Apesar de já se terem passado mais de oitenta anos desde o final da Segunda Guerra Mundial, o impacto que esta teve é incalculável e dificilmente esquecido, mais não seja pela quantidade infindável de media que continua a ser produzida com o objetivo de retratar os horrores vividos na altura. Grief like a stray dog é apenas mais uma de muitas peças que se encaixam nessa categoria.

Entregue em formato de aventura gráfica, Grief like a stray dog conta-nos a história de Nadia, uma jovem rapariga de uma pequena vila da, na altura, União Soviética, que tem como missão entregar cartas no lugar da sua mãe, que se encontra doente. Logo de início percebemos as suas dificuldades, considerando que esta se vê forçada a trabalhar para sustentar a família, pois não pode contar com a ajuda do pai que está destacado na infame guerra.
Ao longo de vários dias, vamos acompanhando Nadia a entregar cartas de outros combatentes às diversas famílias da vila que anseiam por notícias dos seus entes queridos. No entanto, como seria de esperar, nem todas as cartas trazem boas notícias – muitas delas são notas de falecimento. O luto acaba por ser o tema central deste jogo, até pelo próprio facto de durante toda a sua curta duração, ficar no ar a possibilidade de uma dessas cartas trazer a notícia que Nadia e a sua família menos querem ouvir.

A história apesar de relativamente simples, tem um certo peso emocional, que poderia ser ainda maior caso os diálogos fossem melhores. Não sei necessariamente se alguma da nuance se terá perdido na tradução para inglês, mas muitas das conversas têm uma cadência pouco natural, ou até mesmo pouco sentida em alguns casos, considerando o teor das mesmas. Felizmente a entrega gráfica do jogo acaba por colmatar em boa parte esse problema. A escolha deliberada de uma paleta limitada de cores frias provoca um sentimento constante de desconforto e tristeza, visivelmente pontuada por leves inspirações na vanguarda russa. O desenho cru e propositadamente vago também contribui para tal, assim como a banda sonora inquietante que o acompanha. A componente audiovisual artística acaba mesmo por ser o ponto mais forte de Grief like a stray dog, pois em termos de jogabilidade não há aqui muito que fazer. É um facto que aventuras gráficas são experiências naturalmente mais passivas, mas aqui esse conceito é levado quase ao extremo. Escolher a ordem das casas onde entregar as cartas e iniciar conversas com os vários habitantes da vila é maioritariamente o que fazemos neste jogo, o que é uma pena, pois com um maior nível de interatividade este teria certamente o potencial para se tornar algo verdadeiramente inesquecível. Assim, fica-se apenas por uma experiência mais apelativa ao olho que à mente.

Grief like a stray dog procura através de um estilo visual muito único retratar uma das inúmeras facetas da Segunda Guerra Mundial, mas os seus diálogos desinspirados e a pouca interatividade fazem com que alguma da força da sua mensagem se perca.

Interessado em design e tecnologia desde sempre, encontrei nos videojogos a combinação perfeita entre ambos. Desde os clássicos mais antigos aos lançamentos mais recentes, gosto de explorar todas as diferentes gerações, com um fascínio particular pelos sistemas dos anos 90.
Falo sobre todos estes assuntos e mais alguns no podcast semanal The Games Tome.
