Fiquei super curioso quando vi que esta compilação pela QUByte, um estúdio de desenvolvimento e publisher Brasileiro, quando reparei que ela continha um jogo que adoro na Mega Drive, o Second Samurai. É que este é, no máximo, um clássico de culto, e não algo conhecido que fosse obrigatório ou inevitável ser publicado novamente nos dias que correm. Depois ao ver o resto da compilação ainda achei mais curioso porque temos aqui o First Samurai, Gourmet Warriors, Iron Commando, Sword of Sodan, Legend e Water Margin. Uma série de jogos todos eles relativamente obscuros, com este último a ser um jogo não licenciado, lançado apenas na China em 1996 para a Mega Drive. É uma colectânea que mais parece ter sido feita para arqueólogos de videojogos do que para o público em geral. Nenhum destes jogos foi um sucesso na sua época mas todos carregam um feeling experimental que cativou a curiosidade dos jogadores ao longo dos tempos.
Vamos olhar primeiro para os vários jogos um a um e depois quero deixar algumas palavras sobre a compilação em si. E já agora, os jogos são algo que seria analisado durante os anos 90 quando eles saíram, hoje é redundante criticar os mesmos de uma maneira objectiva a não ser que o façamos com uns óculos do tempo, portanto o pesar da minha crítica vai para a montagem da compilação e as suas features, ainda que vos vá falar dos jogos como que para vos apresentar aos mesmos.

Comecei pelo First Samurai. Que grande alucinação, eu quero o mesmo que a Vivid Image, o estúdio original, andava a usar nessa altura. Aqui temos a versão de Super Nintendo e não a original de Amiga desde sidescroller de acção. Controlamos um samurai, que é o primeiro samurai da história do Japão, através de níveis que se passam no futuro. Os níveis são todos meio estranhos e com coisas que não fazem sentido nenhum. Por exemplo, no nível que se passa em Tokyo, existem alforrecas nos esgotos. Porquê Alforrecas? Porque não… sei lá, ratos?! São esgotos… No mesmo nível vários inimigos com aparência humana são verdes, parecem o Hulk. Há outro nível que se passa num comboio a alta velocidade e no futuro e aparecem inimigos super estranhos roxos e azuis mar, que parecem tirados de um templo azteca e tentam aniquilar-nos juntamente com… abelhas! São só dois exemplos da bizarria que para aqui vai. De resto nos níveis temos de colecionar umas runas, cinco no total, que nos permitem despoletar um acontecimento num certo ponto do nível, ponto esse que nunca é dito ao jogador, simplesmente vais a andar e acaba por acontecer eventualmente. Também apanhamos uns sinos que permitem fazer magia e que mudam o aspecto do nível para criar passagens anteriormente inexistentes. Mais uma vez, isto nunca é óbvio, vão ter de andar a experimentar várias vezes ao acaso até perceber onde é suposto usar. É um jogo muito estranho, com uma banda sonora também ela completamente fora de contexto, mas é muito curioso, mais um exemplo do quanto diferentes eram os jogos feitos no velho continente durante esta época.
O único que já tinha jogado muitas vezes desta compilação e que me é muito querido nostalgicamente é o Second Samurai. Era um dos jogos que me lembro de alugar num videoclube ao pé de casa juntamente com outros títulos como Dragon: The Bruce Lee Story ou Mortal Kombat 3. Tinha samurais e desde sempre que adoro tudo o que esteja ligado a temáticas do Japão feudal. Este jogo é a sequela do First Samurai mencionado acima, que saiu em 1993 para o Amiga e em 1994 para a Mega Drive que é a versão aqui presente. Este jogo nunca saiu fora da Europa, pelo que provavelmente muita gente fora deste território só teve sequer conhecimento dele com esta compilação. O enredo continua a acompanhar o guerreiro samurai numa viagem pelo tempo para derrotar um demônio ancestral. A jogabilidade combina combate corpo a corpo, com espadas e ataques especiais, e exploração de níveis que vão desde florestas e cavernas na pré-história a mundos futuristas e tecnológicos. O jogo pode ser jogado em modo cooperativo, com dois jogadores em simultâneo, algo que o distingue e lhe dá bastante dinamismo. É um jogo muita mais consistente a nível de ideias, mas também a nível da jogabilidade e da apresentação. Faz tudo melhor que o primeiro e continuo a achar que Second Samurai é um jogo digno do título “clássico de culto”. É um jogo mais em linha com o que se fazia em termos de platformers de acção na sua época, bastante difícil mas competente.

Gourmet Warriors e Iron Commando são dois beat em ups da Super Famicom lançados exclusivamente no Japão em 1995. O primeiro é provavelmente um dos exemplos mais excêntricos do género. A história leva-nos a Zeus Heaven Magic City, no ano 20XX, uma metrópole futurista em colapso depois de uma guerra núclear e onde a protagonista Rhondo luta contra inimigos grotescos enquanto coleciona… pratos de comida para manter o seu nível de proteína essencial para sobreviver neste meio hostil. Essa mistura entre pancadaria e obsessão gastronômica cria um tom surreal e humorístico, que distingue o jogo de outros clássicos do gênero. A jogabilidade segue a fórmula tradicional de um beat ’em up: avançar horizontalmente, derrotando ondas de adversários com combos, golpes especiais e algumas armas. No entanto, o ritmo é mais lento e os controlos algo rígidos. Ainda assim, a estética colorida, os designs bizarros e a banda sonora peculiar fazem dele uma curiosidade irresistível para quem aprecia títulos fora do comum. De destacar também que o jogo tem um botão cuja sua única utilização é o personagem fazer uma posse jeitosa para mostrar os seus músculos. Já Iron Commando aposta numa abordagem mais tradicional. Aqui, os jogadores assumem o papel de Jack ou Rose, em cenários que vão desde ruas repletas de gangues até ambientes militares e industriais. A jogabilidade é mais robusta, com maior variedade de movimentos, ataques especiais e possibilidade de usar armas de fogo, algo mais próximo de um filme de ação dos anos 80. O ritmo é mais rápido do que em Gourmet Warriors, mas também padece de alguma repetição e dificuldade desequilibrada. Ambos os jogos são bastante competentes enquanto Beat ‘Em Ups e é estranho nunca terem saído do Japão até agora, acho que iam gozar de alguma popularidade por cá.


