Earthion – Um Exemplo de Mestria | Análise

Vinte e nove anos depois a Ancient, uma software house japonesa fundada por Yuzo Koshiro em 1990, voltou a trabalhar na Mega Drive. Earthion é o primeiro jogo que lançam desde The Story of Thor. Quando apareceram os primeiros vídeos, os primeiros artigos e informação sobre este jogo, parecia bom demais. Estava algo cético em relação à capacidade do estúdio de realmente lançar um produto de qualidade, e com a sensação de que o nome Yuzo Koshiro era o que realmente arrastava o nome deste jogo pela internet. Yuzo Koshiro é muito conhecido pelas suas bandas sonoras espectaculares presentes em Streets of Rage, Revenge of Shinobi, YS I & II, Shenmue etc. É um nome que, para além de carregar um legado de qualidade, carrega uma nostalgia enorme para certas gerações e a presença de uma pessoa incontornável para aficionados de video jogos. Embora este jogo tenha sido anunciado primeiro como um título de Mega Drive, é importante antes de prosseguirmos salvaguardar o facto de que essa versão ainda não saiu. Aqui em análise está a versão de PC jogada através da plataforma Steam, sendo que vai estar disponível também para PS4, PS5, XBOX e Switch em Setembro deste ano, com a versão de Mega Drive a chegar apenas em 2026.

Anseio com bastante entusiasmo a versão de Mega Drive, porque mal posso esperar para ver isto a correr no clássico e arrebatadoramente popular sistema de SEGA. E porquê? Porque este jogo é incrível! Nesta versão é uma experiência espetacular, mas só de pensar que isto vai correr numa Mega Drive, até me arrepia os pelos do peito. É um jogo graficamente lindíssimo, e atenção que aqui comparo directamente com outros grandes shmups da Mega Drive – Arrow Flash, Empire of Steel, Musha, Thunder Force IV entre tantos outros. Pode parecer algo que não é nada de mais na sua versão de steam ao comparar com outras coisas mais recentes, mas é preciso perceber e ter em consideração o hardware onde este jogo vai correr, não é um jogo estilizado para parecer um jogo de 16-bit, é um jogo de 16-bit. Há aqui um puxar ao máximo aquilo que é possível ser feito na velhinha consola, ainda que admitidamente o cartucho em si tenha tecnologia que não era possível em 1990, mas neste momento ainda não sabemos ao certo o que está lá dentro, descobriremos em 2026. Independentemente disso, o trabalho de sprites é qualquer coisa de absurdamente bom, e acompanham animações surpreendentes em cenários lindíssimos e bastante variados. Há várias opções de filtros para esta versão e o filtro de CRT, que é um clássico neste tipo de lançamentos, funciona suficientemente bem para dar a sensação pretendida.

Algo que já entra no domínio da jogabilidade mas ainda associado aos gráficos em si é o excelente trabalho que foi feito para que, apesar de estar a acontecer muita coisa no ecrã, não fique caóticamente confuso. Os disparos dos inimigos são imensos, à semelhança de muitos outros do género, mas aqui é muito evidente e fácil de identificar o que constitui uma ameaça, colocando sempre do lado do jogador e respectivo nível de perícia, a responsabilidade pela sua sobrevivência. Temos do lado do nosso arsenal várias armas disponíveis além daquela que é a base do ataque da nossa nave, estas armas secundárias têm de ser utilizadas com contenção, já que não são ilimitadas e estão dependente de apanharmos uma espécie de joias verdes que vão aparecendo à medida que vamos aniquilando inimigos. Isto leva a que tenha de existir um cuidado para as usar apenas nas alturas certas e também a tirar o dedo do gatilho, que é algo comum de se fazer noutros shooters. Já agora, se gostam de shmups que são metódicos neste aspecto como o Earthion, recomendo vivamente que experimentem Battle Garegga e Radiant Silvergun, funcionam de maneira diferente, mesmo entre eles, e têm um sistema de pontuação e progressão também muito interessante. A nossa arma base não tem este tipo de limitações mas fica mais fraca conforme levamos dano, o que leva a que haja um cuidado mais metódico da nossa parte, já que a falta dele acaba por dificultar largamente a missão. 

Os inimigos são no geral muito interessantes do ponto de vista audiovisual, mas queria dar um shoutout especial aos bosses deste jogo que, contrário à tendência mais recente, não são esponjas de balas super densas, e não é por isso que deixam de ser desafiantes e interessantes de combater. Fora destes encontros o jogo também é ele muito frenético, cheio de movimento e com um parallax scrolling fora de série que dá muita vida a cada nível sem nunca ser intrusivo ao ponto de confundir o jogador. No máximo o que acontece é que queres olhar para o trabalho de mestre que está a acontecer no ecrã e levas com uma bala porque desviaste o olhar durante 2 segundos. Cada nível parece cuidadosamente coreografado para que os inimigos, os obstáculos e os efeitos visuais se complementem com primor, permitindo que se mantenha sempre uma sensação de ritmo intenso. É sem dúvida um novo standard nesta plataforma antiguinha, não há nada de negativo que possa ser dito em relação à apresentação visual.

Este é um daqueles exemplos também raros nos dias que correm, em que é incontornável falar da banda sonora. E não, não é por ser do Yuzo Koshiro, é por ser sublime! Podem ir já ao youtube e escrever “Earthion OST”, a sério, vão, deixem de ler isto, eu percebo perfeitamente. Há algumas músicas, por exemplo “Return to Blue Skies”, “Rush to the Core” ou “Dawn of Earthion” que para mim são das melhores coisas que se fez em chiptune e mais especificamente no icónico chip de som da Mega Drive, o Yamaha YM2612. É delicioso conhecer bem o trabalho de Koshiro na plataforma e agora vir um trabalho novo que desafia a genialidade daquilo que ele próprio criou. Não tenho mais palavras, só ouvindo, mas enquanto jogava acreditem que abanei muito a cabeça e fiquei várias vezes de boca aberta! Mas como se não bastasse, os próprios efeitos sonoros são também eles dignos de louvor, e complementam toda a parte visual com mestria. O destaque maior vai para o som das armas e para as explosões que, principalmente num chip de som tão básico, é magnífico o feedback de acção que passam para o jogador.

Portanto, o que criticar aqui? Desculpem mas nada, este jogo é inacreditavelmente bom uma paragem 100% obrigatória para qualquer fã de jogos deste género, ou de jogos desta época no geral. É um trabalho que parece que foi feito para mim, e tenho a certeza que muitos de vocês por aí fora vão sentir o mesmo. Num tempo em que a indústria dos video jogos se perde demasiadas vezes na complexidade desenfreada dos seus produtos, Earthion lembra-nos que a simplicidade é tão fundamental a um videojogo quanto o silêncio é a uma música.

Earthion

Pros

  • Os teus dedos não vão ter inveja dos teus olhos.

Cons

  • Possivelmente nunca mais vais jogar outro shmup de Mega Drive.