Olhos esbugalhados, super cansado, olheiras bem fundas, cabelo todo desgrenhado e roupa completamente à toa. Podia estar a falar do agarrado lá do bairro, mas não, era eu no dia a seguir a jogar pela primeira vez Halls of Torment. Deviam ser umas sete da tarde quando decidi iniciar o jogo e ia fazer o podcast The Games Tome às 22:00, portanto tinha ali umas 3 horas com jantar pelo meio para experimentar este jogo. Já passava das 22:00, estávamos atrasados para o podcast, e ainda por cima tinha de ser eu a fazer a transmissão, mas ainda não podia, estava a acabar uma run. Acabei o podcast todo roto e cheio de sono, como é habitual. Normalmente vou de imediato para a cama e adormeço que nem uma pedra mas, desta vez foi diferente, abri o Halls of Torment e foi menos outra hora e meia de sono. No dia a seguir foi difícil abrir a pestana, e só pensava em acabar o dia de trabalho para voltar a matar milhares de monstros nos mapas “infinitos” de Halls of Torment. Este jogo, assim como a sua maior inspiração, o fabuloso Vampire Survivors, são viciantes como a coca mas com um preço por dose muito mais acessível e com igual capacidade para criar verdadeira disrupção na nossa vida pessoal, é um perigo comprar um jogo destes.
Enquanto que Vampire Survivors criou um novo género e inspirou-se artisticamente muito em Castlevania, Halls of Torment aproveita as lições do fenómeno de 2022 a nível mecânico e leva a atmosfera para a série Diablo. Ora Castlevania é a minha série de jogos favorita, e Diablo II o meu jogo favorito de sempre, portanto sinto-me em casa nestes dois jogos tanto num como noutro, e têm um apelo natural difícil de resistir. Quando recebi o Halls of Torment pensei “Lá vai mais um na enxurrada de clones”, e não estava errado, mas faz algumas coisas diferentes para a jogabilidade ter as suas nuances. De notar que, a parte visual é a que realmente é mais distinta. Foram várias as vezes em que pensei “parece que estou a jogar um jogo de PC de 1996”. Os gráficos têm aquele granulado típico de tantos dessa época, com um aspecto soturno e a tentar ser o mais realista possível numa época onde estávamos ainda longe do que conseguimos nos dias que correm. Os portraits dos NPCs que vamos encontrando então são chapa quatro aquilo que esperaria de um jogo daquela época, umas animações muito básicas nos lábios, e umas flat textures que assustariam qualquer pessoa nascida no novo milénio. É como se tivessem pegado em Diablo e tivessem feito um mod para se jogar como o Vampire Survivors. Adoro!

Tal como a sua principal inspiração, temos de andar de um lado para o outro num mapa que se repete infinitamente durante trinta minutos, e sobreviver ao ataque implacável de milhares de criaturas. A ideia é sobreviver o máximo tempo possível e arrecadar ouro que nos permite desbloquear algumas habilidades que nos ajudam em todas as runs. Por exemplo desbloquearmos +10% de ataque, e a partir daí isso passa a estar sempre presente, portanto há aqui uma base muito pronunciada de roguelite. Durante as runs temos a nossa arma principal e vamos subindo de nível e desbloqueando não só habilidades como stats para o nosso personagem, mas tanto uns como outros fazem reset quando a run acaba. A variedade de habilidades é boa, embora seja muito inferior a Vampire Survivors e as combinações que se podem fazer com as mesmas também não têm a mesma importância. No entanto é dada mais ênfase ao ataque principal de cada uma das 10 personagens jogáveis, este até pode ser manual, ainda que não entenda o porquê de usar essa opção. Mas a direção do mesmo é 100% controlada por nós e há muitas opções para incrementar a área desse ataque, o seu poder etc. No geral Halls of Torment acaba por ser um jogo que necessita de um input muito mais frequente da parte do jogador, obrigando a uma movimentação quase permanente e maior estratégia para nos desviarmos das hordas constantes de inimigos. Existe também um inventário, também muito ao estilo Diablo, em que podemos equipar armadura, capacete, anéis, botas e luvas. Ao longo de cada run vamos encontrando estas peças e cada uma delas vai trazer vantagens bastante significativas, em alguns casos coisas como +100% de dano. O jogo é super viciante e divertido, o loop prende-nos como poucos jogos conseguem prender e vão estar constantemente a pensar em fazer só mais uma run, mesmo que tenham pouco tempo.

