The Legend of Steel Empire – O regresso a todo o vapor de um shmup clássico | Análise

Lançado originalmente em 1992 para a Mega Drive, Steel Empire — conhecido no Japão como Koutetsu Teikoku — destacou-se desde o primeiro momento como um dos shooters mais originais da era 16-bit. Numa altura em que o género era dominado por temas futuristas e naves espaciais, Steel Empire apresentou um universo steampunk repleto de dirigíveis, locomotivas voadoras e máquinas de guerra a vapor. Era um jogo diferente, visualmente impressionante para a época e com uma atmosfera que o tornava inconfundível entre os seus pares. O seu sucesso modesto, mas duradouro, garantiu-lhe versões posteriores para Game Boy Advance e, mais tarde, para a Nintendo 3DS e PC, ambas com melhorias gráficas e sonoras. Agora, mais de três décadas depois, chega-nos Legend of Steel Empire, uma nova versão que traz este clássico para as plataformas modernas — PS4, PS5, Switch, Steam entre outras — prometendo reviver a glória de um dos shmups mais distintos da velha guarda.

Há algo de curioso nas remasterizações de jogos clássicos, especialmente no universo dos shmups. Muitas vezes, quando se tenta fazer um “overall gráfico” para modernizar a experiência, perde-se o carácter e o carisma que definiam o original. E isso acontece com frequência assustadora — a troca da pixel art meticulosa por modelos polidos e shaders reluzentes pode roubar aquela energia crua e frenética que tornava os velhos shooters tão viciantes. Legend of Steel Empire, felizmente, escapa dessa armadilha. A atualização visual é profunda, mas respeitosa. O resultado é um jogo que parece ter sido cuidadosamente redesenhado para os dias de hoje sem perder a sua alma de 16 bits. Mas será mesmo? É que, antes de mais, há algo muito sério a falar. Há um detalhe difícil de ignorar, um verdadeiro elefante na sala. Esta versão é, essencialmente, uma atualização em alta definição da edição lançada para 3DS há mais de uma década e mais tarde para PC. E no entanto, nem o marketing nem os trailers fazem qualquer referência a isso. Pelo contrário, o discurso oficial foca-se nas versões da Mega Drive e da GBA, como se a de 3DS nunca tivesse existido. O que é estranho, porque quem jogou essa versão sabe bem que o estilo artístico já era praticamente o mesmo. É impossível acreditar que quem desenvolveu este Legend of Steel Empire não estivesse plenamente consciente dessa ligação, mais fácilmente acredito na pequena sereia. E isso cria uma sensação de desconfiança, como se houvesse um esforço deliberado para vender este lançamento como algo mais “novo” do que realmente é. É um toque de marketing que deixa um travo muito amargo.

Mas voltemos ao jogo em si, porque apesar de tudo, o resultado final é muito bom. O visual está mais nítido, os detalhes mais definidos e a paleta de cores continua a transmitir aquele misto de industrial e fantástico que sempre marcou Steel Empire. O mundo steampunk mantém o seu charme inconfundível e a animação flui, sem sacrificar a intensidade da ação. Este é um daqueles casos em que o “upgrade gráfico” cumpre o seu propósito: melhora o que estava datado, mas não descaracteriza o que o tornava especial. Outro ponto em que o novo Steel Empire acerta em cheio é no som. A banda sonora original nunca foi particularmente marcante, e os efeitos de disparo chegavam a soar cómicos — quase como flechas disparadas de um arco de madeira em vez de munições de um avião de guerra. Agora, tudo soa mais encorpado, mais poderoso e condizente com o espetáculo visual. A música ganhou peso e dinâmica, o que ajuda muito a reforçar o ritmo de cada nível.

Mecânicamente, o jogo mantém-se quase intocado, e isso é algo positivo. Continuamos com o clássico esquema de disparar tanto para a frente como para trás, o que sempre deu uma sensação estratégica interessante e diferenciada dentro do género. Um botão para tiros para a direita, outro para a esquerda, e um terceiro para as bombas — simples, eficaz, e imediatamente reconhecível por qualquer fã de shmups. O HUD mostra-nos tudo o que precisamos: o nível de poder da nave, a pontuação, a quantidade de bombas e a barra de vida. E é precisamente essa barra de vida que continua a ser um dos elementos mais encantadores de Steel Empire. Num género conhecido por castigar o jogador ao mínimo erro, poder levar alguns golpes antes de explodir é quase reconfortante e dá uma sensação de tolerância para com os nossos erros. No entanto, não te deixes enganar, este é um jogo difícil. Mesmo com quatro níveis de dificuldade à escolha, o desafio mantém-se constante e, nos modos mais altos, brutal.

