Há por aí fãs da série Mafia? Desde que o primeiro título da série saiu no PC, em 2002, que adoro estes jogos. O quê? Não gostas? Ahhh jogaste a versão de PS2… normal! Foi com muito entusiasmo que vi anunciada esta prequela em agosto do ano passado, e mais entusiasmado fiquei por se passar ainda na Sicília, para termos um lamiré das origens deste tipo de crime organizado ainda na sua infância. O jogo passa-se no início do século XX, entre 1904 e 1907, e este tipo de organizações tem origem nesta zona geográfica durante, principalmente, a segunda metade do Século XIX. Para referência, o primeiro jogo da série tem lugar nos anos 30, numa cidade inspirada por Chicago, portanto este passa-se cerca de 30 anos antes, num período onde a Máfia começa a chegar aos EUA.
Quero começar por dizer que este jogo é um bocado irrealista, durante as 12 horas que demorei a chegar à sua conclusão não vi ninguém, nem uma alma, a comer Pizza. Que eu saiba em Itália, só se come Pizza. Marguerita ao almoço, Quatro Formaggi ao jantar… e de vez em quando lá mamam um esparguete à bolonhesa. Mas pronto isto é um jogo, portanto não tem de retratar exatamente a realidade. Pelo menos não se esqueceram do vinho, já que o Padrinho do nosso personagem Enzo, é dono de uma vinha, além de várias outras coisas, graças à magnífica capacidade persuasiva dos seus associados.

Enzo é um carusi, ou “rapaz” em siciliano. Não é em italiano, isso é ragazzo, é em siciliano. Não estou de modo nenhum a fazer pouco dos sicilianos, longe de mim, até porque ao fim de quatro jogos desta série, sei perfeitamente que não o devo fazer. O nosso Enzo trabalhava nas minas sob a alçada do cruel ditador Damiano Spadaro e, após lhe fazer um corte na face com uma faca, e mais um par de coisas, foge e acaba por se refugiar no território de Don Torrisi, o chefe da principal família rival. A trama vai andar em torno, principalmente, das desavenças entre estas duas famílias, os Torrisi e os Spadaro, além de se centrar também no crescimento e evolução de Enzo e o seu romance impossível com a filha de Don Torrisi, que o mete numa posição extremamente delicada durante a narrativa. Do início ao fim, a história é sempre previsível, conseguem ver o que se vai passar a seguir duas horas antes, mas por outro lado, é continuamente cativante e torna-se difícil de pousar o comando. Há várias personagens memoráveis com um arco narrativo muito bem conseguido e capazes de passar ao jogador de forma clara as suas motivações e decisões. Diria que neste aspecto, o jogo é bastante competente, mas por e simplesmente não surpreende em nenhum aspecto. Portanto se esperam algo do calibre do Goodfellas, não é aqui que vão encontrar, mas também desse calibre é muito difícil.

Ao passear por Valle Dorata, região onde se desenrola a acção, é fácil apreciar as bonitas paisagens que aqui foram conseguidas, mas o que vos vai surpreender é a autenticidade com que o jogo retrata este período e esta região. As cores, a luminosidade etc, estão perfeitas, se não nos dissessem que estávamos na Sicília, facilmente o diriamos, que acho um feito extremamente importante num jogo que está a retratar toda uma época. No que toca aos personagens, animações e expressões faciais, já se viu melhor, mas é um trabalho bastante respeitável. A nível técnico há muito detalhe e a optimização, pelo menos na versão de Playstation 5, está bem conseguida, mantendo um bom equilíbrio entre a fidelidade visual e a performance. Um pequeno destaque para os modelos dos carros totalmente originais que estão muito porreiros, ainda que inspirados por modelos reais nós não temos 150 anos, portanto não nos são familiares e parecem autênticos.
Um dos aspectos mais fracos, mas que na verdade não é fraco, é a jogabilidade como um todo. A verdade é que tudo funciona bem, mas não funciona espetacularmente bem, não é perfeito, e considerando que tudo o que este jogo faz já foi feito 350 mil vezes antes, esperava que pudesse ter sido mais refinado. Este jogo é, na sua base, um cover shooter na terceira pessoa como tantos outros, e as mecânicas base deste tipo de jogo estão aqui todas presentes, mas todas por aperfeiçoar. Disparar parece por vezes um bocado vago, passar de um cover para o outro pode ser uma tarefa que mais vale não pensar nisso e tentar de qualquer maneira, porque se tentarmos fazer perfeito não vamos conseguir e a inteligência artificial dos inimigos oscila entre o demasiado passivo e o totalmente suicida, o que gera várias quebras de ritmo nas secções de acção. No geral, a jogabilidade cumpre o básico, mas fica aquém do que se espera de um título moderno do gênero, deixando a sensação de que com mais polimento poderia oferecer uma experiência mais satisfatória. Mais um apontamento para os carros, mas desta vez para a condução em particular. Nos outros jogos da série, este exercício sempre foi de grande importância, lembro-me de o primeiro jogo ter mecânicas até desnecessariamente complexas para aquilo que é o propósito da condução dos veículos num jogo deste género. Aqui há uma simplificação, ainda que no original essa “complicação” fosse opcional, mas a física dos veículos continua a ser muito particular destes títulos, e consegue transmitir muito feedback ao jogador sobre o comportamento do carro.

Tenho de deixar aqui uma palavra de apelo a que se façam mais jogos com o tipo de progressão aqui presente. Mafia: The Old Country é um jogo linear, é ainda bem. Há aqui uma zona aberta passível de ser explorada, mas que, na prática, serve quase exclusivamente como cenário para nos deslocarmos do ponto A ao ponto B. Há muito poucos sítios para visitar além daquilo que é imposto para a progressão da acção, e aqueles que há são verdadeiramente úteis como lojas, estábulos para levantarmos um cavalo ou garagens para levantarmos um carro. Não há nenhum enchimento de chouriços neste jogo, e eu acho que isso não só é fantástico como contraria aquilo que já nem é uma tendência, é uma norma nos jogos hoje em dia, que é um prolongamento artificial dos mesmos por via de tarefas repetitivas e conteúdo supérfluo que nada acrescenta à experiência de jogo. Aqui, cada missão e cada momento servem um propósito evidente na narrativa ou na jogabilidade, tornando a progressão mais envolvente e satisfatória.
Este jogo não é brilhante, não vem cá reinventar a roda, mas vem mostrar que conceitos de jogo clássicos continuam amplamente válidos para trazer ao jogador uma experiência de qualidade, cativante e divertida. Há aqui coisas que podiam ser melhores, mas faz quase tudo muito bem, e há um sentimento quase nostálgico por este tipo de jogos mais simples, mais directos. É um título que vale a pena para quem gosta do gênero e aprecia uma história bem contada. Por aqui fico à espera de uma sequela, até porque o final me deixou curioso e há personagens aqui presentes que são muito proeminentes nos outros jogos da série.

Mafia: The Old Country
Pros
- Mundo de jogo credível
- História e personagens bem realizados
- Progressão satisfatoriamente linear
- Graficamente bem conseguido
Cons
- Jogabilidade antiquada e a precisar de ser refinada
- Falta de creatividade
- Como assim não comem pizza?!
Ainda nem sabia falar como deve ser e já passava horas em frente ao meu velhinho 386. Hoje, continuo o mesmo: um fervoroso apaixonado por videojogos e por tudo o que lhes diz respeito.