Sword of Sodan tem uma história curiosa: lançado originalmente para Amiga em 1988 pela Innerprise, foi posteriormente adaptado para Mega Drive em 1990. À primeira vista, impressiona pelos sprites enormes e cenários de Dark Fantasy, algo bastante apelativo para a época. No entanto, a jogabilidade revela-se rapidamente um problema difícil de ultrapassar ou de ignorar. Os controlos são pesados e pouco responsivos, os movimentos do personagem são muito limitados e a repetição instala-se cedo demais. A dificuldade elevada não decorre tanto do desafio justo, mas sim da rigidez mecânica, o que lhe valeu críticas negativas aquando do lançamento e ainda hoje teria de ser encarado como um jogo tecnicamente fraco.
Por outro lado, Legend, desenvolvido pela Arcade Zone e lançado em 1994 para Super Nintendo, apresenta um exemplo mais competente do gênero. Também com uma estética medieval, o jogo coloca dois cavaleiros em combate contra hordas de inimigos através de fases lineares que misturam combate e plataformas. Ao contrário de Sword of Sodan, os controlos aqui são muito mais fluidos. Graficamente, Legend aproveita bem o hardware da Super Nintendo, com sprites detalhados e cenários diversificados que recriam florestas, castelos e masmorras. Apesar disso, o jogo não conseguiu destacar-se num mercado saturado de beat ’em ups, passando relativamente despercebido fora da Europa.
Mas o mais excêntrico da coletânea, não pelo conteúdo em si, mas pela sua história, é Water Margin. Lançado em 1996, apenas na China, sem licença oficial da Sega, é baseado no romance clássico chinês Shui Hu Zhuan (À Margem da Água), uma das quatro grandes obras literárias do país. Na prática, o que temos aqui é um beat ‘em up medieval que mistura guerreiros chineses, cenários inspirados no romance e jogabilidade em linha com os títulos da época. Controlamos heróis que enfrentam hordas de inimigos, com direito a armas e poderes especiais. Visualmente até é bastante competente para um jogo não licenciado, com sprites grandes e ambientes coloridos. Não é nada inovador, mas ganha pontos pelo contexto cultural e pelo facto de ter circulado quase como uma lenda urbana durante anos fora da China. Para muitos jogadores, esta será a primeira oportunidade de o experimentar de forma legítima.

São estes os 7 jogos presentes nesta compilação, uns melhores que outros mas todos curiosos. Mas, a compilação faz alguma coisa que se destaque? Eu diria que sim, sem dúvida nenhuma. Primeiro que tudo gosto muito da apresentação. É cuidada, colorida e os menus são bastante rápidos. Não é só seleccionar o jogo e siga, há aqui algumas opções, centradas no essencial que funcionam bastante bem e é exatamente o que procuramos num produto deste género. Podemos ajustar o tamanho da área de jogo para 4:3, ou fazer stretch para 16:9 (que fica horrível como sempre), e o 4:3 pode ser de cima abaixo ou centrar-se em menor escala no centro do ecrã. Em caso de 4:3 podemos também escolher um pano de fundo. Existe um para cada jogo e 3 genéricos que, sinceramente, até são bem foleiros. Depois temos os clássicos filtros onde não podia faltar a típica opção de scanlines, smooth, pixel perfect e CRT. O pixel perfect fica excelente, já o smooth também nunca percebi o apelo e aqui mais uma vez fico na mesma. O filtro de CRT no Earthion é o melhor que já vi, portanto agora estou mal habituado e este achei demasiado carregado e cria demasiadas distrações “sujando” demasiado o ecrã. Existe o típico save/load e o botão L2 (Na PS5 neste caso) faz rewind ao jogo. Como se essa batota não fosse suficiente, há ainda várias batotas que podem utilizar em casa jogo como vidas infinitas, vida ilimitada entre outras. Portanto, mesmo que só queiram ver o jogo do início ao fim sem se chatearam com a dificuldade inerente a jogos deste género, é possível. Podemos também, uma coisa que todas deviam ter sem excepção, a opção de mapear como nós quisermos e bem nos apetecer os controlos para cada jogo. Temos ainda uma base de extras onde podemos consultar os manuais de cada jogo, onde podemos ler uma breve história sobre os mesmos e ver a arte das capas de cada um.

É uma compilação muito interessante. A emulação funciona às mil maravilhas, tem vários extras que fazem todo o sentido sem ser em demasia e tudo funciona muito bem em termos de interface. A escolha dos jogos é, apesar da qualidade hit or miss, algo que aplaudo por ser diferente. No fim de contas, esta compilação não é para todos, mas para quem gosta de arqueologia digital, está aqui um brilhante tesourinho.

Ainda nem sabia falar como deve ser e já passava horas em frente ao meu velhinho 386. Hoje, continuo o mesmo: um fervoroso apaixonado por videojogos e por tudo o que lhes diz respeito.
