Há alguns anos atrás estava eu numa loja de videojogos e vejo um jogo de PSP que se chama Platypus. Chamou-me à atenção pela capa colorida e ao olhar para a parte de trás percebi que era um shmup. Como tal, por 1.5€ ou 2€ que custava, não foi sequer preciso pensar. O tempo passou e acabei por nunca pegar no Platypus para o jogar. Ao gravar o episódio 13 do The Collectors Tome, um dos spin-offs do nosso podcast The Games Tome, demos conta do lançamento deste remaster de nome Platypus Reclayed. Ficamos os dois surpreendidos porque não fazíamos ideia de que havia algum tipo de interesse neste jogo, muito menos um aparente cult following. Numa pesquisa breve percebemos que existia até uma sequela, Platypus II, exclusivo para windows e que não conta com o envolvimento da equipa que fez o primeiro. Portanto isto não é assim tão obscuro como eu acreditava ser, mas a outra coisa que fiquei a saber nesse dia é que Platypus é um jogo feito através da técnica conhecida como claymation. Esse processo consiste em modelar figuras de plasticina e fotografá-las em várias posições, criando depois uma animação em stop-motion. Há vários exemplos de jogos que utilizaram este método como é o caso de Skullmonkeys ou Clayfighter. Isto gerou em mim mais interesse em experimentar finalmente este título e acabou por acontecer com esta versão Reclayed que acabámos por receber para análise.

Este jogo originalmente saiu para Windows em 2002, tem depois a versão de PSP em 2006 e ainda versões para smartphones e para Xbox 360 nos anos seguintes. Esta versão refina a parte gráfica mas de resto é idêntica ao original, versão essa que, já agora, podem encontrar na secção de extras. Graficamente o jogo é muito interessante graças à técnica claymation, é muito colorido, tem um aspecto caseiro, perfeitamente imperfeito, adoravelmente charmoso. Até a minha namorada quando viu o jogo disse “QUE GIRO!”. É impossível ficar indiferente aos visuais, são mesmo muito porreiros e diferentes do típico, não só no género, mas nos videojogos em geral. Todos os inimigos, as nossas naves, as “explosões” e afins, estão muito bem animadas e é um prazer vê-las em acção. O único aspecto menos positivo é que os cenários são no geral muito simplistas, mas vá lá, é plasticina, vamos dar um desconto.
Durante este espetáculo visual, controlamos a nossa nave e disparamos contra os inimigos como em todos os shmups que existem. A nave manobra-se bastante bem, a jogabilidade é está muito bem afinada e tudo funciona como é suposto. É um shmup bastante simples, com um disparo base, com vários powerups diferentes, e estranhamente sem um botão para algo especial como é imensamente comum. Os powerups quando apanhamos têm um tempo limite de utilização ou, caso sejamos atingidos cessam de imediato. O tempo é muito limitado, normalmente 20-30 segundos, e além deles a única coisa que há é uns satélites que orbitam a nave que podem ser apanhados pelos níveis, mas as oportunidades são limitadas. Não gosto honestamente deste temporizador devido à sensação de constante retrocesso no poder da nave, e em vez de haver uma construção para estarmos o mais fortes possível, há apenas breves momentos em que conseguimos ser realmente eficientes, enquanto o resto do tempo sentimos que estamos sempre em desvantagem. Noutros shmups mais conceituados como Ikaruga (com o seu sistema de polaridade), Gradius (com a barra de upgrades em progressão) ou até Jamestown (com os seus diferentes modos de vaunt), existe uma curva de progressão clara que mantém o jogador motivado a evoluir. Aqui, pelo contrário, o design transmite mais frustração do que vontade de experimentar outra vez. O jogo também não é nada fácil, é bastante exigente e os 3 créditos vão rapidamente à vida.

Temos também o problema da progressão. São apenas 5 níveis, cada um dividido em várias áreas que demoram imenso tempo a percorrer. Na verdade demoram demasiado tempo a percorrer. Os inimigos são quase sempre os mesmos e as áreas são todas iguais, instalando-se rapidamente uma monotonia que leva ao aborrecimento. Tal como a falta de progressão na nossa nova, a progressão pelos cenários também parece não existir porque vamos enfrentar os mesmos desafios vezes e vezes sem conta. Quando consegui chegar ao fim, que nem é tarefa fácil, nem breve, pouco incentivo tive para voltar a passar pelo mesmo. Acabei por experimentar a versão original para ver a diferença, e foi isso. Não é bom o suficiente para nos fazer perder mais tempo. Se não estão familiarizados com shmups talvez vos pareça uma proposta mais interessante, mas há tantos jogos do mesmo género que são muito melhores que, para mim, torna-se difícil justificar passar muito tempo com este jogo. A única coisa que fico agora curioso é experimentar o Platypus II para ver o que fizeram com a sequela.

Não é que Platypus Reclayed seja um jogo mau, só que não faz nada de especial. É um shmup que não trás nada para cima da mesa e, aquilo que trás, como o temporizador nos powerups, é mais uma camada de dificuldade desnecessária do que outra coisa qualquer. É um jogo engraçado para mostrar aos amigos algo diferente, vai arrancar alguns sorrisos pela sua apresentação, mas dúvido que conquiste muitas pessoas para o jogar ao ponto de o conhecer de trás para a frente. Diria que é um jogo de nicho: vale pela curiosidade do seu estilo visual e pelo charme da claymation, mas para quem procura um shmup de referência há dezenas de opções muito mais marcantes. Quero fazer no entanto a ressalva de que este jogo pode ser perfeito para crianças, e pode ser um excelente ponto de entrada para o género, ainda que a sua dificuldade seja talvez um entrave ao divertimento dos mais novos. Platypus Reclayed vai estar disponível simultaneamente para Switch, Playstation, Xbox e PC, o que evidência confiança neste lançamento por parte tanto do estúdio de desenvolvimento, como da distribuidora.
Ainda nem sabia falar como deve ser e já passava horas em frente ao meu velhinho 386. Hoje, continuo o mesmo: um fervoroso apaixonado por videojogos e por tudo o que lhes diz respeito.
