Lisboa Games Week 2025: uma 10ª edição que pedia mais gaming

Foi entre 20 e 23 de Novembro que a FIL recebeu a 10ª edição da Lisboa Games Week, o evento de referência dedicado a videojogos em Portugal. Mas nem só de videojogos vive a Lisboa Games Week, estendendo-se a gaming no geral, eSports e Cultura Pop.

Este ano visitei o evento. Para quem não teve na edição anterior, não posso tecer comparações diretas, mas tinha uma ideia do que esperar e tinha as expectativas bem definidas, tendo em conta tudo o que li e acompanhei da edição 2024.

E a primeira impressão ao entrar no recinto foi bastante positiva. Logo à entrada tínhamos o espaço da Nintendo a receber os visitantes. E a presença da Nintendo, este ano, teve uma boa dimensão, com um espaço alargado, destacando a Switch 2 e oferecendo muitos postos de experimentação dos títulos disponíveis para a consola. Um destaque para a possibilidade de jogar Metroid Prime 4: Beyond, antes ainda do seu lançamento, que ocorrerá apenas em dezembro. Só o stand da Nintendo em si oferecia muito aos visitantes, em termos de experimentação de jogos e da consola Switch 2 em si. Títulos como Mario Kart World, Super Mario Party Jamboree, Donkey Kong Bananza e Hollow Knight: Silksong estavam disponíveis para os visitantes, entre outros. Pus a mão na massa também no Hogwarts Legacy e Cyberpunk 2077, que tinha curiosidade de ver correr na nova consola.

E se esta presença forte da Nintendo foi o primeiro ponto positivo do evento, também me deixou a pensar no primeiro ponto negativo: as ausências. Que falta faz a uma Lisboa Games Week uma presença igualmente forte da Sony e da Microsoft. A incapacidade do evento em atrair estas grandes marcas a investir na sua presença, continua a ser um calcanhar de aquiles da Lisboa Games Week. Tivessem os 3 gigantes dos videojogos uma presença tão forte quanto a da Nintendo este ano e o evento certamente disparava em interesse e qualidade. É um vazio que foi demasiado evidente mal saí do espaço Nintendo para o resto da exposição, muito mais cinzenta e carente do mediatismo cativante que as mais importantes marcas de videojogos oferecem.

Saindo do impacto inicial do espaço da Nintendo e ganhando uma primeira panorâmica do evento, senti que faltava alguma caracterização visual do espaço. Os stands em si fizeram um bom trabalho na decoração dos seus espaços, mas a organização apenas colocou uns pendurantes sobre cada zona, identificando-a. Alguma decoração transversal da Lisboa Games Week, que ajudasse a criar uma imagem coesa do evento e a preencher o amplo espaço do pavilhão da FIL, muito ajudaria a aquecer e dar cor ao ambiente. Esta questão da decoração do espaço é mínima, mas é sintomática do que senti ser a maior falha da Lisboa Games Week, um descartar de responsibilidades por parte da organização. Cada stand é responsável pela decoração do seu espaço e dinamização do mesmo com atividades. Tudo certo, é assim que deve funcionar. Mas depois faltou a decoração e, acima de tudo, dinamização com atividades dos espaços comuns (parece que estamos a falar de um condomínio) por parte da equipa da FIL.

Esta falta de atividades promovidas pela organização, delegando todas as iniciativas aos stands, resultou numa oferta desorganizada, desequilibrada e desinteressante. Faltaram atividades coordenadas que trouxessem coesão, animação e identidade ao evento. O resultado é uma experiência (recupero uma palavra que já usei acima) cinzenta. Quando saímos de um stand e percorremos os corredores do espaço, falta vida e cor na Lisboa Games Week. Acaba por ser uma deambulação triste e desinteressante de ponto A para ponto B. Consigo pensar em múltiplas formas (sem grandes custos) como a organização da FIL poderia ter dinamizado o evento, constantemente criando entusiasmo nos visitantes, mesmo quando não envolvidos em alguma atividade num dos espaços do evento.

O que ainda foi salvando a experiência e dando alguma cor à Lisboa Games Week foram os cosplayers, que circulam nos corredores, sempre disponíveis (e entusiasmados) para tirar uma fotografia. Atrevo-me a dizer que aparentavam ser as únicas pessoas a realmente circularem divertidas e entusiasmadas de um lado para o outro. Falando de cosplayers, destacar que estiveram presentes dois convidados especiais, os cosplayers internacionais Yuji Koi e Neko Yona, que estavam disponíveis para conviver com os visitantes e vender fotografias autografadas aos fans.

Depois desta divagação e regressando ao meu percurso após abandonar o stand da Nintendo, passei pelo espaço Palco Talks, reservado a palestras de oradores e algumas conversas mais casuais. São conteúdos importantes e o palco esteve sempre bem dinamizado. Deixo o reparo que merecia uma zona acusticamente e visualmente mais reservada, pois o pavilhão conseguia ser bastante ruidoso no geral, prejudicando a plateia, a qual também podia ter mais lugares.

Mesmo ao lado, a zona dedicada aos indies. Esta é uma área que a Lisboa Games Week precisa bastante de valorizar com uma apresentação com maior dignidade. A cada estúdio indie participante foi oferecido uma pequena bancada com um painel para decorar por detrás. Pareciam como que aqueles postos nos centros comerciais, no meio do corredor, de onde alguém sai para nos tentar vender um cartão de crédito. A oferta indie é bastante interessante e merece um espaço mais digno e apropriado em edições futuras.

Praticamente colado, o espaço do Museu LOAD ZX Spectrum, com muitas preciosidades do retrogaming em exposição, paragem obrigatória para quem, como eu, começou a jogar no milénio passado. Foi bom rever o primeiro computador onde carreguei jogos através de cassetes. O espaço tinha uma boa área e apresentação e pareceu-me sempre bem dinamizado.

