Aphelion chega como o mais recente projeto da DON’T NOD, estúdio francês conhecido por colocar a narrativa no centro das suas experiências e que aqui volta a apostar numa aventura emocional, visualmente deslumbrante e com uma atmosfera que prende desde o primeiro momento. A história leva-nos até Persephone, um planeta distante que pode representar a última esperança da humanidade, depois de a Terra se tornar praticamente inabitável. A missão Hope‑01, enviada pela Agência Espacial Europeia, acaba por sofrer um acidente logo à chegada, separando os dois protagonistas, Ariane e Thomas, e obrigando-os a sobreviver num ambiente tão belo quanto hostil.
A alternância entre as duas personagens é um dos elementos mais interessantes do jogo. Ariane vive uma jornada mais física, marcada por escalada, exploração e movimento vertical, enquanto Thomas, ferido e limitado, avança de forma mais lenta e introspectiva, focado na sobrevivência e na descoberta de estruturas misteriosas que escondem segredos sobre o planeta. Esta dualidade funciona bem, não só por variar o ritmo, mas por reforçar a ligação emocional entre os dois protagonistas e por dar ao jogador duas perspetivas complementares da mesma história. Apesar de não ser um jogo difícil, existe alguma técnica envolvida, especialmente na forma como cada personagem aborda o ambiente e os desafios que encontra. E embora não seja um mundo aberto, há espaço para exploração, pequenos desvios e descobertas opcionais que enriquecem a experiência e ajudam a construir a identidade de Persephone.
No entanto, é também na jogabilidade que Aphelion tropeça. A escalada de Ariane, que deveria ser um dos pilares da experiência, é demasiado simples e rapidamente se torna repetitiva. Os movimentos são mecânicos, previsíveis e sem peso, quase como se estivessem presos a uma coreografia rígida que nunca evolui. O mesmo acontece com as secções furtivas, especialmente quando surge a criatura que funciona como uma espécie de “Némesis” do jogo. A ideia é boa, mas a execução é básica: esconder, esperar, avançar. Falta tensão, falta imprevisibilidade, falta profundidade. São momentos que não estragam a experiência, mas que a impedem de atingir o nível de impacto que a narrativa claramente procura.

E é precisamente na narrativa que Aphelion brilha. A relação entre Ariane e Thomas, a forma como o jogo explora isolamento, esperança e sacrifício, e a maneira como Persephone é apresentada como um lugar simultaneamente belo e ameaçador criam uma experiência emocionalmente envolvente. A direção artística é soberba, com cenários que parecem pinturas vivas, iluminação cuidada e uma atmosfera que mistura solidão, mistério e grandiosidade. É evidente que a equipa colocou muito amor neste projeto. Não é um jogo de grande orçamento, mas é um jogo com identidade, com ambição estética e com uma sensibilidade narrativa que o distingue dentro do panorama AA.
No fundo, Aphelion é uma experiência que vive da sua história e da sua apresentação. A jogabilidade cumpre, mas raramente surpreende, e algumas mecânicas são demasiado básicas para acompanhar a força emocional do que está a ser contado. Ainda assim, o conjunto funciona, e quem valoriza narrativas fortes encontrará aqui uma aventura que vale a pena viver.

Uma viagem emocionalmente poderosa e visualmente marcante, limitada por mecânicas simples, mas sustentada por uma narrativa que faz o jogo brilhar onde realmente importa.

Começou a jogar num spectrum 48k e desde então tem uma paixão por videojogos, não imagina a sua vida sem jogar. Fã de RPGs, First Person Shooters e jogos Third Person.
