A 5ª edição mudou de espaço e ficou muito melhor. O Hovione Atrium da Universidade Nova SBE de Carcavelos recebeu, no fim-de-semana de 9 e 10 de maio de 2026, o 5º Festival de Jogos de Tabuleiro para Famílias, uma das iniciativas que o Instituto de Apoio à Criança organiza anualmente. Logo à entrada, percebi que este ano ia ser diferente. O Hovione Atrium respirava — luz natural, espaço amplo, mesas cheias mas sem aquela sensação de sufoco do Casino do Estoril.
Marquei presença neste evento pela primeira vez o ano passado e fiz questão de o visitar novamente. No panorama nacional, continua a ser um dos eventos que mais genuinamente cumpre o que promete: juntar famílias à mesa, sem pretensões de convenção hardcore, sem barreiras à entrada. As crianças não pagam, o bilhete dos adultos tem um preço quase simbólico de 2€ e ainda devolve o valor em vales de desconto na aquisição de jogos nas bancas do evento. Embora os jogadores mais experientes sejam bem vindos, o foco está nas famílias. E se, na edição passada, ainda assim, senti que a maioria do público eram adultos aficionados por este hobby, este ano senti uma presença muito maior de famílias completas no espaço, o que me agradou bastante.

O Festival de Jogos de Tabuleiro para Famílias tem vindo a crescer de forma consistente — na edição de 2025 reuniu mais de duas mil pessoas. A mudança para a Nova SBE não foi por acaso: o Casino do Estoril, cenário das últimas edições, já não chegava. O ano passado apontei que senti a falta de mesas, tendo passado demasiado tempo a circular nos corredores sem me conseguir sentar a jogar. Este ano, saí do festival satisfeito, com a sensação de ter aproveitado muito melhor o meu tempo. Tive a oportunidade de experimentar provavelmente o dobro dos jogos do ano passado.
O modelo mantém-se: o festival contou com a presença de editoras nacionais como Devir, Mebo Games, DiverCentro, Salta da Caixa e Creative Toys, praticamente o all-star cast do mercado português. Foram os jogos destas editoras que ocuparam as mesas, com staff disponível para ensinar as regras, acompanhar as primeiras jogadas e tirar qualquer dúvida. Os visitantes não precisaram de mergulhar nos manuais, num instante estavam a jogar, saltando o que costuma ser a maior barreira inicial deste hobby. Uma palavra de apreço para a enorme simpatia e disponibilidade de todo o staff presente.

O portefólio de jogos disponíveis para experimentar era adequado, acessível para os mais novos. Muitos jogos de festa ou os chamados jogos de entrada, com regras acessíveis e um grau de complexidade mais amigo de novos jogadores. Num festival que procura cativar famílias para os jogos de tabuleiro, esta era a escolha certa. Ainda assim, os jogadores mais experientes podiam também encontrar um ou outro título mais complexo. Eu sou um jogador experiente, normalmente encontrando maior satisfação em jogos que me prendem à mesa por um bom par de horas. Mas larguei boas gargalhadas a jogar Kites, estou a considerar seriamente adicionar à minha coleção o jogo de cartas Flip 7 e fiquei fan do jogo cooperativo Caça Bombas.
Tal como na edição do ano passado, os jogos mais conhecidos e apelativos estavam constantemente ocupados, pedindo uma segunda ou mesmo terceira mesa dedicadas a cada um deles. Este ano, contudo, consegui experimentar o que mais procurava. Aproveitei a baixa de visitantes durante a hora de almoço para jogar Cities e mesmo a fechar o dia consegui arranjar forma de me sentar para jogar Caça Bombas. Percebi, contudo, que esta limitação não se deve à organização, mas sim às editoras mesmo, que para ter mais mesas com alguns destes jogos mais procurados e mais complexos de explicar, precisavam de ter mais staff disponível para o evento. Se calhar é algo que poderiam rever para em 2027. Aproveitando este reparo às editoras, de referir que poderiam vir melhor preparadas com stock de jogos para venda. A partir de metade do segundo dia do festival, já não tinham stock dos jogos mais procurados. Os descontos apelativos oferecidos durante o festival, bem como o interesse gerado com as demonstrações dos jogos, levaram a que as bancas de venda estivessem sempre rodeadas de uma pequena multidão.

Fica-me do dia um ambiente que só se sente estando lá, uma qualidade não capturada pelos números: a energia de uma sala onde toda a gente está genuinamente a divertir-se. As gargalhadas, o debate de estratégias, a satisfação nas crianças… e nos adultos. Aqueles momentos que olhas para as mesas ao lado da tua e te deixas contagiar pela boa disposição, percebendo o poder positivo dos jogos de tabuleiro na dinâmica social das pessoas.
O Festival de Jogos de Tabuleiro para Famílias não tenta ser uma LisboaCON. Não é uma convenção para entusiastas exigentes em busca de raridades e ludotecas infinitas (como sinto falta de um evento desses dedicado aos jogos de tabuleiro na nossa capital). É outra coisa… e faz muito bem essa outra coisa. E a forma como cresce de ano para ano e a satisfação dos visitantes presentes comprova-o. É um evento que acredita que sentar uma família à volta de um tabuleiro é, em si mesmo, um ato que vale a pena celebrar. E, para mim, mesmo não tendo ido em família, foi um domingo muito bem passado.

Começou a jogar ainda os jogos se carregavam a partir de uma cassete de fita magnética. Completamente viciado em FIFA, é também fã incondicional de RPGs e Jogos de Estratégia. Junta, aos videojogos, a paixão pelos jogos de tabuleiro.
