Gil D’Orey não chegou aos jogos de tabuleiro pelo caminho mais óbvio. Depois de anos em publicidade e design gráfico, decidiu virar página e foi buscar a inspiração a uma memória de infância, um Cluedo trazido de Londres por uns primos, que o deixou tão fascinado que usou o dinheiro de uma semana a lavar carros para o comprar. Hoje, mais de quinze anos depois, a Mebo é uma das editoras de referência no mercado português, com jogos próprios e licenças de marcas internacionais.
Conversámos sobre quinze anos de Mebo Games, sobre as decisões que moldaram a empresa e sobre a sua leitura honesta de um mercado que cresceu, mas que, na sua opinião, ainda tem muito caminho pela frente.
Gil D’Orei, fundador e a cabeça por trás da Mebo. Antes dos jogos de tabuleiro eras designer gráfico. Para quem não conhece o teu percurso, o que é que dirias que precisamos de saber sobre o Gil e o nascimento da Mebo para compreender a empresa hoje em dia?
O princípio da MEBO foi uma necessidade de criar alguma coisa de novo. Depois de muitos anos em publicidade e design, dar um novo percurso à minha vida. lembrei-me de uma coisa que gostava muito de fazer e que sempre gostei desde miúdo. Tinha aquelas recordações de infância, jogos em casa dos avós, os incontornáveis Monopólios. Apeteceu-me fazer uma coisa que fosse verdadeiramente interessante e que fosse diferente para mim, que me entusiasmasse. E foi assim que começou, foi essa vontade de fazer alguma coisa que goste, com que me identificasse e que me desse muito gozo. Não pensei que levasse tanto tempo e que houvesse tanta coisa que eu não soubesse. Havia muita coisa que eu não sabia fazer e ainda não sei.
Já tinhas projetos de jogos na cabeça por essa altura?
Não. Mas há assim memórias muito antigas que eu tenho de jogos de tabuleiros que me marcaram imenso. Lembro-me há muitos, muitos anos, eu tinha para aí 7 ou 8 anos ou e uns primos meus, que viviam no estrangeiro, trouxeram de Londres um jogo chamado Cluedo. Eu fiquei completamente vidrado naquilo. Repara que eu tinha em casa dama chinesa, xadrez e acho que a coisa mais inovadora era Monopólio. Fiquei doido com aquilo. Foi uma coisa que me marcou imenso como miúdo. Tanto que, nessas férias, tive a oportunidade de trabalhar a lavar carros e agarrei nesse dinheiro e comprei o jogo. Depois apareceu o jogo em Portugal. É assim uma memória engraçada: estares uma semana a lavar carros para comprares um jogo que achavas graça. O Cluedo é o que é, mas, na altura, em Portugal, não havia muita coisa. Se calhar essas memórias ajudaram-me a seguir esse caminho. Podia ter sido outro, tenho imensas paixões, imensos interesses, mas foi por aí.
Eu continuo a achar que ainda há uma grande falta de cultura geral dos jogos. Os festivais, LeiriaCon, VianaCon, têm imensa gente, mas acho que ainda é um nicho.
Imagino que não tenha sido muito fácil, tendo em conta sobretudo a realidade do mercado do dos jogos de tabuleiro em Portugal. Em 2019, disseste, numa entrevista à Lusa que a cultura dos jogos de tabuleiro em Portugal ainda era incipiente. Uma pandemia e alguns anos depois disto, ainda tens essa opinião sobre o panorama dos jogos de tabuleiro em Portugal?
Hoje em dia é bastante diferente. A quantidade de pessoas que conhece os chamados jogos modernos de tabuleiro não tem paralelo. Quando eu comecei com a empresa em 2010, ias à Fnac e tinhas uma prateleira pequenina com alguns jogos, ainda quase não havia traduções. Os jogos que havia nos hipermercados eram aqueles do costume. Hoje em dia, isso mudou muito. Basta veres outra vez na Fnac, a quantidade de jogos que há em português e a quantidade de festivais. De qualquer forma, eu continuo a achar que ainda há uma grande falta de cultura geral dos jogos. Os festivais, LeiriaCon, VianaCon, têm imensa gente, mas acho que ainda é um nicho. Eu vejo à minha volta a cultura do jogo, das pessoas se sentarem à mesa a jogar, ainda não é tão grande ou não está tão disseminada como eu gostaria.

