Há franquias que vivem na memória coletiva dos jogadores como relíquias de um tempo em que a dificuldade era brutal e a recompensa vinha do domínio paciente das mecânicas. Shinobi é uma dessas franquias, que agora tem um retorno poderoso.
Depois de vários anos adormecido, o nome ressurge em 2025 com Shinobi: Art of Vengeance, desenvolvido pela Lizardcube (que já nos brindou com Streets of Rage 4) e publicado pela SEGA. O título não tenta ser um remake literal dos clássicos, mas sim uma reinvenção que mistura o espírito arcade dos anos 80 e 90 com a sofisticação visual e mecânica dos dias de hoje. O resultado é um jogo intenso, artístico e, ao mesmo tempo, exigente, que pode tanto conquistar novos jogadores como dividir opiniões entre veteranos.
O enredo serve de pano de fundo, mas cumpre bem o seu papel. Joe Musashi, o lendário ninja, vê o seu clã dizimado e transformado em pedra por forças obscuras. A motivação de vingança é simples e direta, quase arquetípica, mas a simplicidade joga a favor da narrativa. Shinobi nunca precisou de ser uma epopeia cheia de diálogos longos, e aqui mantém-se fiel a isso: a história existe para justificar a ação. Ainda assim, o estúdio de produção inseriu pequenos detalhes narrativos que enriquecem o ambiente — inscrições em templos, fantasmas que murmuram no vento, ou vilões que, mesmo sem longos discursos, transparecem personalidade através da postura e da arte visual.
Se a história é um pano de fundo, a jogabilidade é o núcleo, e aqui a equipa conseguiu encontrar um equilíbrio delicado. O combate com a katana é rápido, preciso e altamente satisfatório. Cada corte transmite peso, cada combo encaixa de forma fluida, e a variedade de inimigos obriga a adaptar estratégias. Não basta martelar botões: há adversários que bloqueiam ataques frontais, outros que disparam projéteis de longe, e ainda os brutais mini-bosses que exigem leitura de padrões.
As ferramentas secundárias, como as kunai, bombas de fumo ou amuletos especiais, funcionam como extensões estratégicas, permitindo controlar espaço ou quebrar defesas. Mas é nos ninjutsus que o jogo mostra espetáculo puro: ataques de área com fogo, vento ou sombras que não só devastam inimigos, como também reforçam a sensação de poder mítico.

A progressão é mais aberta do que nos títulos originais. Não estamos perante um Metroidvania profundo como o Ori para dar um exemplo, mas existe uma clara tentativa de expandir a fórmula. Certas áreas só podem ser exploradas depois de se desbloquear ferramentas ou técnicas específicas, incentivando o regresso a níveis anteriores. Essa estrutura aumenta a longevidade, mas também dá ao jogador a sensação de que está sempre a evoluir, não apenas a passar níveis. Além disso, há colecionáveis escondidos, rotas alternativas e até atalhos secretos que remetem diretamente ao espírito de descoberta dos jogos clássicos.
Visualmente, Shinobi: Art of Vengeance é deslumbrante. O estilo desenhado à mão, já é uma marca registada da Lizardcube e confere ao jogo uma identidade única. Cada cenário parece uma pintura animada, com cores saturadas e pinceladas que evocam pergaminhos japoneses. Os detalhes são abundantes: lanternas que oscilam ao vento, rios que refletem a lua, estátuas que parecem quase vivas. O contraste entre beleza e brutalidade é constante — aldeias em chamas, cemitérios enevoados, fortalezas cheias de armadilhas. Essa riqueza estética não é apenas decorativa: contribui para a atmosfera, para o peso da jornada de Musashi e para a sensação de estar dentro de uma lenda contada com pinceladas vivas.
A banda sonora merece destaque. Misturando instrumentos tradicionais japoneses com batidas eletrónicas modernas, cria uma ponte perfeita entre passado e presente, tal como o próprio jogo faz. O som da flauta a introduzir uma batalha contra um Boss, logo seguido de guitarras distorcidas, transmite tensão e urgência. Cada faixa parece pensada para intensificar o momento: há melodias melancólicas em áreas devastadas e ritmos frenéticos em perseguições. É uma trilha sonora que não se limita a acompanhar, mas sim a amplificar cada confronto.

No que toca à dificuldade, o jogo é fiel às suas origens. Não é implacável como os soulslike, mas também não é assim tão fácil como parece dar a entender. A morte chega rápido para quem desleixa a defesa, e a aprendizagem acontece pela repetição. É aqui que alguns jogadores podem sentir frustração: há secções de plataformas com armadilhas pouco telegráficas e saltos que exigem uma precisão quase cirúrgica. Os checkpoints, embora generosos em comparação com os arcades antigos, ainda deixam margem para repetir longas sequências. Para alguns, isso será parte do prazer; para outros, poderá parecer punição em excesso.
Os modos adicionais ajudam a prolongar a experiência. O Arcade Mode é como que uma versão condensada e mais difícil da campanha, perfeito para speedrunners e puristas. Já o Boss Rush coloca-nos frente a frente com os inimigos mais icónicos, um verdadeiro teste de reflexos e memorização de padrões. Estes extras são mais do que adições cosméticas: oferecem valor real a quem quiser dominar o jogo e competir por pontuações.
Contudo, nem tudo é perfeito em Shinobi: Art of Vengeance. O design de níveis, apesar de artisticamente impecável, por vezes cai em repetições mecânicas. Certos níveis parecem prolongar-se apenas para aumentar a dificuldade, e não porque tragam novas ideias. Há também momentos em que a fluidez da ação é interrompida por diálogos pouco inspirados, quebrando o ritmo. Pequenos problemas técnicos, como colisões estranhas em algumas plataformas, também podem gerar frustração. Mas no panorama geral, são falhas menores perante a solidez do conjunto.

Shinobi: Art of Vengeance é um jogo poderoso e cheio de estilo, que honra o legado Shinobi sem se limitar à nostalgia. Visualmente arrebatador, com combate visceral e desafiante, é um título que exige paciência e dedicação, mas recompensa com a satisfação de dominar cada movimento ninja. Falha apenas em alguns momentos de design repetitivo e picos de frustração que poderiam ser melhor equilibrados. Para veteranos, é um reencontro emocionante, contudo, para novatos, é um batismo de fogo que pode transformar frustração em orgulho quando a katana acerta no ponto certo.

Jogo de tudo um pouco, desde a minha primeira consola de jogos, a Master System II. Desde aí muita coisa mudou, mas a paixão e dedicação aos videojogos permaneceu intacta.
Apesar de jogar de tudo um pouco, desde FPS a RPG´s, sou grande adepto de Fighting games, como o Mortal Kombat e ainda de jogos de desporto automóvel, como o Forza Motorsport. Também não dispenso boas séries e bons filmes. Sou grande fã de animes desde muito cedo, onde tenho DragonBall e Naruto como séries de eleição.
