Mina The Hollower

Mina The Hollower – Vale a pena ir ao fundo desta Mina | Análise

Há jogos que chegam com o peso da expectativa às costas. Mina the Hollower é um deles. Depois de anos de silêncio criativo — se não contarmos os inúmeros DLCs/spinoffs de Shovel Knight —, a Yacht Club Games apostou tudo num novo universo, numa nova heroína, e numa visão diferente do que significa fazer um jogo retro em 2026. O resultado? Uma das experiências mais completas e exigentes que o género de ação-aventura indie tem para oferecer.

Mina the Hollower é uma ação-aventura de perspetiva top-down, com claras influências dos clássicos da era Game Boy Color. Quem conhece jogos como The Legend of Zelda ou Castlevania vai sentir-se imediatamente em casa — mas não demasiado confortável. O jogo inspira-se nessas raízes para construir algo mais exigente, mais sombrio, e com uma identidade própria muito marcada. Espera exploração, combate exigente, progressão por áreas interligadas e uma curva de dificuldade que não te vai dar tréguas. Há aqui um ADN claramente soulslike na forma como o jogo te castiga e te recompensa — algo a que voltaremos.

A Yacht Club Games não precisa de grandes apresentações para quem segue a cena indie. Foi o estúdio que trouxe Shovel Knight ao mundo em 2014, um jogo que se tornou referência absoluta do renascimento retro. Mina the Hollower nasceu de forma inesperada: começou como um projeto paralelo do programador Alec Faulkner, originalmente chamado Gothic, sem intenção de lançamento comercial. A gestão do estúdio reconheceu o potencial e abraçou o projeto.

Em fevereiro de 2022, uma campanha Kickstarter angariou mais de 1,2 milhões de dólares com o apoio de mais de 21 mil mecenas. O caminho não foi fácil: o desenvolvimento durou seis anos, durante os quais o estúdio teve de reduzir a equipa após consumir grande parte do seu capital. Para o diretor Sean Velasco, este era um momento decisivo para a Yacht Club — literalmente um “make-or-break”. O esforço valeu a pena: o jogo é um dos melhores de 2026.

 

Sou fã do estúdio e do seu trabalho, e acompanhei cada passo do desenvolvimento de Mina the Hollower com entusiasmo crescente. A combinação de estética retro, combate exigente e a promessa de um mundo novo foi suficiente para me prender desde o primeiro trailer. Este é exatamente o tipo de jogo que me faz sentar à frente do ecrã sem olhar para o relógio.

Numa mudança refrescante para o género, não és um herói anónimo lançado num mundo desconhecido. Mina é uma personagem conhecida e respeitada pela comunidade que habita — uma engenheira de renome que, dez anos antes dos eventos do jogo, ajudou a construir uma série de centrais que trouxeram prosperidade a toda a região. Quando algo corre mal nessas mesmas instalações, cabe-te a ti regressar e resolver o problema. A narrativa é simples mas eficaz — tem o charme das histórias que não precisam de se levar demasiado a sério para funcionar.

À medida que exploras, um mistério vai tomando forma e revelando as suas camadas de forma gradual. Se és um leitor atento de ficção ou um veterano do género, é provável que antecipes o desfecho com alguma antecedência. Ainda assim, o percurso até lá é genuinamente envolvente.

É aqui que Mina the Hollower brilha de forma incontestável. A mecânica central da personagem — afundar-se temporariamente na terra — parece simples à primeira vista, mas rapidamente percebemos a profundidade que o estúdio extraiu dela. Desde esquivar ataques, resolver puzzles ambientais, até navegar áreas com obstáculos pensados especificamente para desafiar esta capacidade, tudo foi desenhado com uma coerência notável.

É o melhor soulslike 2D que já joguei — e uso o termo com critério. Não porque imite a FromSoftware, mas porque captura a essência da experiência: a exigência, a recompensa pela persistência, o prazer visceral de ultrapassar um encontro que parecia impossível. A curva de aprendizagem é relativamente curta, mas a dificuldade mantém-se elevada ao longo de todo o jogo. Exploração, sangue frio e paciência não são opcionais — são obrigatórios.