Existem 6 mapas disponíveis no jogo base e 10 personagens. Os mapas são simples, e repetem-se infinitamente aos vocês se deslocarem em qualquer uma das direcções cardinais. Todos têm um evento, ou uma quest se quiserem, que vos leva a um boss opcional e vos desbloqueia qualquer coisa. Além disso existem dezenas de quests bastante simples em cada um deles como matar 10000 inimigos, sobreviver 20 minutos entre tantas outras. E em alguns também existe uma quest que nos dá acesso a NPCs que depois têm várias utilidades no nosso campo, que serve de HUB central. Fazer estas quests traz várias vantagens e é altamente recomendável que percamos tempo com elas. Por exemplo, um dos NPCs permite-nos preservar peças de equipamento que encontramos em cada um dos mapas, o que é excelente pois conseguimos posteriormente usar os mais úteis em cada run. Os personagens são todos eles bastante diferentes entre si, uma das criticas que faria a Vampire Survivors é que eram todos relativamente parecidos, além de que podíamos, durante uma run, facilmente moldá-los a nós e quase que ignorar as diferenças que apresentavam. Aqui isso não acontece, são mais distintos e o não termos tantas opções de customização e personalização leva a que tenhamos de abraçar o estilo de jogo que cada um oferece. Uns são mais lentos mas fazem muito dano, outros atacam duas vezes e são ataques diferentes, uns são magos, outros são mais rápidos mas abrangem uma área de dano mais pequena etc. Acho que a variedade ao início pode parecer menor, mas a longo prazo percebemos que é só diferente.

No departamento sonoro, Halls of Torment cumpre com distinção. As faixas são discretas mas eficazes, criando a tensão certa sem nunca se intrometerem na jogabilidade — aquele tipo de música que parece que não está lá, até deixarmos de a ouvir e sentirmos falta dela. O som das armas, o impacto dos feitiços e o rugido constante das hordas são simples, mas satisfatórios, lembrando os dias em que os efeitos sonoros eram quase todos sintetizados, mas tinham uma clareza quase física. Há um charme especial no som de uma multidão de monstros a ser pulverizada ao ritmo de um riff de guitarra digital — um prazer quase catártico que encaixa perfeitamente na natureza frenética e viciante do jogo.
Halls of Torment é, portanto, um daqueles jogos que parecem pequenos mas tomam conta de nós antes que demos por isso. É despretensioso, infernalmente barato (6.66€), mas feito com um cuidado e um conhecimento de causa que só quem ama o que faz consegue imprimir num projeto. Cada run é um convite a mais uma, e quando damos por nós já são três da manhã e estamos a prometer “é só mais uma” enquanto os olhos pedem misericórdia. A mistura entre o visual arcaico que parece saído de um velho Pentium e o loop viciante que mistura o melhor de Vampire Survivors e Diablo cria algo quase hipnótico. Halls of Torment é imperfeito, repetitivo e até um bocado masoquista, mas é também absurdamente divertido. O tipo de jogo que apetece instalar no portátil “só para ver como é” e que, sem percebermos bem como, se torna presença obrigatória nas nossas noites. Um pequeno inferno pixelizado onde o tormento é não conseguir parar de jogar.

A mistura entre o visual arcaico que parece saído de um velho Pentium e o loop viciante que mistura o melhor de Vampire Survivors e Diablo cria algo quase hipnótico. Halls of Torment é imperfeito, repetitivo e até um bocado masoquista, mas é também absurdamente divertido.
Ainda nem sabia falar como deve ser e já passava horas em frente ao meu velhinho 386. Hoje, continuo o mesmo: um fervoroso apaixonado por videojogos e por tudo o que lhes diz respeito.
