Há muito tempo que não consigo adaptar-me aos dispositivos de realidade virtual das consolas. Tive o PSVR no lançamento e sofri imenso com a baixa resolução do ecrã, a sensação artificial e o consequente motion sickness. Com o PSVR2 a experiência melhorou um pouco, mas continua longe do ideal — algo que não acontece com outros dispositivos VR de topo que já testei e analisei. Ainda assim, nunca os compraria: são caros e acabariam por ter pouco uso em casa.
Dreams of Another é uma experiência mais contemplativa do que propriamente um jogo tradicional, e que merece ser vivida com um dispositivo VR. Enquanto videojogo, não oferece grande desafio: é quase uma novela interativa, em que o jogador toma algumas decisões e se deixa envolver pela narrativa imersiva e pelo visual invulgar. O estilo gráfico é verdadeiramente distinto, lembrando uma colagem tridimensional feita com pequenos quadrados, como se tudo fosse construído em papéis post-it. A técnica — conhecida como “point cloud” ou nuvem de pontos — dá a sensação de estar num mundo composto por partículas flutuantes, semelhante à forma como objetos 2D giravam com a câmara nos velhos Doom, Wolfenstein 3D ou Duke Nukem. É difícil descrever com palavras, mas o resultado é visualmente fascinante — e, em VR, deve ser ainda mais impressionante.

A Q-Games, já conhecida pela série PixelJunk, volta a apostar numa excelente banda sonora assinada pelo artista japonês Baiyou. Essa componente sonora, aliada à estética diferenciada e à atmosfera emocional, é o que mais marca a experiência. Em termos de conceito, Dreams of Another gira em torno da ideia de que “não há criação sem destruição”, explorando o tema através de uma jogabilidade em terceira pessoa. O jogador alterna entre duas personagens — um homem de pijama e um soldado — que interagem com figuras misteriosas e objetos “sencientes” dentro destes mundos oníricos. A progressão baseia-se em destruir partes do cenário para descobrir itens e avançar. No entanto, a mecânica rapidamente se torna repetitiva, tal como os combates contra os “espíritos” que habitam objetos ou as “auras” de energia que precisam de ser libertas. Estes pequenos confrontos funcionam como mini-bosses, mas o ato de disparar contra eles serve mais como purificação do que combate — uma ideia interessante, embora pouco estimulante na prática.

A combinação de fases desconexas, sons abstratos e ritmo arrastado acaba por cansar. As vozes são lentas, e em pouco tempo dei por mim a saltar os diálogos para acelerar o jogo. Sem o suporte da realidade virtual — jogando apenas num ecrã tradicional — a experiência perde muito do seu impacto. Talvez em VR o jogo conseguisse manter o foco e a imersão que lhe faltam na versão “plana”. O sistema de melhorias é simples: explorar o mapa para recolher itens e trocá-los com um NPC por upgrades, como mais tempo de corrida ou munição extra. Funciona, mas falta-lhe profundidade e recompensa. Terminei Dreams of Another com a sensação de que “deveria tê-lo jogado no PSVR2”. É um título que merece uma segunda oportunidade, porque tem alma, ideias e uma identidade visual marcante. No entanto, como jogo, falta-lhe ritmo e variedade — e o seu encanto acaba por se dissipar com o tempo.

Se tiveres um dispositivo de realidade virtual, vale a pena experimentá-lo. Caso contrário, é provável que acabes por te distrair com o telemóvel a meio da sessão. Passada a surpresa inicial, a experiência torna-se lenta e repetitiva — e talvez funcionasse melhor como uma curta-metragem animada do que como videojogo. Este jogo merece ser revisitado com óculos de realidade virtual, para tentar recuperar a imersão que lhe falta para proporcionar uma diversão completa. Depois da surpresa inicial, o ritmo excessivamente lento e sonolento faz pensar que teria resultado melhor como uma animação, sem interatividade. A componente de ação falha, e a interação torna-se repetitiva. Ainda assim, vale a pena destacar o trabalho artístico dos animadores e do músico responsáveis pelo jogo.

Se tiveres um dispositivo de realidade virtual, vale a pena experimentá-lo. Caso contrário, é provável que acabes por te distrair com o telemóvel a meio da sessão. Vale pela arte e pela música — mas não pela jogabilidade.

Aprendi em 1983 com o Atari 2600 o que era um videogame. Sou do tempo da internet discada, das cartas em máquina de escrever e de conversar pessoalmente! Do Telejogo Philco-Ford ao telemóvel mais recente, gosto de experimentar games indies e de ajudar a se tornarem títulos AAA. Colecciono consolas e videojogos que fizeram parte da minha história! Pai, Motard e Gamer. 😉