Algo inovador que este jogo trás, é a quantidade enorme (centenas) de modificadores que o jogo te permite escolher. Estes modificadores podem tornar o jogo mais fácil, mais dificil ou simplesmente mais estranho. Muitos destes modificadores são tão subtis que até te podes esquecer de que está ativo. É uma adição ao jogo, que melhora a acessibilidade do jogo e que permitirá a qualquer um explorar este mundo.

Mina the Hollower abraça sem hesitação a estética retro, com uma paleta de cores e um pixel art que evocam os melhores jogos da sua época de referência. É bonito para quem aprecia o estilo — e sabe exatamente o que está a fazer. As cutscenes e imagens estáticas têm um charme particular, com uma qualidade artística que vai além do que seria de esperar de um título desta dimensão. A Yacht Club apostou num vocabulário visual de era portátil limitada, mas elevado com disciplina de animação moderna e detalhe atmosférico. Se os gráficos convencem, a estética conquista.

A identidade visual de Mina the Hollower é coesa, singular e cheia de personalidade — o tom gothic horror, os cenários sombrios mas coloridos, o design das personagens: tudo comunica uma visão artística clara e executada com rigor. É o tipo de jogo que reconheces num screenshot de dois segundos.

A interface é funcional e integrada no estilo visual do jogo. As indicações são intencionalmente escassas — parte da filosofia de design, que aposta numa experiência mais orgânica e menos guiada. O jogo não te deixa totalmente à deriva: há um manual detalhado, um jornal que vai dando pistas e um NPC dedicado (Newsie) a apontar-te o caminho quando te sentes perdido. Ainda assim, e mesmo reconhecendo esse esforço, as placas informativas espalhadas pelo mundo poderiam ser mais explícitas em certos momentos, sobretudo nas transições entre áreas. É uma escolha deliberada, e há quem aprecie essa abordagem mais old school — mas para muita gente, talvez seja o ponto menos conseguido do conjunto.

A banda sonora conta com Jake Kaufman como compositor principal, com uma participação especial de Yuzo Koshiro — nomes que dispensam apresentações no mundo dos jogos retro. O resultado é competente e coerente com a estética visual. No entanto, eu pessoalmente apesar de apreciar muito o estilo pixel art, preferia uma sonoridade mais moderna, pois sinto que a música fica aquém do potencial emocional que o jogo poderia explorar.

Mina the Hollower não reinventa a roda. Mistura a intensidade do combate das Zelda clássicas com a exploração top-down num mundo interligado, e faz isso muito bem. A mecânica de afundar na terra é o elemento mais original, e está integrada de forma exemplar em praticamente todos os sistemas do jogo. Não é um título que vai mudar a indústria, mas é um exemplo brilhante de como reciclar referências com inteligência e construir algo que se sente fresco.

Mina

Com cerca de 20 a 30 horas para completar a aventura principal, Mina the Hollower oferece uma experiência substancial — e isso sem contar os inúmeros segredos que ficaram por descobrir na primeira passagem (possivelmente umas 100 horas para quem quiser ir mais ao fundo). Para já, o estúdio não anunciou DLC, prometendo apenas pequenas atualizações e correções pós-lançamento. Confesso que, como fã deste mundo, via com bons olhos um regresso a este mundo no futuro — há aqui matéria-prima de sobra para mais.

Do início ao fim, Mina the Hollower é genuinamente divertido. Há uma fluidez na progressão, uma sensação de descoberta constante, e um prazer no domínio gradual das mecânicas que poucos jogos conseguem replicar. A desorientação ocasional pode quebrar o ritmo, mas é também parte do espírito de exploração que o jogo promove. Quando tudo encaixa, é difícil largar o comando.

Mina the Hollower chega num momento importante para a cena indie. Demonstra que é possível oferecer um jogo ambicioso, polido e memorável por 20€ — e que o público está disposto a recompensar essa aposta. Tal como Hollow Knight: Silk Song, este é o tipo de título que define padrões e que os fãs vão recomendar durante anos. Quando sair em formato físico, será compra certa para mim.

Veredito: 9

Mina the Hollower é a confirmação de que a Yacht Club Games está no melhor momento da sua história. É exigente, belo, coeso e genuinamente divertido — um jogo que respeita o jogador o suficiente para não lhe facilitar a vida, e que recompensa cada hora investida. Uma obra que vai envelhecer muito bem.