Grand Emprise 2: Portals Apart - DESTAQUE

Grand Emprise 2: Portals Apart | Análise

Grand Emprise 2: Portals Apart é daqueles jogos que nos deixam divididos entre a admiração pela sua ousadia e a frustração pelas suas limitações. O jogo (desenvolvido por Tbjbu2) surge como uma continuação espiritual de Grand Emprise: Time Travel Survival, mas em vez de uma narrativa de viagem temporal, apresenta-nos um conceito diferente: atravessar portais que levam a mundos radicalmente distintos, cada um com as suas regras, paisagens e desafios próprios.

A promessa é clara desde o início: não se trata de um único cenário a ser dominado, mas de uma sucessão de fragmentos, como se estivéssemos a folhear um livro de contos interligados. O ritmo é rápido, quase impaciente, como se o jogo tivesse pressa em mostrar tudo o que inventou antes que o jogador perca o interesse. Essa escolha dá-lhe personalidade, afastando-o dos longos e às vezes exaustivos loops típicos de outros jogos de sobrevivência, mas também o impede de construir mundos que se sintam plenamente habitados.

A estrutura episódica pode ser fascinante à primeira vista. Num momento estamos numa floresta densa de inspiração oriental, com templos e criaturas que parecem saídas de lendas, e logo a seguir somos lançados para um cenário futurista, onde a tecnologia domina e o ambiente parece hostil ao próprio ato de respirar. Depois mergulhamos em territórios subaquáticos, onde a progressão obriga a pensar em termos diferentes, quase como se fosse outro jogo dentro do mesmo. Essa constante mudança mantém a curiosidade acesa, mas também deixa um sabor de que algo está incompleto : nenhum destes mundos se aprofunda o suficiente para se tornar memorável. São mais cartões-postais de ideias do que verdadeiras regiões vivas. Talvez seja uma escolha consciente, já que a intenção parece ser oferecer variedade rápida em vez de densidade, mas é inevitável sentir que cada universo poderia ter dado muito mais de si.

Entre as mecânicas introduzidas, destaca-se o sistema de oxigenação. Em alguns biomas, o ar é rarefeito e a sobrevivência depende de encontrar flores capazes de fornecer oxigénio. É uma ideia engenhosa, porque adiciona uma camada extra de planeamento à exploração: não basta procurar comida ou materiais, é preciso também estar atento ao simples ato de respirar. Essa tensão renova a fórmula tradicional da sobrevivência, mas a sua execução não é perfeita. Falta clareza na explicação, e muitos jogadores podem sentir-se perdidos nas primeiras tentativas, sem perceber exatamente como gerir esse recurso vital. Mesmo assim, é uma daquelas ideias que mostram que o jogo não quer apenas repetir fórmulas, mas experimentar e testar caminhos próprios.

Grand Emprise 2: Portals Apart - GAMEOLAY

O crafting, elemento quase obrigatório no género, está presente, mas nunca se torna um pilar sólido. Construir ferramentas e pequenas estruturas ajuda a avançar, mas não chega a criar um sentimento de pertença. Em jogos como V-Rising ou Valheim, erguer uma base é quase tão importante como explorar, contudo em Grand Emprise 2: Portals Apart, essa função é transitória, mais um degrau do que um destino. As construções não têm o peso de “lar”, de ser um espaço seguro, sendo mais como que um ponto de passagem, algo que se abandona rapidamente ao saltar para o próximo portal. Há jogadores que vão apreciar essa leveza — menos tempo perdido em micro management — enquanto que muitos outros jogadores vão sentir que falta substância a esta camada da experiência.

Se a exploração e o crafting oscilam entre a originalidade e a simplicidade, o combate revela-se o elo mais fraco. A luta contra inimigos comuns é pouco variada e rapidamente se torna repetitiva, sem grande espaço para estratégia ou intensidade. Os encontros com criaturas maiores, que poderiam ser momentos de clímax, acabam por soar anticlimáticos, mecânicos, sem a grandiosidade que se esperaria. O resultado é que muitas vezes se joga mais pelo prazer de descobrir o próximo cenário do que pela emoção de enfrentar os perigos que nele habitam. É aqui que se nota mais claramente a limitação de recursos de uma produção independente: a imaginação existe, mas a execução fica aquém do desejado.

Grand Emprise 2: Portals Apart - gameplay II

No entanto, há uma qualidade atmosférica que consegue compensar algumas falhas. Cada mundo tem a sua identidade visual e sonora, ainda que tecnicamente modesta. As texturas são simples, as animações por vezes rudimentares, e os menus têm um ar quase experimental, mas a combinação de cor, música e design cria ambientes capazes de despertar curiosidade genuína. A banda sonora, subtil e ambiental, dá profundidade a cada cenário e ajuda a construir a imersão. É fácil esquecer os defeitos técnicos quando se sente a estranheza de um mundo subaquático ou a melancolia silenciosa de um templo abandonado. Há uma alma presente nestes fragmentos, e isso é algo que não se compra apenas com gráficos de última geração.

A ambição de Grand Emprise 2: Portals Apart é evidente, mas também a sua natureza inacabada. É um jogo que nos faz pensar no que poderia ser se tivesse mais tempo, mais meios ou uma equipa maior por trás. O preço acessível ajuda a relativizar algumas críticas, pois não se trata de uma superprodução vendida como tal, mas de uma curiosidade indie que pede compreensão ao jogador.

Quem entrar com a expectativa de encontrar uma epopeia longa e polida, provavelmente sairá desiludido. Contudo, quem aceitar que este é um laboratório de ideias, uma coleção de pequenos mundos ligados por portais, poderá encontrar momentos de verdadeiro encanto. O seu maior trunfo é a coragem criativa de arriscar, mesmo que nem tudo resulte.

Conclusão

Pros

  • Estrutura episódica que mantém o ritmo rápido e evita monotonia
  • Ideias originais, como o sistema de oxigenação
  • Variedade de cenários, cada um com identidade própria
  • Banda sonora ambiental que reforça a imersão
  • Preço acessível e boa relação custo/experiência

Contras

  • Sensação geral de inacabado, como se faltasse tempo ou polimento.
  • Aspeto técnico limitado, com gráficos e menus rudimentares
  • Crafting pouco relevante, sem sensação de progresso duradouro
  • Combate repetitivo e pouco impactante, incluindo Boss Fights

Grand Emprise 2: Portals Apart é uma experiência paradoxal. É simultaneamente ousado e frágil, criativo e inacabado, estimulante e frustrante. Vive da promessa de novidade, da diversidade dos seus mundos e do ritmo constante que nunca deixa o jogador parado por muito tempo. Mas também sofre pela falta de profundidade, pela fragilidade do combate e pelo aspeto visual bastante datado. É um jogo que existe numa terra de ninguém entre o sonho e a realidade, entre aquilo que quer ser e aquilo que consegue ser. Talvez não seja a epopeia de sobrevivência que alguns esperariam, mas é, sem dúvida, uma viagem curiosa, feita de fragmentos de imaginação, que merece ser explorada por quem valoriza a criatividade mais do que o polimento técnico.