Por isso é que nós criámos, com a ajuda do IAC (Instituto de Apoio à Criança), o Festival de Jogos de Tabuleiro. Ainda há muito a ideia de um jogo é para crianças. Claro que isso mudou muito. Nós nos últimos anos temos ido muito à Feira do Livro, agora já não mas, por outras razões – eles já não querem lá jogos de tabuleiro, só querem livros – mas era impressionante, via-se todos os anos cada vez mais pessoas interessadas, conhecedores já. E no Festival de Jogos de Tabuleiro isso acontece muito. É já o quinto ano, este ano foi na Universidade Nova de Carcavelos, e foi um grande êxito, com mais de 3000 pessoas a ir lá jogar. É uma fórmula que funciona muito bem em Portugal, do meu ponto de vista. Porquê? Porque, em Portugal, não há muitas lojas especializadas, porque as lojas que vendem jogos de tabuleiro estão todas afuniladas nos hipermercados e isso condiciona imenso o aparecimento de pequenas lojas que têm um serviço personalizado para o público. Em que tu entras numa loja, estejas curioso e digas “eu gostava de jogar este jogo, ou eu tenho dois filhos, ou eu tenho uns amigos, ou nunca joguei nenhum jogo, o que é que me aconselha?” É o mercado que há. Não me estou a queixar, mas é um mercado que não tem nada a ver com outros. Por exemplo, só em Sevilha, se calhar, há mais lojas de jogos de tabeleiro que em Portugal inteiro.
Imagina um caso típico de uma mãe que quer comprar uma coisa diferente para os filhos adolescentes, vai ao hipermercado e e compra uma coisa às cegas. E depois pode ter uma muito má experiência. Enquanto que se tu tiveres numa loja, normalmente tens alguém que percebe, que entende de jogos e que mostra algo adequado.
Em Portugal, essas lojas são um bocado canibalizadas pelos jogos de cartas, não é?
Sim, é o que é. É normal que o façam, que façam muito de importações e tudo porque não conseguem concorrer com os descontos comerciais. A aparição destas grandes superfícies comerciais, no meio de grandes centros urbanos, condicionou, para o bem e para o mal, o que é o mercado hoje. E para o mercado de jogos de tabuleiro, muitas vezes, isso não é muito simpático porque não permite as pessoas conhecerem e saberem o que é que estão a comprar. Imagina um caso típico de uma mãe que quer comprar uma coisa diferente para os filhos adolescentes, vai ao hipermercado e e compra uma coisa às cegas. E depois pode ter uma muito má experiência. Enquanto que se tu tiveres numa loja, normalmente tens alguém que percebe, que entende de jogos e que mostra algo adequado. Esse acompanhamento mais personalizado e que ajuda imenso a divulgar, não existe em Portugal. E isso é uma das grandes razões da criação do Festival de Jogos de Tabuleiro. É um festival que não tem uma ludoteca, tem jogos abertos, sempre com algum demonstrador lá que é para as pessoas chegarem, verem e se acharem engraçado, sentarem-se. Eu costumo sempre a dizer a brincar que a única regra que existe aqui (no Festival de Jogos de Tabuleiro) é não ler as regras. É uma maneira de nós contornarmos o mercado e essa dificuldade que existe no mercado. E divulgamos cada vez mais os jogos para famílias.
Hoje em dia há cada vez mais jovens, adultos, casais que, para eles, os computadores já é uma commodity, uma coisa comum, e que começam à procura de outras formas de se entreterem, de passar a noite, de estarem com os amigos e procuram ativamente os jogos de tabuleiro. Percebem que os jogos de tabuleiro têm outras valias que um jogo de computador nunca pode dar. Hoje em dia está muito diferente de 2019. Felizmente. Mas eu gostaria que fosse mais. Haver, por exemplo, um programa de televisão totalmente dedicado a jogos de tabuleiro. Era uma coisa que eu gostava imenso que houvesse, porque ajudava a divulgar.

O que é que achas que são os maiores obstáculos para a melhoria da situação dos jogos de tabuleiro em Portugal? Já indicaste um motivo: a questão das grandes superfícies que condicionam o aparecimento de pequenas lojas e o acompanhamento mais personalizado. Achas que há outros obstáculos? Criaram o evento do Festival de Jogos de Tabuleiro para as Famílias, que de certa forma até veio preencher aqui uma lacuna que havia na capital de eventos desse género. Que outras coisas achas que se podem fazer?
Eu não chamaria aos hipermercados obstáculos, porque eles depois também têm outras vantagens, como um grande poder de divulgação em termos de pores imensos jogos no mercado. Eu chamaria de condicionantes, é o que é o mercado. Em Portugal temos sempre muita tendência de dizer “esta é uma crise e estamos piores”. Não. São é as contingências do mercado. Eu vivo num país que tem 11 milhões de habitantes e que tem essas condicionantes, tem essas características e eu vou ter que lidar com elas.
