Carmageddon: Rogue Shift representa uma tentativa ousada de reinventar uma das séries mais controversas e icónicas do mundo dos videojogos, mas fá-lo através de uma abordagem que inevitavelmente divide opiniões.
Longe do formato clássico de mundo aberto e caos quase sandbox que marcou os títulos originais dos anos 90, este novo capítulo produzido pelo estúdio 34BigThings aposta numa estrutura roguelite com progressão por “runs”, onde cada tentativa é diferente, construída à volta de escolhas estratégicas de perks, armas e caminhos apercorrer num mapa segmentado. Essa mudança estrutural é, ao mesmo tempo, a sua maior força e a sua maior fraqueza.
Do ponto de vista conceptual, a fusão entre corrida arcade, combate veicular e mecânicas típicas de roguelite funciona melhor do que muitos poderiam antecipar. Cada sessão obriga-nos a adaptamo-nos às opções disponíveis, onde podemos escolher eventos, lojas, desafios e confrontos contra bosses, criando uma sensação constante de risco e recompensa. A variedade de armas, classes de veículos e melhorias permanentes desbloqueáveis entre tentativas oferece profundidade suficiente para incentivar repetição.
Há uma satisfação clara em construir uma “build” focada em dano explosivo, resistência extrema ou mobilidade, e perceber que aquela combinação específica altera significativamente a forma como se enfrenta cada corrida. O sistema de progressão permanente também ajuda a suavizar a frustração típica do género, recompensando o tempo investido mesmo após uma derrota.
A ambientação contribui bastante para a identidade de Carmageddon: Rogue Shift. O cenário pós apocalíptico situado em meados do século XXI, com hordas de zombies a invadir pistas durante segmentos noturnos, reforça o clima agressivo e decadente. O design sonoro, apoiado por uma banda sonora pesada e por efeitos de impacto robustos, consegue transmitir a brutalidade dos confrontos. Visualmente, o jogo aposta numa estética industrial e suja, coerente com o espírito destrutivo da série, ainda que sem grande inovação artística. Funciona, mas raramente impressiona.

No entanto, quando se passa do conceito para a execução, começam a surgir fragilidades evidentes. A condução, elemento central num jogo que se baseia em corridas com combate, é bastante inconsistente. Muitos veículos transmitem uma sensação de leveza excessiva, quase como se flutuassem na pista, o que reduz a percepção de peso e impacto. A física pode tornar-se imprevisível em colisões mais violentas, resultando em perdas de controlo frustrantes. Embora parte deste comportamento possa ser intencional para reforçar o caos arcade, a linha entre desafio e falta de precisão nem sempre é bem gerida. Para jogadores mais exigentes com o “feeling” de condução, este é provavelmente o ponto mais fraco da experiência.
Outro problema presente em Carmageddon: Rogue Shitf prende-se com a repetitividade estrutural. Apesar da variedade teórica de perks e armas, os eventos acabam por reciclar objetivos semelhantes com frequência. Depois de várias horas, começa a instalar-se uma sensação de déjà vu, especialmente quando determinadas combinações se revelam claramente mais eficazes do que outras, reduzindo o incentivo à experimentação. Alguns confrontos contra bosses, que deveriam ser o culminar emocionante de cada run, prolongam-se excessivamente e transformam-se em testes de resistência mais do que em desafios estratégicos dinâmicos.

Talvez a crítica mais significativa que tenho a apontar venha da própria identidade da marca. Para muitos fãs de longa data, este título pouco tem do espírito irreverente e provocador que definiu Carmageddon no passado. A ausência de um mundo aberto expansivo, mais liberdade de interações e zombies (que hoje em dia é banal) invés de velhinhas a atravessarem a rua, retira-lhe aquela sensação de anarquia total que tornou a série memorável. Em vez disso, Carmageddon: Rogue Shift assume uma estrutura mais contida e orientada por sistemas, o que pode ser visto como uma modernização necessária ou como uma descaracterização profunda, dependendo da perspectiva de cada um obviamente.
Tecnicamente, o jogo apresenta uma performance estável (com uma RTX 4060) mas não está isento de pequenos problemas, desde bugs ocasionais a desequilíbrios em certas combinações de melhorias. Nada que o torne injogável, mas suficiente para quebrar a imersão em momentos menos oportunos.

Carmageddon: Rogue Shift é um spin-off competente que encontra algum sucesso ao cruzar corrida arcade com progressão roguelite, oferecendo sessões intensas e estrategicamente interessantes para quem aprecia este tipo de estrutura. Contudo, falha em entregar uma condução verdadeiramente satisfatória e arrisca alienar parte do público tradicional da série ao afastar-se radicalmente das suas raízes. Não é um completo desastre, mas também não é uma obra-prima, podendo-se dizer que é mais como uma “experiência de laboratório”, com ideias boas e execução irregular, que poderá agradar mais a jogadores abertos à reinvenção do que a puristas nostálgicos.

Jogo de tudo um pouco, desde a minha primeira consola de jogos, a Master System II. Desde aí muita coisa mudou, mas a paixão e dedicação aos videojogos permaneceu intacta.
Apesar de jogar de tudo um pouco, desde FPS a RPG´s, sou grande adepto de Fighting games, como o Mortal Kombat e ainda de jogos de desporto automóvel, como o Forza Motorsport. Também não dispenso boas séries e bons filmes. Sou grande fã de animes desde muito cedo, onde tenho DragonBall e Naruto como séries de eleição.
