Hell Is Us chega à Nintendo Switch 2 com uma proposta pouco habitual, uma aventura de ação que nos deixa descobrir o mundo por conta própria, sem mapas, marcadores de missão ou indicações constantes sobre o que fazer a seguir. Depois de mais de um ano no mercado, o jogo da Rogue Factor continua a distinguir-se pela forma como nos desafia a observar, ouvir e tirar as nossas próprias conclusões. Esta versão tem algumas limitações visuais, mas a possibilidade de explorar Hadea em formato portátil torna a experiência ainda mais apelativa. E, apesar de algumas arestas por limar, tem sido um prazer regressar a este mundo.
Na pele de Rémi, regressamos a um país devastado pela guerra civil, onde a violência humana convive com uma calamidade sobrenatural. Mas o que mais distingue Hell Is Us não são as criaturas que encontramos nem a brutalidade dos confrontos. É a forma como nos obriga a prestar atenção. Não há mapa, bússola ou marcadores a indicar o próximo passo. Temos de conversar, interpretar pistas e aprender a ler o mundo. Às vezes, avançamos com a certeza de ter percebido tudo. Outras, damos por nós a regressar ao mesmo sítio, convencidos de que nos escapou qualquer coisa. E é precisamente nessa incerteza que o jogo encontra parte do seu encanto.
A Nintendo Switch 2 acaba por ser uma companhia interessante para esta aventura. Hell Is Us não vive apenas da acção, nem exige que estejamos sempre com os dedos em movimento. Há momentos em que o mais importante é parar, pensar numa conversa ou voltar a observar um cenário. Poder pegar na consola durante alguns minutos, explorar um pouco e regressar mais tarde encaixa surpreendentemente bem nesta estrutura. A portabilidade não transforma o jogo, mas dá-lhe outra intimidade. Hadea parece um lugar que visitamos ao nosso ritmo, sem a obrigação de cumprir uma lista interminável de tarefas.
Visualmente, é inevitável notar alguns compromissos. Há texturas que ficam aquém do desejável, muitas vezes isoladas no meio de outras mais detalhadas, e algumas situações de clipping que quebram momentaneamente a ilusão, sobretudo quando nos aproximamos dos cenários ou observamos certos elementos com mais atenção. Ainda assim, a direcção artística mantém a sua força e Hadea continua a ser um mundo que apetece explorar. A atmosfera, a arquitectura e o contraste entre a devastação provocada pela guerra e a presença das criaturas sobrenaturais não desaparecem por causa de algumas questões técnicas. A conversão podia carecer de mais alguma atenção (que provavelmente terá em futuros updates), mas não retira ao jogo aquilo que me tem feito querer continuar a jogar.

Onde sinto mais dificuldades é no combate, especialmente quando vários inimigos entram em cena ao mesmo tempo. Os confrontos podem tornar-se confusos, com demasiada coisa a acontecer e pouca margem para perceber claramente o que se passa à nossa volta. Como o sistema de combate já exige alguma paciência e atenção aos movimentos dos adversários, estes encontros nem sempre funcionam tão bem como deveriam. É uma fragilidade mais evidente do que as falhas visuais, porque interfere directamente com o ritmo dos combates. Ainda assim, não tem sido suficiente para me afastar da aventura, e os momentos de exploração continuam a ser o grande motivo para regressar.
Apesar destas imperfeições, há algo de especial em encontrar um jogo como Hell Is Us numa consola portátil. Num mercado tantas vezes obcecado com mapas cheios de ícones, recompensas constantes e mundos que parecem ter medo de nos deixar perdidos, a aventura da Rogue Factor continua a confiar na nossa curiosidade. Não nos trata como turistas a seguir um itinerário. Deixa-nos entrar, observar e cometer erros até começarmos a perceber o lugar onde estamos. Essa confiança no jogador continua a ser uma das suas maiores qualidades e uma das razões pelas quais tenho gostado tanto desta experiência.

Quem procura a melhor apresentação visual encontrará opções mais fortes nos outros sistemas. Na Nintendo Switch 2, é preciso aceitar algumas concessões, sobretudo nas texturas e nos confrontos mais caóticos. Mas não confundiria essas limitações com uma má conversão: pelo menos na minha experiência, continuam a ser secundárias perante a vontade de explorar Hadea e descobrir o que se esconde para lá do próximo caminho. Hell Is Us chega à consola com algumas questões, mas preserva aquilo que o torna especial. E, no meu caso, isso tem sido mais do que suficiente para querer continuar a jogar.

Começou a jogar num spectrum 48k e desde então tem uma paixão por videojogos, não imagina a sua vida sem jogar. Fã de RPGs, First Person Shooters e jogos Third Person.
