Goosebumps: Terror in Little Creek

Goosebumps: Terror in Little Creek – Entre a nostalgia, a simplicidade e as fragilidades técnicas | Análise

Lembram-se dos livros Arrepios?! Tinha vários quando era miúdo, e adorava, principalmente o Sangue de Monstro e o Bem Vindos à Casa da Morte. São uma colecção de livros de terror, mas para criança! Como fã incontornável desta vertente cultural desde muito pequeno, eram livros que me fascinavam, uma espécie de Uma Aventura mas spooky scary. Estes livros foram editados durante os anos 90, com autoria de R. L. Stine, fazem uma paragem durante uns anos, voltam a surgir em 2006 e, até hoje continuam por aí em força com uma multidão de livros lançados. Quando este jogo se propôs a análise a minha curiosidade veio ao de cima e decidi abraçar o desafio, sabendo perfeitamente de antemão que os outros jogos mais recentes baseados na mesma franquia, tendem a ser considerados muito maus. Por ter esse conhecimento fiquei logo com arrepios na espinha, imaginava uma tortura de várias horas em que depois ainda tinha de vir aqui destruir o jogo numa dissertação critica. No entanto acho que foram raras as vezes em que comecei um jogo com tão pouca expectativa, mas também com uma tanta predisposição a ser compreensivo para com um produto que tenho plena noção não ser nem para mim, nem para ti.

Goosebumps: Terror in Little Creek começa connosco no controlo de Sloane, uma jovem adolescente nerd que, juntamente com o seu grupo de amigos (com quem comunicamos via walkie-talkie), tentam descobrir o porquê de a pequena aldeia de Little Creek estar sobre confinamento. A história daqui para a frente é super simples, com um dois plot twists engraçados lá pelo meio, mas não esperem nada de extraordinário. As personagens também são muito básicas e pouco evoluem durante as 6 ou 7 horas que o jogo dura, mas como uma aventura para crianças, acho que funciona muito bem. O tom juvenil é constante e, para adultos como eu, acaba por despertar uma nostalgia de tempos mais inocentes que já não voltam. Eu diria que é fácil perceber como este jogo pode ser perfeito para certas crianças, graças à mistura de aventura entre amigos, mistério, e um ambiente “assustador”. 

A primeira coisa que salta à vista é o aspecto gráfico. O jogo não é feio, mas não só não  impressiona como as texturas lembram facilmente um título de 2004, esticado para 4K. É simples e datado, mas cumpre o mínimo necessário para criar o tipo de ambiência necessária que tem de ser necessariamente abonecada. O design das personagens é aceitável, mas o lip sync é horrivelmente mau, ao contrário, e particularmente chato, quando se percebe que há um esforço grande investido no voice acting por parte dos actores, que é, sem dúvida, um dos pontos fortes do jogo. As vozes estão bem escolhidas, dão personalidade às personagens e ajudam a criar aquela sensação de aventura juvenil que combina tão bem com o espírito Goosebumps. Outro ponto menos positivo é o HUD: no canto inferior direito está sempre presente a indicação de que botão corresponde a cada ação. É útil no início, mas rapidamente se torna redundante, além de ocupar demasiado espaço no ecrã sem necessidade. Um detalhe curioso que me arrancou um sorriso foi o sistema de gravação: usamos máquinas de escrever, exatamente como em Resident Evil. É um piscar de olhos engraçado ao maior clássico do género survival horror, um toque para os pais que vão estar a ver os seus filhos jogar, e um futuro “ahhh no Terror in Little Creek também era assim” quando esses filhos forem viris o suficiente para enfrentar o verdadeiro terror.

A nível de jogabilidade, o jogo mantém-se acessível e direto ao ponto. Podemos andar, correr, interagir com objetos e usar uma fisga como arma principal. O mapa é relativamente aberto: exploramos, desbloqueamos novas áreas e vamos avançando de forma bastante linear mas com a sensação de descoberta bem presente. Não há nada de particularmente inovador aqui, mas tudo funciona bem o suficiente. Existe até uma componente de stealth. Em teoria, deveríamos esgueirar-nos pelos cenários e evitar monstros, mas na prática é muito mais fácil (e rápido) simplesmente usar a fisga para os eliminar. Além de ser fácil, o jogo também é bastante generoso com as munições, o que retira quase toda a pressão em termos de recursos. Ainda assim, a fisga tem alguma variedade interessante: podemos disparar pedras grandes (mais dano), pedras pequenas (menos dano), munições que largam confetis para distrair inimigos ou até bombas de fumo. Esta diversidade acrescenta algum tempero a uma mecânica que, de outra forma, poderia ser mais repetitiva. Apesar da fisga nos tornar quase imparáveis contra os inimigos comuns, o jogo introduz três monstros especiais, que não sei se lhes posso chamar bosses… que não podem ser derrotados. Nestes momentos, o stealth torna-se obrigatório e precisamos de nos esconder para sobreviver. São secções que quebram a rotina da aventura, mas que são tão básicas que nada trazem além de mais um obstáculo entre o ponto A e o ponto B. Como referi acima a experiência completa de Goosebumps: Terror in Little Creek dura cerca de 6 horas. É um jogo curto, mas essa brevidade joga a seu favor: não se arrasta, não tenta ser mais do que é, e mantém-se coeso do início ao fim. Cada nova área traz um pouco mais de charme, e o jogo consegue equilibrar bem a sensação de progresso com a leveza da jogabilidade.

É importante frisar que, em termos técnicos, este é um jogo fraco. A qualidade visual é pobre e datada, o lip sync é passível de ser fortemente xingado, a interface podia ser mais polida e a jogabilidade não apresenta nada de novo. É preciso também ter em mente que este jogo é feito com um público muito jovem em mente, é feito por um estúdio muito modesto, e tem um preço de 39.99€. Dentro dessas limitações, e considerando o objectivo que o jogo se propõe a cumprir, Goosebumps: Terror in Little Creek é surpreendentemente competente. Não quebra, nunca frustra, e cumpre sempre o mínimo necessário, acredito eu, para manter uma criança envolvida e interessada. E para esse fim recomendo. Para um adulto, o jogo pode conquistar pelo seu espírito mas não pela sua execução técnica, e obviamente não é possível recomendar. Tem um charme que nasce da sua simplicidade, da nostalgia que transporta para alguém como eu, e da forma como recria aquela atmosfera de aventuras juvenis. Para mim, foi refrescante jogar algo tão diferente daquilo a que estou habituado, algo que não jogaria se não fosse a oportunidade de escrever esta análise para vocês, e fiquei bastante contente de o poder fazer.

Veredito: 6

Goosebumps: Terror in Little Creek não vai revolucionar nada e muito menos vai tornar-se um clássico. Mas é um jogo que sabe exatamente o que é: uma pequena aventura de “terror”, acessível, curta e com bastante charme. É tecnicamente fraco, mas para crianças, pode ser uma excelente porta de entrada para o género. Pelo menos eu vejo-me com 10 anos a adorar um jogo deste género, ainda que seja impossível não reconhecer o percurso enorme na evolução qualitativa dos vídeojogos durante estes últimos 30 anos, que cria trabalhos que ofuscam facilmente este tipo de iniciativas.