Preparado para deixar o sol pôr-se, os monstros surgirem e a tua besta interior despertar? Dying Light: The Beast leva-te a Castor Woods, um mundo onde correr pelos telhados não será apenas uma habilidade útil… será uma questão de vida ou morte.
Dying Light: The Beast é um jogo de ação e sobrevivência em mundo aberto, com elementos de RPG, parkour em primeira pessoa e survival horror, com forte ênfase em combate brutal e fases de pura tensão — especialmente quando chega a noite. O jogo decorre numa região montanhosa isolada, coberta de névoa e florestas densas, onde a civilização colapsou após uma nova mutação do vírus Harran. O ritmo alterna entre momentos de exploração calma, recolha de recursos e sequências intensas de combate e fuga. Quando o sol desaparece, o jogo transforma-se completamente.
O ambiente é simultaneamente familiar e novo: há aldeias abandonadas, instalações científicas escondidas e vários espaços subterrâneos que escondem segredos da infecção original. Aposto numa ambientação mais natural, trocando os arranha-céus de Villedor por ruínas e trilhos que obrigam a adaptar o estilo de movimento.
Desenvolvido e publicado pela Techland, criadora da série original Dying Light, este título começou como uma expansão de Dying Light 2: Stay Human mas rapidamente ganhou identidade própria, tornando-se um jogo standalone. Quando se pensava que a Techland já tinha esgotado o conceito de correr, saltar e sobreviver a zombies, surge Dying Light: The Beast — uma mistura entre expansão, sequência espiritual e reinvenção da fórmula. O que parecia apenas mais um spin-off acabou por me surpreender pela sua abordagem mais sombria, introspectiva e… pessoal.
Este é um jogo que procura explorar não só a luta contra monstros, mas também o monstro que vive dentro de nós. Literalmente.
Comecei The Beast com algumas boas expectativas, por vários motivos. Tenho tido boas experiências com jogos que sendo inicialmente pensados para DLC (ou que pelo menos seriam experiência mais curtas que o seu “progenitor”), se transformaram no seu próprio jogo. Tenho em mente jogos como Red Dead Redemption: Undead nightmare, Infamous: First Light ou Assassins Creed: Mirage. Todos eles, jogos que pegam em tudo o que estava bem feito e adicionam mais alguns pormenores, juntando tudo num jogo mais condensado e sem tantas partes para “encher chouriços”.
Outro motivo é que apesar de eu não ter jogado os Dying Light anteriores, sempre foram dois jogos que estavam no meu radar desde que saíram, devido ao setting. Adoro exploração, zombies e survival horror. Este jogo tem tudo isto. O próprio jogo nos faz um recap do que aconteceu no passado, por isso não tenham receio de mergulhar neste jogo, sem passar pelos anteriores.
A narrativa segue o protagonista dos jogos anteriores, Kyle Crane, que após ser capturado por um cientista conhecido como The Baron, é sujeito a experiências genéticas. O resultado é uma transformação parcial que o deixa dividido entre o humano e o monstruoso. Quando escapa, procura vingança — mas também luta contra a besta que existe dentro de si e que teima em vir ao de cima (e ainda bem, pois é uma grande ajuda ao longo do jogo). É uma história de redenção, dor e dualidade, contada com o tom sombrio e violento característico da série.
Apesar do tema desta história ser algo batida (e que claro que vai ter aqueles clichés algo previsíveis), mas ainda assim é daquelas histórias a que não resistimos em chegar até ao final. A escrita é sólida — nada de Shakespeare, mas eficaz o suficiente para criar empatia e tensão.
O inicio do jogo rapidamente nos coloca na ação. Nos primeiros momentos temos a sequência de fuga e pouquíssimo tempo depois já estamos na nossa primeira luta com um boss, uma “Quimera” e já temos liberdade para explorar o mundo.

