The RPG é uma daquelas experiências que nascem já com a intenção de brincar com os imensos jogos do género. Desde o título — propositadamente genérico, quase uma piada por si só — até ao marketing que o apresenta como uma espécie de “Skyrim minimalista”, tudo aponta para uma proposta satírica que não se leva demasiado a sério. E é justamente aí que reside o seu encanto: não se trata de um RPG monumental com centenas de horas de conteúdo, mas de uma aventura curta e espirituosa que se apropria de clichés bem conhecidos e os devolve ao jogador sob a forma de paródia jogável.
O jogo desenvolvido por Dionysus Acroreites e lançado na Steam em Agosto passado e, apesar da sua escala reduzida, conquistou de imediato a curiosidade de uma comunidade que valoriza experiências indie ousadas. Com 85% de críticas positivas, tornou-se rapidamente um exemplo de como a criatividade e a autorreferência podem, por vezes, ter tanto impacto quanto um orçamento milionário. Isto só vem provar que The RPG não pretende concorrer com os gigantes do género, mas sim rir-se deles, transformando as falhas habituais no género em mecânicas de jogo e algumas piadas.
A estrutura narrativa é deliberadamente simples: o herói é atirado para um mundo de fantasia repleto de masmorras, monstros e um dragão que ameaça a paz — até aqui, nada de novo. A diferença é que este dragão sofre de glitches constantes, um vilão que se teleporta para posições absurdas, trava diálogos de forma truncada e chega até a congelar a cena como se o jogo estivesse realmente a falhar. Em vez de estragar a experiência, este “bug intencional” é incorporado na trama, funcionando como crítica divertida às falhas técnicas que tantas vezes marcaram a memória dos jogadores de RPG´s massivos.
No plano da jogabilidade, The RPG aposta em sistemas acessíveis. O combate é direto, quase despido de camadas estratégicas complexas: ataques básicos, bloqueios oportunos e uso de consumíveis. A graça está na criatividade desses consumíveis: quem esperava poções encontra pedaços de pão que podem ser enfiados nas feridas para recuperar vida, ou ferramentas improvisadas que funcionam como feitiços rudimentares. A simplicidade torna o combate funcional mas nunca brilhante; o verdadeiro valor está no efeito cómico dos efeitos e na forma como desmontam o dramatismo típico do género.

A progressão é igualmente muito descomplicada. Em vez de árvores de talentos intrincadas ou sistemas de atributos minuciosos, o jogador vai desbloqueando melhorias visíveis e claras, que têm impacto imediato na forma de jogar. Esta abordagem não deixa espaço para “builds” complexas, mas também nunca confunde o jogador. Para quem gosta de otimizar até ao último detalhe, pode soar limitado; mas para quem se interessa por uma experiência mais leve, a clareza e a objetividade funcionam a favor.
Já no design de níveis, há uma surpresa positiva: mesmo com cenários minimalistas, The RPG consegue criar atmosferas distintas, alternando entre corredores de masmorra, ruínas iluminadas por tochas e ambientes exteriores estilizados. A estética simplista não pretende competir com realismo, mas antes reforçar o tom de sátira, quase como se estivéssemos a jogar uma caricatura tridimensional de um RPG tradicional. Ainda assim, o jogo não se limita a ser um esboço: há segredos escondidos, atalhos engenhosos e puzzles acessíveis que incentivam a exploração.
Um dos pontos fortes é a forma como as escolhas, ainda que pequenas, se fazem sentir. Diálogos com NPC´s permitem respostas sarcásticas, neutras ou heroicas, e a reação do mundo varia em função disso, seja por recompensas diferentes, seja por caminhos alternativos desbloqueados. Não é uma experiência de ramificação profunda ao estilo de Baldur’s Gate ou The Witcher 3, mas é suficiente para dar ao jogador uma sensação de escolha e para reforçar a comédia, já que muitas das respostas são construídas como piadas.

Nem tudo, no entanto, resulta de forma ideal em The RPG. Certos momentos de ritmo quebram a fluidez: combates repetidos sem grande variação, secções de exploração que parecem estender-se apenas para aumentar a duração e algumas colisões que, mesmo dentro do espírito satírico, podem frustrar. O equilíbrio entre “piada intencional” e “falha real” nem sempre é perfeito, e há alturas em que o jogo corre o risco de cansar se jogado em sessões longas.
No fim, a sensação que fica é de um projeto que conhece as suas limitações e as transforma em virtudes. Estamos perante um jogo consciente da sua própria fragilidade, e é essa autoconsciência que o torna tão apelativo. Não é um título para quem procura profundidade épica ou gráficos arrebatadores, mas, sim, para quem aprecia humor inteligente e crítica ao próprio género de jogo em questão.

The RPG é um indie que cumpre a promessa de entreter sem pretensões. Oferece uma experiência bastante divertida e acima de tudo diferente, com piadas que vão ecoar sobretudo entre veteranos de RPG´s, habituados a lidar com glitches, sistemas rebuscados e heróis silenciosos. É uma sátira jogável que, ao invés de tentar esconder as suas falhas, faz delas o centro da experiência. Para quem procura uma experiência diferente e um toque de humor no género, é uma aposta a considerar, especialmente porque a demo gratuita na Steam permite testar de imediato se esta “paródia” é, ou não, do vosso agrado.

Jogo de tudo um pouco, desde a minha primeira consola de jogos, a Master System II. Desde aí muita coisa mudou, mas a paixão e dedicação aos videojogos permaneceu intacta.
Apesar de jogar de tudo um pouco, desde FPS a RPG´s, sou grande adepto de Fighting games, como o Mortal Kombat e ainda de jogos de desporto automóvel, como o Forza Motorsport. Também não dispenso boas séries e bons filmes. Sou grande fã de animes desde muito cedo, onde tenho DragonBall e Naruto como séries de eleição.
