma teatralidade cativante pelo enorme Troy Baker, é inesperadamente eficaz. A sua presença é mais simbólica e caótica desta vez — quase como um agente do destino. E o facto de ele surgir em secções rítmicas e musicais (com boss fights sincronizadas com a música) mostra que Kojima não tem medo de experimentar… ou de alienar. 

O sistema de entregas também está de volta, mas com nuances que o tornam mais dinâmico e recompensador. Em vez de irmos simplesmente do ponto A ao ponto B, agora as missões envolvem múltiplos destinos (estão mais ramificadas), decisões morais e até situações de reféns. Algumas entregas são ilusórias: nem tudo o que transportas é físico. 

A física da sequela é ainda mais desafiante. Agora há zonas de gravidade alterada, tempestades dimensionais e até áreas em que o tempo acelera exponencialmente — obrigando assim o jogador a repensar a rota a percorrer. 

death stranding 2 - dhv magellan
A nossa nova base de operações, a DHV Magellan

Os equipamentos também estão mais evoluídos (e temos ainda mais do que no primeiro jogo). Temos drones modulares, um exoesqueleto hidráulico mais responsivo e ainda a temos a nossa nova “base de operações”, a DHV Magellan (e a sua peculiar tripulação). A personalização do equipamento é mais profunda, influenciando até o relacionamento com as facções NPC. 

Além disso, a IA do nosso BB evoluiu, interagindo mais com o mundo e reagindo emocionalmente a eventos — um toque comovente que reforça o vínculo do jogador com o pequeno ser que carrega. 

O que foi radicalmente reformulado foi o sistema de tiro em terceira pessoa que for reformulado em Death Stranding 2. A ação era um ponto fraco do primeiro jogo (a meu ver) e isso foi reformulado, com tiros mais responsivos, armas adicionais e uma maior variedade de inimigos.   

O que também permanece praticamente inalterado na sequela é o sistema social da série. Assim como no primeiro jogo, as estruturas que os jogadores constroem podem aparecer nos mundos de outros jogadores ao conectar uma região à Chiral Network. Dominar o terreno australiano é uma ação coletiva, pois os jogadores podem investir recursos em projetos comunitários para construir estradas e outras infraestruturas que facilitam a viagem de Sam. Esse sistema continua a ser uma ferramenta temática bastante eficaz, mostrando aos jogadores exatamente como a vida é mais fácil quando trabalham em equipa. 

death stranding 2 - Higgs
Higgs is back baby!

Graficamente, o jogo é um colosso técnico. O motor Decima foi aprimorado para aproveitar totalmente o hardware da Playstation 5, com iluminação volumétrica avançada, simulação de partículas dinâmicas e animações faciais hiper-realistas.  

O som e músicas presentes são “paisagens” sonoras que dizem mais do que palavras. Ludvig Forssell regressa com uma banda sonora tão melancólica como inspiradora. A colaboração com bandas islandesas e nórdicas dá ao jogo uma textura emocional única. Low Roar continua também presente em momentos chave que levarão muitos jogadores às lágrimas. 

O design de som é simplesmente magistral. O silêncio “que incomoda” da Beach, o eco dos passos em cavernas “chiralizadas”, os suspiros quase humanos dos BT´s — tudo contribui para uma atmosfera pesada, por vezes opressiva. E fica a dica, experimentem jogar de headphones, o que é bom, fica ainda melhor! 

Conclusão

Prós

  • Narrativa ambiciosa e emocional
  • Expansão significativa da Beach e jogabilidade mais aprimorada
  • Design audiovisual excecional
  • Desempenho de luxo dos atores

Contras

  • Ainda muito “walking simulator”, o que não agrada a diversos jogadores

Death Stranding 2: On the Beach não é para todos — e o mestre Kojima nunca quis que fosse. É um jogo que exige paciência, abertura de espírito e uma certa tolerância à bizarria. Mas para quem estiver disposto a mergulhar no seu oceano de ideias, é uma experiência inigualável. Este é o tipo de jogo que só pode existir porque alguém como o seu criador ainda tem liberdade criativa num mundo saturado de apostas seguras. E por isso, merece ser celebrado — mesmo quando nos faz tropeçar num rochedo invisível durante vinte minutos