Em termos de modos de jogo, existe a campanha a solo e o modo co-op online para até quatro jogadores. O mundo oferece missões principais e secundárias. As missões principais estão mais focadas em localizar (e derrotar) as várias Quimeras, que permitirão que o nosso monstro interior, fique ainda mais poderoso.
Já as missões secundárias estão mais relacionadas com a recolha de recursos e a consequente melhoria das nossas armas e restante equipamento. A variedade de atividades ajuda a manter o interesse mesmo após várias horas de jogo, mas é claro que vai haver aquele momento em que vais achar que estas missões se vão começar a tornar um pouco repetitivas.
O ciclo dia/noite está mais refinado — durante o dia, o mundo parece perigoso, mas controlável; à noite, transforma-se num pesadelo. Os inimigos são mais rápidos, mais agressivos e mais inteligentes. O jogo incentiva a planear cada incursão e recompensa os jogadores que se atrevem a enfrentar o escuro. Realizar as missões à noite aumentam significativamente a dificuldade. Em compensação a nossa XP tem uma bonificação (mas não morras, senão parte da XP obtida “vai à vida”).
A jogabilidade é, sem dúvida, o coração de The Beast. O sistema de parkour em primeira pessoa continua a ser uma das experiências mais fluidas do género. Subir paredes, balançar em cordas, saltar entre estruturas e escapar de hordas é tão fluido e recompensador como sempre — tudo funciona de forma natural e responsiva. A Techland refinou o momentum e a física, tornando o movimento mais rápido e menos “pesado” do que em Dying Light 2.A jogabilidade é, como seria de esperar, o ponto mais sólido. Pessoalmente não adoro jogos com combate corpo a corpo na primeira pessoa, mas neste jogo, o sistema de combate está bem implementado.
O combate foi repensado: os confrontos corpo a corpo são mais intensos e sangrentos, com novas animações de desmembramento. A grande novidade é o Beast Mode, que permite libertar o lado monstruoso de Crane, com força sobre-humana, ataques brutais e novas formas de movimentação. É uma adição que muda completamente o ritmo de certos combates e cria novas estratégias de abordagem. É viciante, mas equilibrado: não pode ser usado constantemente, o que obriga a gerir o risco e a oportunidade.
O jogo apresenta uma dificuldade moderada, sendo a progressão algo que não apresenta um desafio gigante, mas também é verdade que a falta de alguns checkpoints dentro de missões longas, nos vai deixar por vezes um pouquinho frustrados.
O art style mantém o equilíbrio entre realismo e decadência, com ambientes húmidos, lama, ferrugem e escuridão. Há um excelente trabalho de iluminação: o luar filtrado pela névoa cria uma atmosfera quase cinematográfica. A paisagem rural e as ruínas urbanas contrastam com detalhes de vegetação e luz — um ambiente visualmente interessante, ainda que não revolucionário.

A interface é simples e funcional, embora alguns elementos da gestão do inventário não sejam tão claros como deviam. Ainda assim, a maior parte dos menus são intuitivos e bem estruturados.
A ambiência é um dos grandes trunfos: há uma sensação constante de tensão, como se algo te observasse sempre e que te obriga a verificares se não há ninguém atrás de ti, mesmo quando nada se passa.
O mundo é bastante grande, sendo possível explorar desde o inicio, vários locais com um nível de dificuldade mais elevado, mas que até pode ser um bom desafio às nossas capacidades. Apesar do mundo ser grande, facilmente chegamos a todo o lado, não apenas por causa da nossa mobilidade e velocidade, como também pelos veículos que temos disponíveis para as travessias maiores (em que aproveitamos para atropelar dezenas de zombies). Há momentos em que pensamos sentimos falta de uma mecânica de fast travel, mas a verdade é que a sua inexistência, acaba por nos convencer a explorar alguns dos locais entre a nossa posição e o destino final.
Neste mundo, existem vários locais interessantes para explorar, cada um com os seus segredos. Isso cativou-me muito e foi isto que fez com que eu demorasse mais tempo a concluir o jogo.
Graficamente, The Beast é muito competente. Não atinge o nível de excelência dos grandes blockbusters, mas apresenta bons efeitos de luz, reflexos e texturas sólidas. Os zombie e restantes monstros estão muito bem detalhados, saltando à vista todo o gore característico desta série. As áreas abertas durante o dia são belas, enquanto as zonas noturnas exploram o contraste entre sombras e brilhos de forma eficaz. O desempenho é estável, com ocasionais quebras de frame rate e pequenos glitches durante o parkour.

O som, por outro lado, é mais irregular. Os efeitos de impacto e gritos das criaturas são intensos e imersivos, mas a banda sonora parece ter sido mais trabalhada. Algumas músicas não se enquadram com o tom das cenas e quebram a imersão, especialmente em momentos mais dramáticos ou combates intensos. A mistura sonora merecia mais atenção.
Dying Light: The Beast oferece uma experiência sólida para quem aprecia mundos abertos com forte componente de sobrevivência e ação. A campanha principal ronda as 20 a 25 horas, mas quem quiser explorar tudo, completar missões secundárias e enfrentar todos os bosses pode facilmente ultrapassar as 50 horas.
Apesar de não revolucionar o género, o jogo demonstra que a série ainda tem fôlego. É uma evolução natural, mais sombria e introspectiva, que mistura horror físico e psicológico sem perder o ADN que tornou Dying Light um sucesso.
Dying Light: The Beast é uma aposta segura para fãs da série e do género survival horror. Combina parkour fluido, combate intenso e uma história com peso emocional suficiente para manter o interesse. Apesar das falhas ocasionais no som e de alguns elementos repetitivos, é uma aventura envolvente e competente. Se procuras um survival horror com identidade, movimento e alma, este é um jogo que vale a pena enfrentar… mesmo quando a noite cai.

Nascido em 1980, cresci a soprar cartuchos e a acreditar que gráficos de 16 bits eram o auge da tecnologia. Coleciono memórias e achievements em todas as consolas, e jogo de tudo… ou quase tudo (não quero jogar online). Para mim, cada jogo é uma viagem no tempo — às vezes para o futuro, às vezes de volta à infância.

