Frostpunk 2

Frostpunk 2: do frio extremo ao fogo da política | Análise

Frostpunk 2 chegou às consolas e foi o mote que eu precisava para regressar a Nova Londres. O jogo original é brilhante e marcou-me profundamente, tendo escrito uma análise extremamente positiva. Fiquei tão impressionado que, quando o jogo de tabuleiro foi anunciado no kickstarter, não resisti em adicioná-lo à minha estante de jogos (e ainda bem que o fiz, pois também é brilhante, capturando a essência do videojogo na perfeição).

Trinta anos depois da tempestade que transformou o mundo em gelo e forçou o império britânico a abandonar as suas cidades, reunindo-se em redor de geradores de calor massivos, Frostpunk 2 reabre a ferida da sobrevivência numa nova era em que não basta desafiar o frio: é preciso reconstruir, expandir, liderar e negociar. Enquanto o primeiro jogo colocava o jogador à beira do colapso, a sequela aumenta a escala e força-nos a sair a cratera e a expandir através do mundo gelado.

Este aumento de escala é o ponto chave de Frostpunk 2. Em Frostpunk, vivíamos centrados em volta do gerador, construindo em seu redor, gerindo a pinças as zonas de calor, enquanto que o mundo fora da cratera se limitava a um mecanismo de envio de batedores para recolher recursos e explorar as redondezas. As pessoas de Nova Londres tinham nomes, trabalhos e família. Havia um maior envolvimento moral e emocional com tudo o que fazíamos que impactava os cidadãos.

Nesta sequela, fazemos um zoom out desta realidade. Os recursos da cratera onde a colónia de Nova Londres foi fundada esgotaram-se e temos de encontrar novos recursos na desolação gelada exterior, explorando, expandindo até eventualmente fundar novas colónias. Já não se tratam apenas de edifícios individuais, mas sim de distritos inteiros, cada um com funções específicas e interdependentes. Já não são os cidadãos individuais, mas os grupos sociais e facções políticas que contam. Não deixando de ser um city builder, o jogo ganha elementos que o aproximam de um Civilization (salvaguardando as devidas diferenças, claro). Já não somos só o presidente da câmara, desempenhamos um papel quase de primeiro-ministro.

Neste ponto, há-que dar a mão à palmatória à 11 Bit Studios. A solução confortável para um Frostpunk 2 seria repetir a fórmula do primeiro jogo, refinando mecanismos e dando-lhe um novo “envólucro”. Mas não foi essa a escolha. O estúdio foi ambicioso para esta sequela, correndo riscos e apresentando-nos um jogo com uma escala muito mais massiva, com um grau de complexidade superior. E apresenta-nos um produto final excelente, sem ter dado um passo maior que a perna.

No geral, a experiência é imersiva e desafiante. As primeiras horas podem ser cruéis, castigando erros de planeamento ou indecisão, mas esse é também o coração do jogo: mostrar que cada escolha tem consequências duras. Falhar e voltar a tentar faz parte de Frostpunk 2 e há uma enorme re-jogabilidade, seja através de diferentes níveis de dificuldade seja através dos dois modos de jogo. Podemos jogar o modo de história, que nos leva através de vários capítulos, introduzindo-nos os vários mecanismos do jogo progressivamente e guiando-nos através de uma narrativa (que convenhamos, é muito superficial servindo apenas o propósito de ir estabelecendo novos objectivos sobre a forma de uma campanha), ou podemos jogar o modo Utopia, um sandbox sem um fim definido, em que levamos ao limite as necessidades de sobrevivência e capacidade de expansão. A curva de aprendizagem é exigente, e embora os tutoriais ajudem, é fácil sentir-se esmagado pela quantidade de menus, sistemas e escolhas. Ainda assim, quem ultrapassar esta barreira encontra um jogo que recompensa planeamento cuidadoso e visão estratégica.

Um dos aspetos mais marcantes da jogabilidade é a forma como o mapa está coberto de gelo e neve que bloqueiam o acesso a novas áreas de construção e extração. Antes de erguer fábricas, perfuradores ou centros de habitação, o jogador precisa de investir tempo e recursos em remover essas camadas de gelo. Fontes de carvão, depósitos de petróleo e outros recursos vitais encontram-se muitas vezes inacessíveis sob gelo espesso. Só depois de limpar o terreno é possível instalar as estruturas de extração necessárias. Essa cadência cria um ritmo de jogo muito característico: não basta querer crescer rapidamente, porque a própria natureza impõe um atraso, uma barreira que só é superada com esforço. É uma forma inteligente de simular o peso físico e logístico de tentar prosperar num mundo congelado.