Quando finalmente consegues terminar o jogo pela primeira vez, desbloqueias um modo de treino que te permite jogar cada stage de forma independente. É uma excelente adição, e para quem gosta de tentar o famoso “one credit clear” ou “1cc” — terminar o jogo com um único crédito — é a ferramenta perfeita para dominar cada secção ao detalhe. Além desse modo treino, há ainda uma galeria e uma série de achievements para desbloquear, mas… e é um “mas” importante, é só isso. Não há novos modos, naves extra ou desafios alternativos. É um pacote sólido, mas extremamente conservador. E considerando o preço de 24,99€, fica muito difícil justificar a recomendação para qualquer público que seja e não sentir que poderia haver mais conteúdo, especialmente para os veteranos que já jogaram as versões originais e intermediárias. Ainda assim, a variedade dentro do que existe é respeitável. Os sete níveis apresentam inimigos variados e ambientes visualmente distintos, mantendo o ritmo fresco o suficiente para que o jogo nunca se torne monótono, mas tudo isto já cá estava! Cada área é facilmente reconhecível como um novo avanço na jornada, e a progressão continua a ter aquele toque clássico de “só mais uma tentativa”.

Steel Empire sempre foi um dos shmups mais únicos da Mega Drive — uma mistura encantadora de design steampunk, jogabilidade fluida e personalidade visual. Foi um dos grandes tesouros esquecidos da época, e é reconfortante vê-lo de volta nas consolas modernas, mais bonito do que nunca, pronto para se aprensetar a um novo público. Este novo Legend of Steel Empire não é uma reinvenção, nem promete ser. É uma carta de amor ao original, um exercício de preservação mais do que de inovação. E nesse sentido, cumpre a sua missão. Mas também é difícil ignorar o facto de que, trinta e três anos depois, esta versão faz muito pouco para justificar o preço que pede, especialmente quando considerando que existe a versão de 3DS e GBA pelo meio. Para quem nunca jogou, é uma excelente oportunidade de descobrir um clássico. Para quem já o conhece, é um reencontro agradável, mas que deixa a sensação de déjà vu — um jogo que já amámos várias vezes antes, agora apenas com uma camada extra de brilhantina.

No fim, Legend of Steel Empire é fácil de recomendar, mas difícil de defender pelo preço pedido. É uma excelente remasterização de um jogo fabuloso, mas também um lembrete de como o tempo passa, e de como às vezes, mesmo os melhores jogos não precisam de ser refeitos, apenas relembrados. Há um certo paradoxo em tudo isto: quanto mais fiel é esta nova versão, mais evidente se torna que o Steel Empire original já dizia tudo o que tinha para dizer. O novo brilho visual e o som aprimorado são bem-vindos, claro, mas não mudam a essência, este continua a ser um shmup clássico, com os seus limites e as suas virtudes bem definidas. No entanto, há algo profundamente reconfortante em ver um jogo como este de volta às prateleiras fisicas e digitais. Num mercado onde as remasterizações por vezes traem o espírito dos originais, Legend of Steel Empire é um exemplo de respeito e contenção. É uma viagem no tempo cuidadosamente polida, que não tenta reinventar a roda, mas sim lembrar-nos porque é que a roda, tal como era, funcionava tão bem. Talvez não vá conquistar novos fãs fora do nicho dos entusiastas dos shooters 2D, mas para quem cresceu a destruir dirigíveis e locomotivas voadoras na Mega Drive, este regresso sabe a reencontro com um velho amigo, um que envelheceu com dignidade, que tem uma vida plena e que não nos procura por necessidade, mas por puro gosto e afeição.

Veredito: 6

Faz tão pouco de novo e acrescenta tão pouco conteúdo àquilo que é um jogo com 33 anos que é quase um insulto. Mas o original é tão bom que mesmo passados tantos anos continua a ser uma experiência inegávelmente divertida e profundamente charmosa. É um pacote extremamente dificil de recomendar, como fã do original queria muito mais, mas continua ainda assim a ser um jogo soberbo.