Space Adventure Cobra é uma daquelas séries de culto que muito possivelmente boa parte das pessoas que consomem regularmente mangas ou animes nos dias de hoje desconhecem por inteiro. Não é surpreendente, considerando que esta surgiu inicialmente em 1978 e teve adaptação a anime em 1982, isto ainda numa era pré-Dragon Ball ou Akira, para se ter uma ideia. Como não poderia deixar de ser, ao longo dos anos Cobra teve a sua dose de adaptações para videojogos, ainda que consideravelmente pequena, com o título mais relevante sendo uma aventura gráfica para a PC Engine CD lançada exclusivamente no Japão em 1991, e posteriormente portada para a Mega-CD, onde chegou ao mundo ocidental quatro anos depois, em 1995.
Em pleno 2025 surge então este novo jogo, apropriadamente titulado de Space Adventure Cobra – The Awakening, que recria os 12 primeiros episódios da série de anime em formato de platformer de ação.
Vendo apenas imagens do jogo, fica claro que tem uma enorme dose de inspiração na série Metroid, principalmente no seu jogo mais recente, Metroid Dread. É verdade que o Arm Cannon de Samus Aran também ele tem bastantes semelhanças com a Psychogun de Cobra, portanto podemos ter aqui um caso de duas séries que serviram de referência uma a outra em diferentes instâncias. Mas ao jogar, ficam ainda mais claras as semelhanças com o jogo da Nintendo, desde a agilidade do movimento, a mira da arma, ou até a quantidade enorme de combinações de botões que nos deixam a desejar ter mais dedos, ou uma melhor memória muscular.
Ao contrário de Metroid no entanto, a progressão de Space Adventure Cobra – The Awakening não acontece num gigante mapa interligado, mas sim em múltiplos níveis com princípio, meio e fim. Ainda assim, muitos deles têm caminhos e desafios escondidos que nos permitem colecionar upgrades. Um dos items que é possível evoluir com esses upgrades é a Psychogun, que é sem sombra de dúvidas a estrela do jogo. Esta arma permite-nos desacelerar temporariamente o tempo e controlar a direção do tiro, de modo a podermos alvejar múltiplos inimigos de uma vez. Dominar o uso da Psychogun significa aniquilar de maneira espetacular tudo o que nos aparece à frente, ainda por cima considerando que esta tem um período de cooldown bastante reduzido, mesmo a implorar que a usemos sem reservas. No entanto, para os casos excepcionais em que esta não é eficaz, contamos com uma clássica revolver e ainda com cigarros explosivos, que Cobra carrega casualmente no canto da boca.

Todas estas armas são extremamente úteis durante o jogo inteiro, pois Space Adventure Cobra – The Awakening não é um jogo fácil, muito pelo contrário. Felizmente, este conta com mecânicas que o tornam tolerável mesmo para quem não é masoquista, como vidas infinitas, checkpoints generosos e a possibilidade de mudar de nível de dificuldade a qualquer altura, mesmo durante os níveis. O maior desafio prende-se com coleccionar todos os items espalhados pelos níveis e bater os tempos pré-definidos para cada um deles, essencialmente um modo speedrun incentivado por uma nota (de D a S) atribuída no final de cada nível.

Como dito no início, a base da narrativa deste jogo são os 12 primeiros episódios da série animada, nos quais é introduzido a personagem de Cobra, um aventureiro que busca por um tesouro no espaço e é consequentemente perseguido pela Pirate Guild, o que o obriga a fingir a sua própria morte e a transfigurar-se. Daí em diante vamos seguindo os eventos dos episódios, em que cada um conta com entre um a três níveis, acompanhados logicamente com cutscenes extraídas diretamente do anime. Apesar deste jogo ser feito claramente para agradar aos fãs de Cobra, é bastante fácil de acompanhar a história sem nenhum contexto prévio, como aconteceu comigo. Fiquei até com curiosidade de ver a série inteira depois de o terminar. Acredito que tal como no meu caso, Space Adventure Cobra – The Awakening possa ser o ponto de entrada na série para muita gente.

Apesar de todos os elogios até agora, nem tudo é perfeito neste jogo. No departamento gráfico, apesar de competente, não é incrível. Algum do charme da animação perde-se na transição para o jogo, o que por si só não é grave. O que me deixou mais insatisfeito foi mesmo a performance instável na versão de Nintendo Switch, a qual eu joguei para escrever esta análise, considerando o quão básicos os gráficos são e o quão as quedas framerate afetam a jogabilidade. Basta comparar com o já mencionado Metroid Dread, que impressiona muito mais visualmente sem comprometer na performance. Isto não é certamente um problema nas restantes versões para PC, Xbox e PS5, pelo que recomendo que optem por qualquer uma dessas caso tenham hipótese.
Outro aspeto que também desilude um pouco é a banda sonora. Considerando o material de referência, que conta com uma sonoridade disco típica das space operas da época, as músicas dos níveis acabam por ser loops curtíssimos vagamente inspirados neste. Como se não fosse suficiente, não há uma grande variedade. Dois ou três episódios foram o suficiente para ouvir praticamente a banda sonora inteira, que se acaba por repetir durante o resto do jogo. Estes pontos fracos acabam por manchar um pouco o veredicto final de Space Adventure Cobra – The Awakening. Ainda assim, são muito mais os pontos positivos que fazem valer a pena jogar este título. Tendo em conta que este apenas cobre sensivelmente metade da narrativa do anime, fica no ar a possibilidade de uma sequela, mas só o tempo (e possivelmente o sucesso deste primeiro) o dirá.
Conclusão
Pros
- Jogabilidade precisa e desafiante
- Dominar a Psychogun é incrivelmente satisfatório
- Imensas cutcsenes diretas do anime
- Ótimo ponto de entrada na série Cobra
Contras
- Banda sonora desinspirada e repetitiva
- O charme do anime perde-se um pouco nos gráficos do jogo
- Problemas de performance na Nintendo Switch

Interessado em design e tecnologia desde sempre, encontrei nos videojogos a combinação perfeita entre ambos. Desde os clássicos mais antigos aos lançamentos mais recentes, gosto de explorar todas as diferentes gerações, com um fascínio particular pelos sistemas dos anos 90.
Falo sobre todos estes assuntos e mais alguns no podcast semanal The Games Tome.