Essa mecânica, aparentemente simples, acrescenta uma dimensão importante: obriga a planear não só o que construir, mas também quando e onde abrir espaço. Cada expansão exige priorização e, muitas vezes, escolhas difíceis entre limpar território para habitação, para indústrias ou para infra-estruturas de suporte. Isto porque porque um dos recursos mais importantes do jogo, senão o mais importante, é a mão de obra. Para limpar gelo é preciso pessoas para o fazer, as mesmas pessoas que são necessárias para manter as infra-estruturas a funcionar. Muitas vezes temos de puxar a manta de um lado para tapar do outro.

Visualmente, Frostpunk 2 mantém a atmosfera sombria e opressiva que caracteriza a série, agora com uma escala ainda mais imponente. As paisagens cobertas de gelo, os distritos industriais iluminados por chamas e maquinaria, e a forma como a cidade cresce transmitem impacto e identidade. A banda sonora acompanha esse peso, com melodias discretas mas carregadas de tensão, enquanto o design sonoro — do vento cortante aos rangidos do metal — reforça constantemente a sensação de vulnerabilidade perante a hostilidade gelada do ambiente. Os anúncios do arauto da cidade, típicos da franquia, vão pontuando momentos importantes, reforçando o ambiente de tensão e controlo social.

Narrativamente, Frostpunk 2 aposta menos no drama íntimo e mais nas tensões coletivas. O primeiro jogo transmitia a dureza da sobrevivência através de pequenos eventos que humanizavam cada cidadão. Aqui, o foco é mais estrutural, quase ideológico. O Conselho de Leis, as votações e as disputas internas conferem ao jogador um papel quase de estadista, mais distante das vidas individuais. Essa mudança pode desapontar quem valorizava a carga emocional do original, mas amplia a discussão sobre poder, ética e futuro de uma sociedade em reconstrução.

Os sistemas de facções políticas e governação são, aliás, na minha opinião, os pontos mais fortes deste jogo. A forma como precisamos de encontrar um equilíbrio entre grupos opostos de cidadãos, com interesses e ideologias opostas, está muito bem conseguido. Aprecio imenso que não só temos de tomar decisões sobre o rumo a tomar e leis a implementar, mas também as temos de conseguir aprovar em conselho, forçando-nos muitas vezes a negociações com as facções políticas e a fazer promessas sobre medidas a tomar e rumos a seguir. E é importante aqui destacar que não estamos a falar de medidas corriqueiras, tendo de nos debater com medidas como a aprovação do trabalho infantil (em condições de risco elevadas), inaceitável moralmente, mas talvez necessária do ponto de vista de sobrevivência da colónia.

Faltar a promessas ou deteriorar uma relação com determinada facção pode levar a conflitos que nos reduzem a mão de obra, essencial para que tudo funcione na cidade. Já não perdemos o jogo apenas para as adversidades meteorológicas. Agora, também temos de nos preocupar com a possibilidade da população perder a confiança em nós ou com o nível de tensão aumentando a ponto de sermos expulsos do cargo. É muito fácil que a escassez de qualquer um dos recursos o leve a uma espiral descendente, onde todos entram em conflito uns com os outros e a sociedade entra em colapso.

Muito embora goste bastante da forma como o sistema político funciona em Frostpunk 2 e valorize o trabalho que a 11 Bit Studios fez no aumento massivo da escala do jogo, sinto falta da proximidade aos cidadãos e do ambiente mais intimista e visceral do primeiro jogo. A tensão da ameaça à sobrevivência era muito mais estabelecida e, com isso, o jogo agarrava-me muito mais. Cada cidadão que se perdia em Frostpunk era um murro no estômago e, nesta sequela, é mais um número para a estatística. Apesar do excelente trabalho em manter a atmosfera original, não me sinto tão imerso no jogo, não dando conta das horas a passar. Sinto que se perdeu um pouco do que mais diferenciava a franquia dos restantes videojogos desta categoria.

Não tendo jogado em PC para comparar, posso dizer que esta adaptação às consolas me parece bem conseguida, com um interface que funciona bastante bem para a complexidade do jogo.

Veredito: 8.5

 

Frostpunk 2 não é apenas sobre como sobreviver ao frio, mas também sobre enfrentar o fogo das ideologias. Uma sequela robusta, ambiciosa e memorável. Expande as mecânicas, aumenta a escala e introduz um sistema político e de facções brilhante, que torna o processo de implementação de decisões mais tenso e interessante. É um jogo que exige dedicação e gosto por desafios estratégicos complexos, mas muito recompensador e com um ambiente único. Para os fãs do original, é praticamente obrigatório. É um jogo excelente e por isso leva uma nota alta, mas, pessoalmente, o ambiente mais intimista e visceral do primeiro título e a forma como mexia com os jogadores emocionalmente, colocavam-o um patamar acima.