A minha empresa tem crescido? Tem e as outras também têm. Tanto como eu gostava? Claro que não. Quem não gosta de crescer mais. Mas tenho essas características que me obrigam a fazer outras coisas, a ser diferente em termos de um mercado de retalho mais tradicional. Em Portugal temos de inventar, de criar outras coisas. Nós inventámos esse Festival de Jogos de Tabuleiro. Eu gostaria até de o ver replicado mais vezes ou até no Norte, por exemplo. Mas é uma coisa que, logisticamente, dá muito trabalho. É um grande investimento, não é só da nossa empresa, mas de todas as empresas. Isso foi uma das coisas que eu disse que fazia questão, quando eu falei com o Instituto de Apoio à Criança: que todas as editoras portuguesas de jogos de tabuleiro estivessem presentes ou fossem convidadas a estar presentes. Umas aceitaram, outras não, mas acho que as mais importantes estão lá e fazem um grande esforço todas elas para nós remarmos nessa direção, que é cada vez mais divulgar os jogos de tabuleiro.
O que eu posso melhor fazer em termos de empresa é tentar arranjar os melhores jogos possíveis que se coadunam ao nosso mercado e que tenham boa capacidade de divulgação. Os melhores jogos não significa jogos pesados ou leves. É uma questão de mercado.
O que é que há para inventar? Há tanta coisa para se descobrir e para inventar, mas, para já, o que eu posso melhor fazer em termos de empresa é tentar arranjar os melhores jogos possíveis que se coadunam ao nosso mercado e que tenham boa capacidade de divulgação. Os melhores jogos não significa jogos pesados ou leves. É uma questão de mercado. Nós, na MEBO Games estamos muito focados nos jogos para famílias e de mass market e, portanto, são esses jogos que tentamos trazer para o mercado português. Não podemos trazer todos. Só em Essen (Spiel), normalmente, saem para aí 1000 jogos novos por ano. Obstáculos há em todo o lado e todos os mercados. Portugal tem as suas particularidades e tudo o que eu tenho que me focar é trazer ou criar os melhores jogos (para o nosso mercado). E, de vez em quando, há assim uma boa ideia que se sai fora da caixa. Por exemplo, o Festival de Jogos de Tabuleiro.
Claro que há jogos e jogos, jogos mais complexos que são super interessantes e que eu adoro, mas que não são adequados para o mercado e para a diversão do mercado. Eu às vezes costumo brincar que na Leiria Con, que é uma convenção que vamos, se rebentasse uma bomba lá, o mercado de jogos pesados em Portugal acabava. Somos poucos nesse aspeto e, portanto, o nosso foco não está nesses jogos, mas nos jogos para mass market, nos jogos familiares e é isso que tentamos todos os dias.
Até porque estes jogos mais pesados acabam por chegar cá de qualquer maneira e o público interessado consegue adquiri-los.
Das nossas experiências com jogos desses, lembro-me, há muitos anos, um jogo do Vital Lacerda, o Vinhos, que nós distribuímos em Portugal na Fnac, vendemos 5. Depois, por exemplo, o Panamax, vendemos só 100 unidades em Portugal. Nem sequer, em termos financeiros, faz algum sentido às trazer esses jogos mais pesados e complexos. E as pessoas que consomem esse tipo de jogos, já nem sequer estão à espera que eles sejam traduzidos em Portugal. Isso é natural. O volume destas coisas conta imenso e a maneira de tu viveres financeiramente tem muito a ver com os volumes que fazes. Se só fazes 6 ou 150 jogos ou assim e jogos caros, não tens essa viabilidade. Por isso é legítimo que algumas distribuidoras só vendam esses jogos em inglês. É só mais uma circunstância desse nosso mercado.

Se houvesse só uma coisa, uma coisa apenas que pudesses mudar no ecossistema dos jogos de tabuleiro em Portugal, o que é que achas que mudavas?
Para ser honesto, se calhar dir-te-ia que gostava muito que houvesse possibilidade de haver muitas lojas, pequenas lojas de jogos de tabuleiro. Talvez fosse a coisa que me daria mais gozo. Temos outras possibilidades em termos de comunicar com as pessoas.
Achas que o mercado português está, não digo saturado, mas ainda com espaço para surgirem mais editoras, mais pessoas a criar jogos? Ou poderia haver já aqui um risco de não haver procura suficiente para um aumento na oferta do mercado?
