Há jogos que tentam impressionar pela escala. Outros preferem atacar pela atmosfera. LumenTale: Memories of Trey encaixa claramente na segunda categoria. É uma experiência construída em torno da melancolia, da memória e de um mundo que parece estar constantemente a desfazer-se à nossa frente. Em vez de apostar em explosões visuais ou combate frenético, o jogo mergulha numa narrativa mais emocional, quase introspectiva, onde cada cenário parece carregar cicatrizes de algo que já desapareceu. O resultado é uma aventura que consegue criar identidade própria, mesmo sem reinventar totalmente o género.
A história acompanha Trey, uma personagem marcada por perdas e fragmentos de memórias que regressam de forma desordenada ao longo da jornada. O jogo evita entregar respostas imediatas, pois prefere construir mistério lentamente, usando diálogos curtos, ambientes silenciosos e pequenos detalhes espalhados pelo mundo. Há uma sensação constante de vazio emocional, como se Trey estivesse preso entre aquilo que aconteceu e aquilo que nunca conseguiu ultrapassar. Essa abordagem dá personalidade à narrativa. Em vez de grandes reviravoltas cinematográficas, o foco está na carga emocional dos momentos mais pequenos.
O mundo do jogo criado pelo Beehive Studios ajuda bastante nessa construção. As áreas parecem abandonadas mas ainda carregadas de vida passada. Ruínas iluminadas por tons suaves, florestas cobertas por nevoeiro e cidades semidestruídas criam um ambiente muito forte visualmente. Existe uma clara aposta numa direção artística mais estilizada, que mistura fantasia com decadência. Não tenta atingir realismo puro. O objetivo é transmitir emoção através da cor, da iluminação e da composição visual. E consegue. Há zonas que ficam imediatamente na memória apenas pela atmosfera.
O gameplay segue uma fórmula de exploração narrativa misturada com combate leve e resolução de puzzles ambientais. A exploração acaba por ser o verdadeiro centro da experiência. Nós somos incentivados a investigarmos cada espaço, procurar fragmentos de memória e interpretar pistas visuais para compreender melhor o passado de Trey. Muitos dos momentos mais importantes do jogo não acontecem em cutscenes, mas sim durante a simples observação do ambiente. Isso cria um ritmo mais lento, contemplativo, que pode dividir opiniões. Quem procura ação constante provavelmente vai sentir falta de intensidade. Mas para quem aprecia jogos focados em imersão e atmosfera, essa lentidão acaba por funcionar a favor da experiência.

O combate existe, mas claramente não é a prioridade principal. As mecânicas para usar os Animon (monstros) são simples e funcionais, focadas mais em complementar a narrativa do que em criar desafio extremo. Os Animon funcionam como criaturas espirituais ligadas às memórias e emoções do mundo. Não são apenas “monstros de combate” no estilo clássico de colecionismo. O jogo tenta dar-lhes peso narrativo e ligação emocional ao universo de Trey. Cada criatura parece nascer da decadência daquele mundo, misturando elementos fantásticos com um design mais melancólico. Existem Animon que parecem quase entidades corrompidas pela tristeza, enquanto outros transmitem uma sensação mais protetora ou misteriosa.
No combate, os Animon são o verdadeiro núcleo estratégico. Trey não luta sozinho durante grande parte da aventura, e a escolha das criaturas influencia diretamente o ritmo dos confrontos. Cada Animon possui habilidades específicas, afinidades elementais e funções diferentes dentro da equipa. Alguns focam-se em suporte e cura, enquanto outros apostam em dano bruto ou controlo do campo de batalha. O sistema incentiva assim experimentação e composição da equipa, criando mais profundidade no que diz respeito ao gameplay de combate.
O mais interessante é que o jogo parece usar os Animon não apenas como ferramenta de combate, mas também como extensão emocional da narrativa. Certas criaturas estão associadas a memórias específicas, locais antigos ou eventos traumáticos do mundo. Isso cria uma ligação mais forte entre exploração, lore e gameplay. Em vez de parecer um sistema separado da história, os Animon fazem parte da identidade daquele universo.

Os puzzles seguem uma filosofia semelhante. São integrados organicamente nos cenários e normalmente ligados à manipulação de luz, reconstrução de memórias ou ativação de estruturas antigas. Funcionam melhor quando reforçam o ambiente e a narrativa. O jogo raramente tenta criar desafios extremamente difíceis. O objetivo parece ser manter o fluxo emocional da aventura sem quebrar demasiado o ritmo. Isso ajuda na imersão, mas também significa que alguns puzzles acabam resolvidos demasiado depressa.
Um dos aspetos mais fortes de LumenTale: Memories of Trey é precisamente a forma como consegue unir narrativa e apresentação visual. Há jogos visualmente bonitos mas emocionalmente vazios. Aqui sente-se intenção artística em praticamente tudo, especialmente nos designs dos Animons, que acabam por ser um dos maiores destaques do jogo. Existe uma mistura interessante entre fantasia luminosa e criaturas quase espectrais. Alguns lembram espíritos antigos, enquanto outros têm um aspeto mais agressivo e distorcido. Isso ajuda bastante a reforçar a identidade artística do jogo, porque os Animon não parecem simplesmente versões genéricas de criaturas típicas de RPG japonês.
A banda sonora minimalista ajuda imenso. Piano suave, sintetizadores ambientais e momentos de quase silêncio criam uma identidade sonora muito forte. Em certas áreas, o áudio faz tanto trabalho emocional como os próprios diálogos. Existe uma constante sensação de nostalgia e tristeza silenciosa que acompanha toda a experiência.

A construção do ritmo é talvez o elemento mais arriscado do jogo. Existem secções muito lentas, onde pouco acontece além de caminhar, ouvir sons ambientais e observar detalhes. Alguns jogadores vão considerar isso aborrecido. Outros vão absorver completamente a atmosfera. O jogo parece desenhado para ser sentido mais do que “vencido”. E isso acaba por definir toda a experiência. Não é um jogo preocupado em agradar a toda a gente. Tem uma visão bastante específica do que quer transmitir.
Tecnicamente, LumenTale: Memories of Trey apresenta algumas inconsistências. Certas animações não têm o mesmo nível de qualidade da direção artística, e ocasionalmente existem pequenos problemas de fluidez ou transições menos polidas. Nada destrói a experiência, mas nota-se que a ambição artística por vezes ultrapassa os recursos técnicos disponíveis. Felizmente, a identidade visual consegue compensar grande parte dessas limitações.

LumenTale: Memories of Trey destaca-se mais pela emoção e atmosfera do que pelas mecânicas puras. É uma viagem melancólica, lenta e muito focada em memória, perda e reconstrução emocional. O combate podia ser mais profundo, o ritmo nem sempre mantém o mesmo impacto e algumas secções arrastam-se mais do que deviam. Mas quando o jogo encontra equilíbrio entre narrativa, música e exploração, consegue criar momentos genuinamente memoráveis. Não tenta ser o maior RPG do mercado nem o jogo de ação mais intenso. Prefere ser uma experiência emocional, quase contemplativa, sendo precisamente aí que encontra a sua força.

Jogo de tudo um pouco, desde a minha primeira consola de jogos, a Master System II. Desde aí muita coisa mudou, mas a paixão e dedicação aos videojogos permaneceu intacta.
Apesar de jogar de tudo um pouco, desde FPS a RPG´s, sou grande adepto de Fighting games, como o Mortal Kombat e ainda de jogos de desporto automóvel, como o Forza Motorsport. Também não dispenso boas séries e bons filmes. Sou grande fã de animes desde muito cedo, onde tenho DragonBall e Naruto como séries de eleição.
