Syberia remastered

Syberia Remastered – Um regresso belo, mas com alguma ferrugem | Análise

Há algo de imediatamente melancólico e misterioso em Syberia Remastered. Desde os primeiros minutos, o jogo transporta-te para um mundo frio e encantado, onde o tempo parece mover-se devagar — tal como a protagonista, Kate Walker. A tonalidade quase poética do enredo e a aura de solidão das paisagens industriais criam um ambiente muito próprio, difícil de encontrar nos jogos modernos. É uma daquelas experiências que se saboreiam com calma, como um livro antigo redescoberto.

Este é uma aventura gráfica clássica, ou se preferires, um point and click (como atualmente chamam a este tipo de jogo). Syberia Remastered mantém a alma do original, com puzzles, exploração e diálogos, mas traz controlos mais modernos e uma câmara livre que substitui as antigas câmaras fixas. A jogabilidade continua a apostar na observação e resolução de enigmas, mais do que em ação, e o ritmo é deliberadamente pausado — ideal para quem gosta de pensar antes de agir.

O jogo é desenvolvido e publicado pela Microids (que já tem trabalhado em alguns jogos de aventura, que modernizam a mecânica point and click, como este que analisámos no ano passado), estúdio francês responsável pela série original Syberia, criada por Benoît Sokal, um artista que criou várias bandas desenhadas, além de ser diretor artístico de alguns videojogos. Quando o primeiro Syberia saiu, em 2002, foi recebido como uma lufada de ar fresco — uma aventura poética, visualmente distinta e com uma heroína carismática. O remaster tenta reviver esse encanto, com melhorias gráficas , controlos atualizados e algumas revisões aos puzzles, sem alterar demasiado o espírito do clássico.

As aventuras gráficas sempre foram o meu tipo de jogo preferido no PC. Há algo de único na forma como misturam história, lógica e exploração, e o género point and click marcou-me desde cedo. Syberia sempre me despertou curiosidade — a boa receção crítica, o estilo artístico e o tom melancólico faziam-no sobressair numa altura em que o género parecia esquecido.
Curiosamente, nunca tinha jogado o original nem as sequelas. Quando esta versão remastered foi anunciada, pareceu-me o momento perfeito para finalmente conhecer o universo criado por Benoît Sokal.

A história é simples, Kate Walker, uma jovem advogada americana, viaja até uma pequena aldeia europeia para fechar um contrato de aquisição de uma fábrica e é isso. Essa simplicidade pode desapontar quem procura algo mais grandioso. Não estás à procura de um tesouro ou civilização perdida, mas sim de uma pessoa. Na busca dessa pessoa embarcas num comboio mecânico, na companhia do maquinista autómato Óscar (atenção… não é um robot) e vais avançando sem saber para onde nem porquê, havendo o único objetivo de (literalmente) “dar corda ao comboio” para continuar em frente.

É fácil acompanhar a narrativa — a história é autossuficiente, e o contexto surge naturalmente nos diálogos e documentos espalhados pelos cenários. O enredo, no entanto, é mais intimista e pessoal do que épico.  O que começa como uma tarefa simples transforma-se rapidamente numa jornada pessoal e algo espiritual.

A decisão de abandonar as câmaras fixas do original foi acertada — o novo sistema de câmara é muito mais fluido, ainda que o controlo da personagem continue um pouco rígido. O principal problema é o movimento lento de Kate. Existe um botão para correr, mas prepara-te: vais passar o jogo inteiro com o dedo colado ao gatilho.

Outra frustração vem da interação com objetos e NPCs. Há momentos em que tens de te posicionar com precisão cirúrgica para o jogo reconhecer que queres falar ou examinar algo.

Os puzzles são variados e inteligentes, mas talvez demasiado fáceis. Muitas vezes, o item necessário está mesmo ao lado do enigma, o que reduz o sentido de descoberta. Há também aquele tipo de lógica “estranha” típica dos point and clicks antigos — como ter de usar um ovo de cuco para abrir uma porta. Apesar de ser claro, que o tal ovo abriria a porta, fiquei várias vezes a pensar: “Porquê?”.

Ainda assim, há mérito na criatividade. A Microids ajustou alguns puzzles, introduzindo pequenos twists nas soluções. Chegou a acontecer-me um momento delicioso (e frustrante). A única vez em que fiquei preso na resolução de um enigma, tentei encontrar uma solução online, mas apenas surgiam soluções para o jogo original, em que o puzzle era diferente. Sem encontrar nenhuma solução online — foi como voltar a jogar num mundo pré-internet.

O novo modo História é uma adição bem-vinda, tornando mais claro o que é suposto fazer a seguir. Mas se quiseres a experiência autêntica, o modo Aventura preserva a dificuldade e o ritmo do original.

A direção artística é, sem dúvida, o ponto mais forte. O universo de Syberia é fascinante. Mistura uma arquitetura (que não é a típica europeia, pois há algo pouco familiar nela) com máquinas autómatas e elementos steampunk, criando um mundo familiar mas diferente, misterioso e belo. É um universo paralelo ao nosso em que percebemos que as coisas são diferentes, mas nunca chegamos a saber detalhes sobre os problemas desse mundo e o porquê de algumas coisas serem assim. Isso deixou-me cheio de curiosidade em saber mais sobre esse mundo alternativo.

Apesar de ser um remaster, não esperes um salto visual enorme. Os cenários continuam lindos, graças à direção artística, mas os rostos das personagens e algumas animações estão claramente datados. Em certas zonas, especialmente mais adiante no jogo, notei stuttering que afetava a framerate e até o som. Pequenas falhas, mas que quebram um pouco a imersão.

As cutscenes originais em CGI foram passadas por um filtro, mas destoam um pouco dos gráficos apresentados no próprio jogo. A banda sonora é curta, mas elegante e atmosférica. O problema é o equilíbrio de som — por vezes, a música sobrepõe-se aos diálogos, o que me obrigou a ajustar o volume manualmente.

Syberia Remastered dura cerca de 10 horas, o suficiente para te envolver sem se arrastar. Não é um jogo que se jogue mais que uma vez, mas funciona como uma bela introdução ao universo da série.

No final, fiquei com sentimentos mistos: o jogo é relaxante, bonito e nostálgico, mas peca por uma história pouco envolvente e por uma jogabilidade algo datada. Ainda assim, compreendo porque Syberia é tão querido — há um charme melancólico difícil de explicar, e o mundo que esconde promete muito mais.

É o tipo de jogo que não impressiona pela dificuldade ou pela ação, mas sim pelo ambiente e sensibilidade artística. E, confesso, depois de terminar, apesar do final anti-climático, fiquei curioso em seguir com Kate na sua próxima aventura.

Veredito: 7

Syberia Remastered é uma carta de amor às aventuras gráficas clássicas, que moderniza o suficiente para agradar a novos jogadores, mas sem perder a sua essência. É um jogo mais para sentir do que para vencer — uma experiência calma, artística e um pouco nostálgica.
Se procuras um desafio cerebral, talvez fiques com vontade de algo mais complexo. Mas se valorizas ambiente, estilo e uma boa viagem emocional, esta é uma paragem obrigatória no comboio para Syberia.