Eu acho que ainda há muito para crescer em Portugal, mas para crescer em termos de divulgação dos jogos de tabuleiro para novas clientelas, pessoas que não estão habituadas a jogar jogos de tabuleiro. Há sempre espaço a concorrência e se houver vontade e know how para fazer empresas melhores, faz todo o sentido. Eu acredito piamente que a concorrência é uma coisa saudável e que isso obriga-nos a estar sempre com a pestana aberta, a ver o que é os outros estão a fazer e o que é que nós podemos fazer de melhor. Portanto, se há espaço para outras empresas? Se elas forem boas e fizerem um bom trabalho, eu acredito que sim. Umas vão aparecer, outras vão desaparecer, é uma coisa típica de um mercado destes. Mas acho que ainda há bastante espaço para isso.
Nas lojas espanholas, já noto uma certa saturação em que há demasiados jogos. A certa altura, há tantas novidades que há alguma dificuldade em gerir isso. Hoje em dia, é doloroso ver os jogos com 6 meses que já são considerados velhos. Tipo joguei 2 ou 3 vezes e já está de lado. Isso é bastante complicado em termos de uma empresa. O tempo que se demora a investir num jogo próprio, no tempo de vida dele e depois nasce e morre quase logo assim. São muito poucos os que resistem.
Dedicarmo-nos a jogos de autores nossos, nossos no sentido em que vieram ter connosco, apresentaram-nos a ideia, nós desenvolvemos e fazemos a parte editorial, é um enorme risco financeiro. As pessoas não têm consciência disso, mas são muitos milhares de euros que nós pomos e muitas horas de trabalho.
Como é que, atualmente, fazem a gestão entre os jogos que trazem para localizar em Portugal e as criações próprias? Como é que fazem esse equilíbrio?
No nosso catálogo, a maior parte das coisas são licenças. Até porque dedicarmo-nos a jogos de autores nossos, nossos no sentido em que vieram ter connosco, apresentaram-nos a ideia, nós desenvolvemos e fazemos a parte editorial, é um enorme risco financeiro. As pessoas não têm consciência disso, mas são muitos milhares de euros que nós pomos e muitas horas de trabalho. De repente, pode chegar ao mercado e afinal, o jogo é uma porcaria e vai para o lixo. Ficas com um armazém cheio. Mas continuamos a fazer e queremos continuar a fazer. Aliás, temos agora o Âmbar e o Crescendo, que são 2 apostas nossas este ano para Essen (Spiel) e queremos continuar a fazer isso, mas não fazemos tanto jogos como gostaríamos, mas os que fazemos tentamos dar sempre o nosso melhor e investir o máximo possível. Às coisas às vezes correm bem, às vezes correm mal, mas posso garantir que nenhum jogo que fazemos é deixado no berço. O que acontece é que o mercado nos diz “olha, não fizeste uma boa escolha”.
Portanto, há uma grande parte do trabalho da empresa que se dedica a isso, mas depois claro que representamos imensas marcas para Portugal e Espanha, que nós compramos licenças. Tentamos escolher o melhor possível, o que achamos que é melhor e mais adequado para o mercado e que seja um sucesso. Claro que aí o risco é menor, mas também os ganhos são menores. E depois há a parte editorial que dá um grande gozo fazer, é super importante. Acho que isso nos define não só como um mero distribuidor, mas como alguém que cria jogos e que, desde o princípio, é a nossa espinha dorsal.
E dos jogos da MEBO, de criação pessoal, qual é o qual é o jogo que te orgulhas mais?
É sempre o último. Acho que o último é que vai ser estrondoso e vai ser um êxito. Depois um gajo leva uma grande estalada do mercado e diz, pronto, então vai ser o próximo. De todos os jogos que fiz, alguns eu olho para trás com carinho a pensar “Que ideia tão estúpida que eu tive aqui? Como é que eu fiz isto?” Porque tu vais aprendendo sempre. Claro que há jogos que eu preferia, não digo não ter feito, mas podia ter feito muito melhor. Por isso é que dos jogos todos é o último o filho mais querido. Normalmente é natural que assim seja, que o último jogo já reflita tudo o que eu aprendi e que tenha uma história por trás.

Começou a jogar ainda os jogos se carregavam a partir de uma cassete de fita magnética. Completamente viciado em FIFA, é também fã incondicional de RPGs e Jogos de Estratégia. Junta, aos videojogos, a paixão pelos jogos de tabuleiro.
