Voron: Raven’s Story é um jogo que se apresenta com muita simpatia. A própria thumbnail no Steam dá um ar de graça, de “deixa-me ver em que é que este simpático corvo precisa de ajuda”. Este é talvez, mas não sei, mais um cozy game; pelo menos assim o senti, já que foi outra proposta muito relaxante. O voar livremente pelos cenários, principalmente nas zonas mais abertas à exploração, dá uma sensação de liberdade que nós, humanos, todos gostaríamos de ter. Não é por acaso que há tanta fantasia construída à volta desta forma de deslocação desde tempos imemoriais. Só isto é suficiente para vos divertir durante alguns minutos, mas há aqui um pouco mais do que isso.
Começamos como um corvo acabado de nascer, guiados pelos nossos pais, que nos ensinam o básico — como voar, como apanhar coisas e, crucialmente, como interagir com almas. Em pouco tempo percebemos que a história de Voron gira em torno da mitologia nórdica. No início não entendemos muito bem o que tudo isto tem a ver com o nosso pequeno corvo recém-chegado ao mundo, mas depressa se torna claro que a nossa missão é guiar almas perdidas até ao seu destino, ajudando-as a encontrar paz. Não creio que este nosso simpático herói exista literalmente na mitologia nórdica — se alguém souber, que me diga! — mas presumo, até pelos discursos que temos com o nosso pai logo no início, que servimos Odin. Isso leva-me a crer que estará relacionado, ou que é pelo menos inspirado, em Huginn e Muninn, os dois corvos mitológicos que viajavam pelo mundo a recolher conhecimento para o Pai de Todos. No fim, que chega de forma algo abrupta, fica quase tudo em aberto: não há uma verdadeira conclusão dos vários eventos, apenas o fecho do objetivo estabelecido praticamente desde o início. Talvez nunca fosse para haver mais do que isso. Talvez eu tenha fantasiado com a possibilidade de um final feliz mais explícito.

O jogo em si acaba por ser muito simples. Temos alguns cenários abertos que podem ser explorados livremente e outros mais focados na resolução de puzzles. Estes dois tipos de áreas vão-se intercalando para oferecer variedade e cortar alguma possível monotonia. Sendo que o jogo me durou cerca de três horas, não considerei isso um problema — antes pelo contrário: quando saímos dos corredores mais conscritos para a natureza, para as colinas abertas ou para as zonas montanhosas, é uma verdadeira lufada de ar fresco. Os puzzles são simples e diretos: transportar objetos para certas áreas, ativar mecanismos, ou então passar entre aros num espaço de tempo limitado. Nada que nos faça coçar a cabeça durante demasiado tempo, mas cumprem o propósito de manter o jogador envolvido e de quebrar o ritmo entre secções de simples deslocação.
O que funciona realmente bem em Voron são os controlos. Pelo menos com teclado e rato, tudo é incrivelmente simples, super intuitivo e fácil de aprender. Quando saímos do ninho pela primeira vez, naquele momento inicial em que damos os primeiros batimentos de asa, parece que sabemos instintivamente o que fazer. E quando vemos que realmente resulta, que o voo tem peso mas não fricção excessiva, que a câmara acompanha bem e que não estamos constantemente a lutar com o jogo, a experiência torna-se quase meditativa.

Visualmente, Voron: Raven’s Story também tem o seu charme. Não é um jogo que impressione pela fidelidade gráfica, mas o estilo artístico é coeso. Há no entanto um problema, as texturas planas são abundantes e quando os terrenos têm cores similares, não dá para perceber bem a sua geometria, levando a algumas aterragens mais bruscas. Certos cenários, especialmente os que evocam o misticismo nórdico, conseguem ser bastante evocativos. Por exemplo quando vemos Yggdrasil, a árvore da vida, pela primeira vez, é impossível não tentar voar até ela. Spoilers, não dá. Acompanhado por um design sonoro discreto mas eficaz, com um piano meloso a dar-nos a banda sonora, há uma sensação de solidão, de dever e de contemplação,
No final, Voron: Raven’s Story é exatamente aquilo que parece ser: uma curta viagem, feita com humildade e que oferece algumas horas de calma, leveza e um toque de fantasia nórdica vista através dos olhos — ou melhor, das asas — de um corvo. É simples, é sereno, e se estiverem à procura de algo pequeno, simpático e que vos faça desligar um pouco, vale perfeitamente a pena.

Apesar de curto e simples, Voron compensa com atmosfera, serenidade e um toque de mitologia nórdica que lhe dá um charme próprio.
Ainda nem sabia falar como deve ser e já passava horas em frente ao meu velhinho 386. Hoje, continuo o mesmo: um fervoroso apaixonado por videojogos e por tudo o que lhes diz respeito.