Encontrámos, de seguida, um espaço dedicado a universidades, que procuravam cativar os jovens para os seus cursos na área de desenvolvimento de videojogos. Uma presença relevante, mas ignorada pela esmagadora maioria dos visitantes. Logo atrás, muito mais cativante para o público em geral e roubando a atenção das universidades estava a zona de Sim Racing da Alpha Romeo, com um simulador de última geração e onde a marca exibia o modelo 100% elétrico Alfa Romeo Junior Elettrica Veloce 280.

Muito perto a área dedicada ao Cosplay, com alguns acessórios para venda e onde podiam fazer sessões fotográficas profissionais, para guardar para a prosperidade. O espaço pareceu-me curto para a enorme afluência. Por regra, havia sempre um grande amontoado de cosplayers na zona, tornando a circulação mais complicada e intimidando uma exploração do que o espaço tinha para oferecer. Num evento que tanto priveligia o Cosplay, oferecendo inclusivamente entradas a quem for caraterizado e acreditado como tal, mereciam se calhar uma área mais ampla e completa. Rodeando esta área, um corredor de pequenos stands de venda de artigos temáticos, muitos deles de qualidade questionável, mas disponíveis para quem os quisesse adquirir.

Ganhando o prémio de presença mais nonsense num evento de gaming, tínhamos o exército e marinha portuguesas, trabalhando certamente para tentar atrair jovens para a carreira militar, mas não deixando de nos fazer questionar bem cá dentro “o que estão aqui a fazer?”. Tinha uma área de tamanho considerável, mas ganha o mérito de a dinamizar de forma diferente, especialmente a marinha que colocava os visitantes, por breves momentos, a experimentar alguns exercícios físicos típicos de uma recruta.

O segundo prémio de presença nada a ver vai para a Liga Portugal, que tinha um espaço dedicado enorme. Os visitantes podiam participar em várias experiências interativas como o Subsoccer, Soccercage, Multiball e realidade virtual, além de ver de perto os troféus das competições profissionais. Era um espaço bastante concorrido e oferecia atividades genuinamente divertidas. O problema é que, por esta altura, eu já me começava a questionar: “e jogos, onde estão?” – desde o stand da Nintendo que essa parte tinha sido nula ou perto disso.

Havia várias áreas com postos de videojogos disponíveis para os visitantes porem a mão na massa, ou melhor, no controlador, rato ou teclado, sendo as maiores as dos parceiros Legion by Lenovo e Radio Popular Gaming, bem como os stands de várias equipas de eSports presentes no evento. Contudo, como seria de esperar num evento que atrai tantos visitantes, encontrar um posto livre para jogar era um desafio, quanto mais encontrar um posto livre com algum jogo que realmente quiséssemos jogar. Aqui, na verdade, nada se pode apontar à organização, que comunicou haverem mais de 200 postos espalhados por todo o recinto. E sentia-se de facto uma grande oferta. A procura é que também era muita. O que podemos apontar à organização já aqui foi referido: a incapacidade de dinamizar os espaços comuns do evento. Rapidamente, na impossibilidade de de usufruir de um posto de jogo e sem mais nada para ver, comecei a desligar da Lisboa Games Week e a ponderar abandonar o recinto.

Podia sempre sentar-me na plateia dos eSports, onde se desenrolava competição de Omen Retake S11, o que fiz, mas isso apenas me segurou por alguns breves momentos. A presença dos eSports na Lisboa Games Week era substancial, entre o palco e os stands das equipas. Ficou a vontade de poder ter interagido mais com os Pro. Por dentro, tinha aquela vontade de poder experimentar jogar FC26 contra um Pro, indo posteriormente lamber as minhas feridas para um canto, mas satisfeito por ter tido a oportunidade de competir contra o mais alto nível e sentir essa diferença. Contudo, nunca senti que alguma experiência desse género fosse possível, seja em FC26 ou outro qualquer jogo, estando as equipas apenas a vender merchandising, disponibilizar postos de jogo e organizar alguns torneios.

Felizmente, tínhamos um oásis na Lisboa Games Week, uma área verdadeiramente interessante: a zona das Arcades, muito bem preenchida com muitas máquinas retro disponíveis para experimentar (sem ter de meter moeda), que me fizeram viajar no tempo e me detiveram durante um largo período de tempo.

Falta ainda referir o espaço dedicado ao jogo analógico, com um bom número de jogos de tabuleiro disponíveis para experimentação e pessoas prontas a nos ensinar as regras. O espaço tinha uma boa área, estava bem decorado pelas marcas presentes, mas podia respirar um pouco mais, com muito pouco espaço de circulação entre mesas. A adesão aos jogos de tabuleiro foi bastante positiva e era, também, um dos bons espaços do evento.

No geral, a Lisboa Games Week continua a ser apenas uma sombra do potencial que o evento tem. Existem boas bases e ideias, a estrutura está lá, mas depois falta uma concretização eficaz. Para um evento de gaming, parece que falta… gaming. Há momentos em circular nos corredores da Lisboa Games Week parece provocar quase a mesma sensação que quando visitamos a FIL Artesanato. Falta aquele dinamismo e excitação que caracterização os jogos. Falta, se calhar, a organização da FIL tratar este evento de forma distinta dos restantes e perceber que precisa de lhe dar uma roupagem própria e coesa, de criar animação para os espaços comuns do evento, não se limitando a delegar nos stands a responsibilidade de trazer vida ao evento. Talvez assim, consiga também cativar as grandes marcas que tanto fazem falta ao evento. A Nintendo teve uma excelente presença este ano, faltam as outras. Se este é o evento de gaming de referência em Portugal, não estamos a ser uma boa referência neste campo…