Deathless: Tales of Old Rus – Um Trabalho Criativo de Qualidade Surpreendente | Análise

Estão a ver aquele jogo que vocês têm 0 expectativas em relação ao mesmo? Deathless: Tales of Old Rus foi um desses para mim. Desconhecia por completo a sua existência e quando o recebi para análise, apesar do aspecto interessante do artwork dos personagens e monstros, pensei muito honestamente “Mais um jogo de steam daqueles que ninguém quer saber porque é super medíocre.”. Mas pelo menos tem bom aspecto, portanto, porque não?! Lá instalei o jogo, e começo a experiência com um certo desdém de quem vai fazer esta análise só para vos trazer conteúdo. Mas este sentimento durou muito pouco tempo, isto porque este título acabou por ser uma experiência surpreendentemente positiva, e uma em que perdi muito mais tempo do que aquilo que inicialmente pensava. Do que tinha encontrado era suposto isto durar cerca de 8 horas. Bem, nada a ver, acabei por meter quase 30 horas neste jogo, e todas elas bem passadas, com bastantes desafios dignos de serem superados e com aquele sorriso de satisfação que só um “Fui quase desta para melhor” consegue dar.

Aqui temos um roguelike com um combate táctico turn-based, onde as nossas acções são ditadas pelo nosso deck e pelas cartas que fazemos draw do mesmo a cada turno. Não é o primeiro a fazer algo do género, sendo que Slay the Spire por exemplo, tem um conceito similar e é imensamente popular, mas é algo que não é explorado por aí além e que consegue sentir-se como uma abordagem ainda fresca e cativante. Portanto, como se espera de um roguelike, vamos ter de fazer várias runs e ao longo das mesmas vamos adquirindo itens e cartas mais poderosas que nos permitem progredir mais longe. O deck começa bastante simples, com cartas super básicas, mas são muitas as oportunidades para encontrar cartas mais poderosas, sendo que as iniciais, que se vão tornando obsoletas, podem ser descartadas ou transformadas em cartas diferentes. Todas as cartas podem também sofrer upgrades aumentando o dano, ou diminuindo o custo de utilização por exemplo. Portanto no fim de cada run o nosso deck é completamente diferente do original, e são muitas as possibilidades de abordagem, conforme as cartas que vamos apanhando vamos construindo o deck mais num sentido ou noutro, embora haja alguns conceitos e habilidades que são notavelmente mais poderosos que outros. Mas mesmo que não consigamos fazer um deck à volta das cartas mais poderosas, é sempre possível fazer um que seja eficaz, desde que a sinergia esteja presente. É quase como jogar booster draft em Magic: The Gathering. Existem quatro personagens jogáveis, e todas elas têm decks, cartas e sinergias diferentes para descobrir e masterizar, tornando a primeira run com cada uma delas num teste para perceber como funciona, o que interage com o quê, o que procurar e onde investir os nossos recursos. É um loop de jogabilidade que tem tanto de repetitivo como de viciante, mas felizmente a diversidade mantém as coisas interessantes do início ao fim.

Em cada percurso do nosso personagem vamos ter cerca de 20 e poucos eventos, ou decisões a tomar se preferirem. Cada decisão leva-nos a um combate onde as recompensas variam conforme o caminho que decidimos tomar. Há sempre 3 escolhas possíveis antes de cada combate, e somos informados do que vamos não só encontrar mas do que vamos conseguir de ganhos desse encontro. Pode ser por exemplo cartas novas, recuperar vida, destruir cartas obsoletas, um talismã que nos dá vantagens preciosas etc. Portanto, dependendo daquilo que é a nossa necessidade naquele momento, é necessário tomar a decisão correcta, ou então arriscar mas como típico nos roguelike, é algo que pode sair caro. Ao longo destes eventos temos alguns que nos levam a avançar nas quests que cada um dos personagens, cinco no total para cada um, e é impossível fazer tudo de uma vez. Para mim foi necessário cerca de 5 ou 6 runs em cada um para conseguir chegar até ao boss de cada um. Depois de conseguirmos chegar ao fim com todos, temos então acesso a um desafio final em que temos de fazer mais um percurso com cada um deles. Aqui já conhecia bem o que era possível fazer em cada deck e sempre que as coisas corriam mal ao início reiniciava para não perder tempo, mas a verdade é que o boss final não é assim tão difícil. Quando conseguimos derrotá-lo com os quatro heróis fica evidente que os developers têm mais jogo para entregar com futuros updates, aliás isso é mesmo dito numa mensagem no próprio menu do jogo. Até lá são oferecidos três níveis de dificuldade mas também o sistema Feat of Glory que aplica modificadores que restringem certos aspectos para vos tornar a vida mais complicada, quer a nível de combate, quer a nível das opções que podem tomar a cada fase. Por agora há 10 destes níveis que aplicam modificadores, desde Feat of Glory até Feat of Glory 10, sendo que até onde fui, no nível 6 e em conjunto com a dificuldade Heroic, as coisas tornam-se bastante complicadas e requer muita estratégia da nossa parte durante o combate.

