Tomodachi Life: Living the Dream.

Tomodachi Life: Living the Dream – Um dia na vida de um Mii | Análise

Mais de um ano depois do seu anúncio inicial, Tomodachi Life: Living The Dream chega finalmente à Nintendo Switch, provando que a primeira consola híbrida da Nintendo ainda tem vida, mesmo que para um publico mais de nicho.

Embora não tão icónica como outras séries dentro do mesmo género, para não falar dentro da própria Nintendo, Tomodachi Life também tem a sua legião de fãs, que certamente aguardavam com entusiasmo este regresso. Apesar deste jogo de simulação social partir do mesmo conceito base do seu antecessor da Nintendo 3DS, Living the Dream é expectavelmente mais expansivo e customizavel em quase todos os aspetos, sendo capaz de surpreender-nos das maneiras mais absurdas durante largas horas.

Em Tomodachi Life: Living The Dream nós jogamos como cuidadores de uma ilha, mas ao contrário de Animal Crossing: New Horizons – a comparação mais imediata à primeira vista – aqui assumimos o papel de deus, ou o que nos quisermos auto-intitular. Temos controlo sobre todos os aspetos da ilha, excepto a livre vontade dos seus habitantes.

São precisamente esses habitantes que acabam por ser a alma deste jogo, como seria de esperar de um social sim. Estes são baseados nos Miis, os míticos avatares introduzidos na Wii e que desde aí sempre marcaram presença em todas as consolas subsequentes da Nintendo. O jogo propõe importarmos os Miis que já tenhamos criado previamente (sim, a Nintendo Switch tem um editor de Miis nativo), algo que acabei mesmo por fazer numa primeira instância.

Tomodachi Life: Living the Dream. Vista da ilha.

Nas suas horas iniciais, o jogo vai nos introduzindo ás suas mecânicas base, com a possibilidade de adicionarmos mais um Mii a cada nova mecânica. Isto é algo que até acaba por ser comentado com estranheza por parte dos próprios Miis, num dos seus vários momentos de “quebra da quarta parede”.

Tomodachi Life: Living The Dream não perde muito tempo a dar a entender que não deve ser levado muito a sério, e na minha opinião, acaba por ser muito mais interessante por causa disso. A cada Mii que adicionava à minha ilha, pensava numa personalidade famosa do meu interesse, ou personagem de alguma série, sem grande critério. Isso culminou em cenários absurdos como uma amizade improvável entre Hideo Kojima (não tivesse eu escolhido a denominação de “Big Boss”) e o piloto de Formula 1, George Russell, entre tantos outros.

Tomodachi Life: Living the Dream. Amizade entre Miis

Quão mais vamos interagindo com os Miis, mais personalidade lhes podemos introduzir, através de poses, objetos favoritos ou frases recorrentes. Outro aspeto interessante e igualmente hilariante é que os Miis são conscientes da nossa existência enquanto ser todo-poderoso, falando diretamente para nós. Numa dessas interações, um Mii pediu-me para lhe indicar algo em eu seria capaz de ganhar uma medalha de ouro. A minha resposta: “citar Gato Fedorento” (seria realmente capaz de ganhar uma medalha de ouro nisso, acreditem). A partir desse momento, todos os Miis começaram a incluir o acto de citar Gato Fedorento como tópico de conversa.

Surpreendentemente não existe qualquer sistema de restrição ou censura que eu tenha notado, no que diz respeito ao vocabulário manualmente introduzido como no caso que acabei de explicar. Como se não bastasse, todos os Miis são dotados de voz text-to-speech, ainda que intencionalmente artificial e robótica. Como tal, eles são capaz de praguejar qualquer disparate que a nossa imaginação se tenha lembrado. Acredito que esta seja parte da razão para a Nintendo ter desabilitado a funcionalidade de partilha de capturas de ecrã para este jogo em específico.

Tomodachi Life: Living the Dream. Mii a falar.

As experiências que mencionei até agora são apenas uma pequena amostra de como o a interatividade do jogo torna as ações de livre arbítrio dos nossos Miis incrivelmente ridículas e relacionáveis, ao ponto em que senti como se estivesse a viver um sonho, de certa forma, fabricado por mim. Queria ficar a jogar apenas mais um pouco para saber que situação inesperada é que iria surgir de seguida. Nem tudo está fora do nosso controlo no entanto. Enquanto cuidadores, podemos manipular relações ao agarrar (literalmente) em determinados Miis e obriga-los a socializar, mas se a amizade floresce daí ou não, é algo que foge ao nosso critério.

Tomodachi Life: Living the Dream. Canal de notícias Mii.

Embora o aspeto social de Tomodachi Life: Living The Dream seja o prato principal do jogo, a componente de customização acaba por ser a grande novidade desta sequela. O modo de construção da ilha não conta com um leque de opções avassalador, mas em contrapartida permite-nos alterar livremente o layout da mesma de forma relativamente rápida e simples. Mesmo assim, caso isso não seja do nosso interesse, os próprios Miis vão nos sugerindo propostas de melhoramento à ilha, tendo nós apenas de as aceitar para se efetivarem.

O mesmo princípio é aplicado a todos os outros aspetos customizáveis, como o guarda roupa, com combinações pre-definidas, ou os interiores das casas dos Miis, que já vêm mobilados. Voltando à comparação com Animal Crossing: New Horizons, existirá certamente quem prefira a customização mais avançada deste. Para mim no entanto, Tomodachi Life: Living The Dream tem o nível ideal de opções, sem chegar o ponto de ser overwhelming.

Tomodachi Life: Living the Dream. Customização de interiores.

Para quem se quiser aventurar mais a fundo nesta vertente, o jogo permite criar praticamente de raíz roupas, decorações de casa, comida e outros objetos variados através de um editor relativamente intuitivo e que até tem suporte ao ecrã táctil da consola. Infelizmente o uso de controlos tácteis não é transversal a todo o jogo, assim como não existe qualquer suporte ao modo rato da Nintendo Switch 2.

Na verdade não existe praticamente nenhuma melhoria ao jogar na consola mais recente, excepto uma resolução superior e o suporte ao GameChat. Considerando que o jogo não teve direito a uma Nintendo Switch 2 Edition, é pouco provável que mais melhorias sejam adicionadas em futuras atualizações. No entanto, se há coisa em que a Nintendo é melhor que ninguém, é na capacidade de nos surpreender.

Veredito: 7.5

Tomodachi Life: Living The Dream tem tanto de bizarro como de hilariante. É um jogo que não faz questão de ser levado a sério e o seu fator de diversão está diretamente relacionado com a nossa capacidade de abraçar essa ideia. Construir uma ilha repleta de Miis com base na nossa realidade, ou imaginário, acaba por ser recompensado com inúmeras pequenas interações e cenários moldados a estes. No seu expoente máximo, é um fever dream em formato de videojogo.