Há jogos que vivem da narrativa. E esta narrativa experiencia-se como se fosse um sonho estranho. Bye Sweet Carole, o novo título da Little Sewing Machine e de Chris Darril, criador da série Remothered, é exatamente isso, uma fábula negra que parece saída de um sonho retorcido de Walt Disney. É belo e deliciosamente sombrio.
No centro da história está Lana Benton, uma jovem que se vê arrastada para um misterioso mundo que combina a doçura dos contos infantis com o peso do medo e da perda. Situado na Inglaterra do início do século XX, numa época em que o movimento sufragista começa a remodelar a sociedade, a jovem Lana parte em busca da sua amiga desaparecida, Carole Simmons. A sua jornada leva-a através do orfanato Bunny Hall e até ao enigmático reino de Corolla, um lugar controlado pelo sinistro Sr. Kyn, pela implacável coruja Velenia e por enxames de vorazes tar bunnies. Apanhada entre dois mundos, Lana terá de encontrar uma forma de sobreviver e descobrir a sombria verdade por trás do desaparecimento de Carole.
Bye Sweet Carole parece um híbrido entre Alice no País das Maravilhas e algo mais retorcido, com um toque de Tim Burton ou Guillermo del Toro, onde a narrativa é contada com um ritmo quase cinematográfico, embora muito lento em algumas ocasiões. O jogo mistura exploração, puzzles e furtividade em ambientes bidimensionais que mais se assemelham a uma animação interativa. Bye Sweet Carole nunca tenta ser um survival horror no sentido clássico, já que aqui o terror é mais subtil.
O controlo é fluido, os puzzles são inteligentes sem se tornarem frustrantes e há sempre um incentivo para explorar cada recanto, nem que seja apenas pela curiosidade do jogador. Os momentos de fuga e tensão são equilibrados e funcionam como picos de adrenalina num mundo de mistério e melancolia.
O design dos níveis aposta na verticalidade e na descoberta. O jogador é convidado a observar, ouvir e, sobretudo, sentir o ambiente. Embora estranho, a nossa personagem pode transformar-se num coelho, o que lhe permite mover-se mais rapidamente e, mais importante, saltar, uma habilidade essencial para alcançar os objetivos de cada puzzle ou nível. Mais à frente, é também possível controlar outra personagem.

Contudo, é na direção artística que Bye Sweet Carole se distingue verdadeiramente. A estética cartoon é uma carta de amor à animação tradicional, com um grande piscar de olho aos clássicos da Disney, mas com um toque sombrio e elegante que o torna memorável. Todos os elementos e animações foram desenhados à mão e, embora não seja algo inédito em videojogos, é uma abordagem interessante que confere uma estética muito própria, vincando assim a identidade do jogo.
A iluminação, o uso da cor e as subtis animações em background demonstram um grande cuidado e atenção ao detalhe: cortinas que ondulam ao vento, folhas que se movem lentamente, reflexos distorcidos que nos seguem discretamente. Há uma sensação de movimento constante, mesmo quando nada parece acontecer. É esse detalhe visual que transforma o jogo numa experiência visualmente rica e imersiva.
A banda sonora, embora simples, reforça cada momento com composições melancólicas e inquietantes, misturando temas orquestrais com silêncios que dão ênfase às emoções certas.

Apesar de alguns senãos, como controlos que podiam ser mais precisos ou o ritmo de jogo que por vezes abranda demasiado, Bye Sweet Carole é um jogo que dificilmente se esquece. Ainda que não seja uma experiência para todos, acredito que vá agradar especialmente a fãs de Broken Sword, já que, apesar de não ser point & click, partilha de algumas mecânicas que recordam as aventuras de George Stobbart. É um jogo que exige atenção, sensibilidade e vontade de saborear uma história que é tanto um conto de fadas como uma reflexão sobre o medo e a solidão. Mas, para quem se deixar levar, é um verdadeiro deleite visual.

Começou a jogar num spectrum 48k e desde então tem uma paixão por videojogos, não imagina a sua vida sem jogar. Fã de RPGs, First Person Shooters e jogos Third Person.