Eu diria que as mecânicas deste título são realmente interessantes e cativantes. Mas há mais, só que tudo o resto acaba por ser de competência mista. Os gráficos têm um aspecto muito porreiro que é os personagens e os monstros serem todos desenhados e animados à mão, e são no geral muito bem conseguidos. Os personagens jogáveis até diria que são das presenças menos interessantes, mas alguns monstros são mesmo porreiros. Mas quando olham para lá disto, vão perceber a falta de originalidade e detalhe que existe nos cenários de fundo. Estão a imaginar um cenário de um jogo de Garou: Mark of the Wolves ou de um Samurai Shodown IV? Pronto, agora pensem que 30 anos depois alguém conseguiu fazer pior. Eu sei que é apenas algo que está lá para ocupar o espaço visual e dar um contexto, mas num jogo onde a parte visual além dos menus é apenas estes ecrãs de batalha, é uma pena terem sido mal aproveitados. Destaco a falta de animação dos mesmos que, tal como é irrelevante à jogabilidade nesses fighters icónicos, também o seria aqui, mas não deixavam de as ter ao montes para criar uma sensação de maior movimento e acção. É uma pena este aspecto aqui ter sido mal aproveitado, acho que a componente visual tinha muito a ganhar e infelizmente é tão simples que ao inicio, se a jogabilidade não agarrar de imediato, talvez algumas pessoas desistam rapidamente. Os olhos também comem, e os pormenores são importantes. Num outro ponto, gosto muito dos menus e da sua apresentação. Há muito texto e é tudo muito fácil de ler, com os aspectos mais importantes de cada texto realçados, isto torna a navegação agradável e intuitiva, permitindo que o jogador mais experiente se concentre nos pontos chave sem se perder nos detalhes da história e descritivos de monstros ou paisagens. Outra coisa que tem uma apresentação cuidada são os elementos da narrativa. Pois é, há uma narrativa, nem me lembrava! Porquê? Porque rapidamente desisti de querer saber honestamente. O que realmente me cativou foi as mecânicas e este aspecto ficou completamente de parte para mim. Há uma secção nos menus sobre o Lore com muita informação e depois de acabar o jogo com as quatro personagens fui dar uma vista de olhos e percebi o que se passava, mas sinceramente achei desinteressante. 

É difícil negar que Deathless tem vários aspectos que são menos bons, mas também estamos a falar de um jogo com uma origem relativamente modesta, sendo a 1C Game Studios um estúdio russo de dimensões médias, com uma boa reputação em certos nichos, principalmente em jogos de simulação. Ainda assim, mesmo para um estúdio desta dimensão parece quase um projecto secundário, mas não, aparentemente a 1C quer fazer deste jogo o início de uma série com vários tentáculos neste universo novo aqui criado. De qualquer maneira fico contente que assim seja, porque teria todo o gosto em jogar mais de Deathless portanto vamos ver o que nos reserva nos próximos anos. Apesar de uma narrativa desinteressante, alguns problemas de balanço com algumas personagens a serem notavelmente melhores e alguma sensação de repetição, este jogo é bastante competente e uma experiência muito boa para quem gosta de trading card games ou de roguelikes ou principalmente se gostarem dos dois! Foi uma experiência muito agradável que consegue combinar várias mecânicas interessantes e que, ao longo do tempo, cresce na nossa consideração.


Deathless: Tales of Old Rus

Pros

  • Criativo e distinto
  • Uma excelente fusão de TCG com Roguelike
  • Viciante
  • Desafiante

Cons

  • Algo repetitivo
  • Apresentação visual é inconsistente
  • Há claramente personagens overpowered em relação a outras

Apesar de uma narrativa desinteressante, alguns problemas de balanço com algumas personagens a serem notavelmente melhores e alguma sensação de repetição, este jogo é bastante competente e uma experiência muito boa para quem gosta de trading card games ou de roguelikes ou principalmente se gostarem dos dois!