Moros Protocol – Sem sal na arte mas cheio de sabor na jogabilidade | Análise

Mais um roguelite, pensei eu. Existem algumas razões para este género hoje em dia estar muito em voga, motivos válidos ligados à popularidade da fórmula e também à facilidade técnica que existe no seu desenvolvimento. O seu design acaba por passar pela repetição do mesmo conteúdo vezes sem conta, melhorando o nosso personagem a cada uma dessas repetições e eventualmente conquistando o jogo. Esta repetição de conteúdo, em muitos exemplos acaba por ser tornar enfadonha muito rapidamente, mas há alguns exemplos onde tal não acontece graças ao loop viciante e à qualidade da experiência, coisas como Hades ou Getsufumaden. Moros Protocol é um FPS com a mesma fórmula, o primeiro roguelite que jogo nesta perspectiva. Ao início não estava muito entusiasmado, até porque acabei à poucos dias o Katanaut, outro roguelite cuja análise está disponível aqui no site. Mas o mais interessante destes jogos é que, se entramos no loop, é difícil sair, e Moros Protocol não foi diferente. Aliás, gosto tanto de jogos na primeira pessoa, que acho que ainda foi pior.

Considero que sou relativamente bom jogador de First Person Shooters. Não só pelo gosto que tenho pelo género, mas pela experiência que tenho ao ter jogado dezenas e dezenas deles, mas também porque é um género que me faz tirar total partido do melhor setup de sempre — Rato e teclado. Isso fez com que me debruçasse sobre Moros Protocol horas a fio. Só no primeiro dia que joguei isto, num sábado, dispensei 8 horas do meu tempo a este vício. É um jogo que vos prende muito rapidamente. O aspecto deste jogo é um caso de amor ódio. Gosto muito dos seus polígonos super simples e texturas com uma contagem de pixels extremamente reduzida. Mas a parte artística não acompanha, sendo esta muito sem sal, sem nada de especial a apresentar, quer a nível de design dos personagens, monstros ou mesmo dos cenários. Os polígonos têm charme retro, mas o design dos monstros podia ter sido feito num gerador automático de inimigos. A temática Sci-fi acaba por ajudar a criar aqui algum apelo mas não é de todo por isso que vais continuar a jogar passado dez minutos. E também não é pela história, ainda que tenha ali uma reviravolta engraçada a meio. E também não é pela música porque ela existe, funciona, e é isso.

É a jogabilidade que te faz clicar vezes sem conta no botão Start. Temos várias armas à disposição, umas de corpo a corpo, umas que disparam munições normais e outras que disparam munições de energia. A escolha é bastante grande variando de pequenas pistolas a metralhadoras e ainda algumas alienígenas com habilidades mais próprias. Umas são mais lentas, outras mais rápidas, umas dão mais dano, outras menos etc, mas todas as runs que fiz senti que a combinação que tinha disponível era sempre diferente e requeria sempre alguma adaptação da minha parte. Claro que ao fim de 30 ou 40 runs essa sensação desaparece porque já conhecemos o jogo de trás para à frente e, vamos procurar aquilo que queremos em vez de estarmos mais abertos à experimentação. Estas armas também levam upgrades, assim como o nosso personagem. Ao longo dos níveis vamos apanhando alguns perks típicos deste género como mais percentagem de dano, ou mais poder de cura. Grande parte deles tem uma contrapartida que nos leva a repensar se vale a pena aquilo que trazem de bom. Por vezes, mais vale estar quieto. Todos estes upgrades desaparecem no fim de cada run mas, também no fim, podemos aumentar vários atributos como a vida total ou a quantidade de munições que podemos transportar. 

Embora estes atributos que não perdemos façam diferença, nós como jogador e a nossa perícia é que sofre a maior evolução. O jogo tem vários inimigos diferentes ao longo das suas três zonas diferentes, e quando aprendemos a enfrentar todos eles as coisas vão ficando significativamente mais fáceis. Há sempre um pico de dificuldade nos Boss que são três por cada zona, mas é igual, é aprender a lidar com os mesmos e à terceira ou quarta vez já não há que enganar. Como as zonas são geradas aleatóriamente, vai ser sempre diferente, os desafios e os perigos vão mudar, mas com cuidado e atenção faz-se bem. Há alguns momentos de grande tensão quando não temos muitos recursos e temos de ultrapassar uma série grande de inimigos, mas estes momentos são também os melhores. Estas três zonas disponíveis têm um aspecto diferente entre elas, mas sou sincero, nem me lembro de qual é qual! Lembro-me sim dos inimigos em cada uma, porque no fundo é exatamente a isso que damos a nossa atenção. A acção é bastante rápida e frenética, portanto não há tempo para estar a ver a paisagem. Ainda que a mesma não exista, portanto pensando bem, ainda bem que não temos esses momentos. 

A dificuldade ao início vai parecer elevada, mas acreditem que é um jogo que se acaba muito bem com alguma perseverança. Da primeira para a segunda zona, e da segunda para a terceira há um incremento de dificuldade relativamente elevado, mas também vão angariar mais pontos para melhorar os vossos atributos no fim de cada run. Todas elas, no entanto, têm uma progressão idêntica. As salas são quase todas quadradas ou rectangulares, com pequenos corredores entre elas, e existem elevadores entre cada nível que podemos encontrar numa destas salas. Pelo caminho temos mercadores que nos vendem perks ou nos fazem upgrade às armas. Isto não muda desde o primeiro nível até ao fim, mas o quanto caótico é, a diversidade dos inimigos e dos seus ataques é que progride bastante. Nas últimas zonas temos de lidar com barris explosivos, inimigos voadores, inimigos que só podemos acertar nas costas, outros só na cabeça, outros só nos pés etc. É quase como se cada sala fosse um puzzle para o qual temos de arranjar uma solução imediata e ter a capacidade de a colocar em prática. 

Este jogo é muito bom e bastante divertido, apesar da sua palidez estética e fraca apresentação artística, é mais um roguelite que vale pela sua jogabilidade viciante e de qualidade. De notar que este é apenas o segundo jogo desenvolvido pelo estúdio Pixel Reign, um que convenceu a Super Rare Originals a pegar na publicação do jogo, portanto não sou só eu que vejo aqui potencial futuro. Para já vai estar disponível apenas para Steam, mas espero que possa chegar até às consolas, ainda que esta jogabilidade vai sofrer com um comando. Se gostam do género têm aqui uma boa proposta, e é também um bom exemplo de que, neste género, se a jogabilidade acerta, a componente audiovisual pode facilmente ficar em segundo plano.

Veredito: 8
Repetitivo? Sim. Mas impossível de largar. Moros Protocol mostra como o loop certo faz toda a diferença.